Segunda-feira, 8 de junho de 2026 - 17h28

Preso desde novembro de 2025 na Superintendência da Polícia
Federal em Brasília, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro passou as últimas semanas
construindo uma nova delação premiada. A primeira apresentada havia sido
rejeitada pela Polícia Federal por ser inconsistente e por não trazer fatos nem
provas contundentes a respeito do caso — além de conter argumentos que visavam
proteger seus aliados e comparsas na falcatrua.
O que se espera da nova proposta é que ela seja a mais
perturbadora da política brasileira recente, uma vez que deve envolver pessoas
do alto escalão da República, incluindo membros do Supremo Tribunal Federal.
Segundo apuração da CNN Brasil, o temor de ser transferido para
uma cela comum sinalizou que a nova delação seria mais robusta. O medo do larapião acelerou a
entrega do novo documento à PF e à Procuradoria-Geral da República. O documento
desta vez, conforme noticiado pela CNN Brasil após consulta a delegados
integrantes da equipe de investigação, contém mais nomes, mais informações,
mais datas e anexos complementares em relação à versão anteriormente recusada.
A PF avalia a proposta como “mais completa” e diz vê-la “com bons olhos”,
entendendo que há muito a avançar no inquérito.
O que a segunda proposta traz de novo é justamente o que faltou na
primeira: Profundidade. O ponto de maior tensão institucional envolve o
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Vorcaro afirmou na
proposta que firmou um contrato de R$ 129 milhões com o escritório da advogada
Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O argumento do banqueiro é direto
e incômodo: ele buscava “proximidade” com o magistrado. Ao mesmo tempo,
sustenta que não houve troca de favores explícita.
Dados da Receita Federal confirmam que o Banco Master pagou ao
escritório cerca de R$ 80 milhões no período, sendo R$ 40 milhões apenas em
2025. Em resposta, o escritório de Viviane Barci afirmou ter realizado 94
reuniões de trabalho com integrantes do banco, totalizando 267 horas, e
produzido 36 pareceres jurídicos. Negou qualquer atuação em causas no STF.
Alexandre de Moraes não é investigado formalmente. Mas a magnitude
dos valores e a declaração explícita de Vorcaro sobre o propósito do contrato
tornam o assunto um nó difícil de desfazer. A primeira versão da delação chegou
a mencionar um segundo contrato, de R$ 50 milhões, que nunca chegou a ser
assinado, também com o escritório da esposa do ministro.
Entre os parlamentares, dois nomes concentram atenção — e nenhum
dos dois entrou na delação por acaso. No caso de Ciro Nogueira (PP-PI), a
corporação havia descoberto, por conta própria, a partir da análise de um dos
oito celulares apreendidos do banqueiro, o suposto pagamento de uma mesada de
R$ 500 mil ao senador para que apresentasse propostas legislativas de interesse
do Banco Master — em especial a elevação do limite de cobertura do Fundo
Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A medida, que não
avançou no Congresso, poderia impulsionar fortemente a captação e os lucros do
banco. Como Vorcaro havia omitido exatamente esses detalhes na primeira proposta,
a PF não hesitou em recusá-la.
Nesta semana, uma nova apuração adicionou outro capítulo à relação
entre os dois: Vorcaro teria bancado as férias de Ciro Nogueira e de sua
companheira nos Alpes Franceses no ano passado, com hospedagem em hotel de luxo
e refeições em restaurantes de alto padrão. O senador nega irregularidades.
A inclusão de Nogueira na nova proposta ocorreu, segundo fontes,
após a PF localizar mensagens trocadas entre ele e o banqueiro. Entre as
comunicações recuperadas, há um relato do próprio Vorcaro à sua namorada, em
março de 2025, descrevendo uma reunião em que Hugo Motta e Ciro Nogueira
chegaram à sua residência “para falar com Alexandre” — referência que
investigadores interpretam como menção ao ministro Moraes. Há também registros
de um evento em Nova York, no Carnegie Club, em maio de 2024: uma degustação de
uísque que custou R$ 5 milhões e reuniu Nogueira, o então governador do Rio
Cláudio Castro e deputados federais. O episódio foi citado pela PF em uma das
fases da operação.
Já no caso de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a questão central é o
filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mensagens
vazadas à imprensa revelaram cobranças do senador a Vorcaro sobre os repasses
para a produção. Flávio Bolsonaro admitiu a existência de um contrato no valor
de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões foram efetivamente pagos. A nova
delação detalha todas essas transações. O senador confirmou publicamente ter se
reunido com Vorcaro após a prisão do banqueiro — um encontro que, à luz das
investigações, ganhou uma tonalidade diferente.
O rombo do caso Master foi de tal envergadura que Daniel Vorcaro
se prontificou a devolver R$ 40 bilhões. Como a PF e a PGR consideraram o
montante pequeno diante do desfalque promovido pelo banqueiro, Vorcaro, nesta
segunda proposta, ofereceu um aumento de 50%, chegando à impressionante cifra
de R$ 60 bilhões.
É importante destacar que, para o acordo ser homologado, Vorcaro
precisará apresentar provas inéditas e substanciais. Não basta narrar o que a
PF já descobriu por conta própria. Esse é o critério que separa uma colaboração
genuína de uma simples manobra defensiva.
Além disso, justificar mesadas ou contratos milionários como meras
“aproximações” com autoridades, como forma de defender aliados ou proteger
investigados, não dará sustentação jurídica à proposta de delação premiada.
O desconforto em Brasília tem suas razões. A lista de pessoas
potencialmente atingidas pela delação atravessa o Legislativo, o Executivo e o
Judiciário. A nova proposta foi entregue nos dias 1º e 3 de junho, acompanhada
de um adendo com informações adicionais elaborado pela própria defesa. Uma
reunião prevista para a quarta-feira (4) entre as partes foi cancelada porque
os investigadores pediram mais tempo para analisar o material.
A indefinição sobre o conteúdo exato do documento, somada ao
sigilo que ainda o envolve, alimenta um estado de apreensão que tende a se
prolongar. Enquanto isso, os cem dispositivos eletrônicos e os milhares de
documentos já apreendidos seguem sendo vasculhados. A investigação avança pelos
próprios meios — com ou sem a cooperação do banqueiro da sala com frigobar e
vista para o jardim.
O que se sabe até agora já é perturbador o suficiente para
entender por que a segunda chance de Vorcaro interessa, assusta e preocupa
tanta gente do alto escalão da República.
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.
Tenho dito!
Bady Curi Neto, advogado fundador do Escritório Bady Curi
Advocacia Empresarial, ex-juiz do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais
(TRE-MG) e Professor Mestre Universitário.
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