Porto Velho (RO) segunda-feira, 23 de novembro de 2020
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Atocha no esgoto do Brasil


 
Professor Nazareno*

Porto Velho, a bisonha, suja e fedorenta capital de Roraima ganhou um daqueles dias, não se sabe ainda o porquê, chamado de inesquecível. Protegida pelo Satanás, seu padroeiro-mor, e candidata ao título de pior lugar do mundo para se viver, além de detentora do nada invejável título de “a mais suja, feia, podre e desarrumada capital do país”, sem nenhum IDH e com uma coleção infinita de problemas, eis que, de uma hora para outra a “capital das sentinelas avançadas” ganha seus poucos minutos de fama: é que chegou por aqui, vindo não se sabe bem de onde, um tosco “pedaço de pau” com um fogo em uma de suas extremidades, feio, ridículo e desajeitado que mais se parece com um “baseado eletrônico de maconha”. A “geringonça medonha” pôs-se a encantar beiradeiros e matutos numa proporção jamais vista por estas redondezas caboclas.

Não tive coragem suficiente para ver aquele “inútil e demoníaco trambolho”. Fecharia os olhos diante da coisa. E se me fosse dada a desonra de carregá-la pelas ruas podres e sem esgoto, deixaria cair no chão sujo ou a rebolava no rio Madeira só para ver a mortandade de peixes. Mas a adoração estúpida que lhe fizeram dava claros sinais de que era a vinda do próprio Cristo que estava se consumando, e ainda por cima, nestas horrendas “paragens do poente”. Porém, os capiaus não se fizeram de rogados. E como castigo maior lhe impuseram sofrimento e horrores que ela jamais esquecerá: uma city tour pelo lodaçal, lixo e monturo. Viadutos inacabados, Espaço Alternativo, cemitério de locomotivas, ponte escura, pífia rede de esgotos, “açougue” João Paulo Segundo, banheiros da rodoviária, dentre outras “atrações turísticas” claro que lhe assustaram.

Percebe-se que aquele “bicho feio e sinistro” chegou por aqui antes da decência e do desenvolvimento. Chegou também antes da consciência política para se votar e antes até da água tratada, do saneamento básico, da iluminação pública e da arborização. Encontrou um povo acomodado que tem medo do progresso e odeia ladrões, mas quase sempre só elege candidatos desonestos. Desonestos e muitas vezes incompetentes. Com tanta gente feia, mal vestida e desajeitada, a cidade mais importante dos roraimenses sucumbiu facilmente aos encantos da “marmota indesejável”. “O que diabos isso veio buscar aqui”? Devia ter sido a pergunta mais comum entre a alegre matutada. “Deve ter vindo trazer a fartura, a bonança, o alimento, o conformismo, a bem-aventurança, a bondade, o emprego, a educação e a saúde pública de qualidade”, acreditariam outros.

Só se trouxe esses benefícios mesmo, pois medalhas olímpicas não combinam com um lugar onde atletas pedem esmolas nas esquinas para poder participar de competições nacionais. Pobreza, miséria, mentiras, fumaça, desemprego, corrupção, desvio de verbas, golpe parlamentar, zika, chikungunya, dengue, malária, morte de uma onça, além de muitas outras desgraças é o legado mais visível que este “venerado troço” deixou na região. A terra do fraco “Genus do tapetão” e da lendária “Arena Guaporé”, o Aluizão, nem devia ter sido visitada pelo pomposo “boi de ouro”. A imprensa marrom e reacionária transmitindo tudo ao vivo foi o máximo. O circo só não foi maior por que Boi e Carnaval não combinam com carniça, poeira, calor, lama e atraso. Os políticos, heróis dos eleitores locais, poderiam tê-la levado para o salão da Assembleia Legislativa ou o da Câmara de Vereadores. Ou ao “sem data” Flor do Maracujá. Haja festa na roça!

*É Professor em Porto Velho.

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