Quarta-feira, 3 de dezembro de 2025 - 01h20

Existe um instante silencioso em que a vida
nos cobra atenção: aquele momento íntimo em que percebemos que estamos nos
acostumando ao que nos fere. O ser humano tem esse vício antigo de se adaptar
ao desconforto — como quem aceita um sapato apertado porque “dá para aguentar”.
Dá para aguentar… até não dar mais.
A frase atribuída a Fernando Pessoa — “Não se
acostume com o que não o faz feliz.” — não é conselho leve, desses que servem
apenas para ilustrar uma legenda. É um aviso sério, quase um ultimato
existencial. Porque a infelicidade, quando permitida, se instala como um
inquilino abusado: entra sem pedir, se espalha e ainda exige silêncio.
E nós? Muitas vezes chamamos isso de rotina.
A verdade é que o espírito não nasceu para
viver em cárcere emocional. A vida pede movimento, reinvenção, honestidade
consigo mesma. Pedir pouco de si é uma forma discreta de autossabotagem;
aceitar pouco dos outros é um pacto silencioso com a resignação. E resignação
demais não é virtude — é desistência fantasiada de maturidade.
Felicidade não é euforia permanente; é
alinhamento. É quando o que você vive não contradiz o que você sente. Quando
sua alma não precisa cochichar pedidos de socorro enquanto você insiste em
dizer que “está tudo bem”.
Não, não está.
E admitir isso é apenas o primeiro passo. O
segundo é se levantar. O terceiro é partir — para onde quer que seja — contanto
que você não permaneça onde sua luz se apaga.
Porque, no fim das contas, acostumar-se ao que
não nos faz felizes é a maneira mais lenta e eficiente de desaparecer de si
mesma.
E você nasceu para presença, não para
ausência.
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