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Crônica

A convivência acadêmica pós pandemia


A convivência acadêmica pós pandemia - Gente de Opinião

A partir da descoberta do fogo, os sapiens passaram a uma nova etapa da evolução: se reuniam ao redor de uma fogueira, conspirando pelo surgimento de novas comunidades, escolhendo lideranças, enfrentando as necessidades com mais capacidade. O homem aprendeu, então, que pensar em grupo rendia maiores dividendos. Daí surgiram as grandes fraternidades brancas do oriente, as sociedades civis, abertas e secretas, as seitas e religiões, as academias gregas e europeias, etc., com influência marcante no poder. Um provérbio africano diz: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo."

 

Os séculos 17, 18 e 19 foram pródigos no surgimento dessas sociedades, a maioria voltada para a fraternidade, a troca de experiências, o crescimento das artes, das ciências, da justiça, além da implementação das regras para uma boa convivência. Com o tempo, os homens descortinaram um comovente segredo: viver não é só durar! Era comum, nos discursos de posse na ABL, a referência ao fato de que “agora, estamos condenados a conviver para o resto da vida”, o que implicava renúncia a personalismos, ao exercício de atitudes de arrogância ou prepotência.

As academias de letras, artes e ciências, surgiram no rastro deste segredo, quando se descobriu que a reunião de pessoas com os mesmos propósitos; a discussão sadia de temas que visavam a melhoria do convívio, o sorriso franco, o tapinha nas costas, o abraço, o café e o chá em grupo, eram os melhores remédios para uma vida mental sadia, feliz, alongando o tempo de prazer sobre a terra. As guerras e pandemias, ao longo dos anos, vem dificultando essas atividades prazerosas. Dói mais, quando a simples falta de uma sede, num universo de vários espaços públicos abandonados, interfere no exercício do prazer em grupo e na interação cultural com a sociedade.

Quando fundamos a Academia Rondoniense de Letras - ARL adubamos o terreno infértil das distâncias sociais, achando que cifras e letras poderiam florescer sob o mesmo manto da cultura. Estávamos imbuídos do propósito maior de que a academia se transformasse em uma confraria, onde sentimentos mesquinhos como o da inveja, do preconceito, da vaidade, do exclusivismo, fossem vencidos pela irmandade, pelo perdão, pela convivência, pelo amor ao próximo, de tal forma que desaparecesse do interior de cada um dos membros, o sentimento de solidão. Sem uma sede própria fica imensamente difícil a aproximação entre os participantes, assim como a elaboração de projetos conjuntos, para melhoria da educação e da cultura de nossa amada região. Academia de laços solidários é uma utopia necessária.

Nesses pouco mais de 6 anos de existência, a ARL, de certa forma, cumpriu com a missão primordial, atribuída a uma academia, mas por não possuir uma sede própria, descuidou-se do lado social, da convivência sadia entre seus membros. A Academia é um gesto de ousadia! Contudo entristece a todos nós, membros efetivos, que em pouco mais de 2 anos da posse dos novos acadêmicos, (14/03/2020), devido à pandemia, o tempo foi derrubando os tijolos que sequer sofreram a ação da argamassa da convivência, conturbando o silêncio da confraria sem teto. Entretanto, hoje, a pandemia já não assombra, ainda assim os confrades se esquivam de participar de eventos que deveriam contar com a presença de todos os empossados. Não queremos ser uma confraria de fantasmas, ainda não aprendemos a teletransportar o chá dos acadêmicos.

Recentemente Dr. Dimis, um dos mais entusiasmados membros da nossa confraria, recebeu uma importante comenda das mãos do Prefeito e apenas 3 confrades (William, Célio e Machado) dos 40 em atividade, compareceram ao evento. Vale lembrar que nesse evento, no Teatro Banzeiros, nós reforçamos o pedido por uma sede própria e recebemos a resposta positiva da secretária da Semed e do Prefeito. Estamos aguardando o cumprimento da promessa.

Nas últimas semanas, nossos confrades Cledenice, Célio e Zênia promoveram lançamentos de livros, que poderiam ter funcionado como reunião presencial: os dois primeiros no Teatro Banzeiros e Zênia no Talismã. Ao evento da Cleide apenas quatro membros, William, Nestor, Délcio e Ernesto compareceram, já no lançamento do Célio, os confrades William, Palitot e Bariani estiveram presentes. No lançamento da Zênia não compareci porque ocorreu no mesmo dia e horário do evento do Célio e foi num clube distante, também não sei quantos confrades compareceram.

Devemos lembrar aos confrades que quando redigimos nosso Estatuto e o Regimento Interno, trazíamos a experiência da outra academia, e tomamos o cuidado de não tornar os membros efetivos em vitalícios, assim pontuamos em alguns artigos a possibilidade da troca de categoria de membros que não comparecerem as reuniões, que não pagarem as mensalidades ou que não cumprirem com suas obrigações, na Diretoria e nas reuniões. A Assembleia Geral da ARL tem amplos poderes, acima até mesmo do Presidente. Enquanto não conseguirmos um grupo coeso, uniforme, que cumpra com os objetivos da entidade, vamos promovendo a inclusão de novos membros efetivos. A ARL não é escada, nem adereço de currículo.

Logo logo nossas reuniões presenciais acontecerão, já que a pandemia não mais assombra: tomara que a nossa sede própria se materialize, para que o êxito, social e literário, acarinhe o convívio despretensioso, que dará coesão e irmandade a um grupo renovável de escritores, cientistas e artistas ad immortalitatem.  

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