Sábado, 17 de janeiro de 2026 - 08h15

No mês de dezembro, mês húmido e sombrio,
aproveitei os raros dias de céu lavado e, de amena temperatura, para almoçar
num centro comercial.
Após suculento repasto, juntamente com minha
mulher, percorri pausadamente vários estabelecimentos, e estaquei, por fim, numa
livraria – das poucas que conseguiram sobreviver à falência da leitura.
Estava eu a ver as novidades livreiras, quando
acidentalmente, escutei diálogo travado entre senhora, e jovem de pouco mais de
doze anos, logo presumi que era sua filha.
- Preciso de comprar os "Maias" –
disse a menina. O professor de português recomendou a leitura desse livro, que
é próprio para a nossa idade.
Inclinando pudicamente os olhos, a mãe
murmurou, quase segredando:
-Já o li. Parece incrível que menina da tua
idade o leia. Como é possível, que professor diga – que esse livro é próprio
para a tua idade!...
Tagarelando afetuosamente, encaminharam-se para
a saída de mãos enlaçadas. A menina saltitava de contentamento, levando na mão
o grosso volume.
O diálogo entre mãe e filha, fez-me lembrar o
que Dona Emília Cabral, me contou, quase à puridade: a cena ocorrida entre a
Marquesa do Ficalho e a nora, Dona Maria das Dores, neta (como ela,) de Eça de
Queiroz.
Certa ocasião a Marquesa encontrou-a enterrada
no macio sofá da biblioteca, lendo, sofregamente, livro do avô. Qual? Já não me
recordo:
- “Menina! - Bradou irada a respeitada fidalga.
Esse livro não é indicado para jovens da sua idade!...”
Devo revelar o leitor, se ainda não conhece,
que o escritor não queria que os filhos, principalmente a Maria, lessem as suas
obras.
A filha querida do grande estilista, só
conheceu as obras do pai, em Portugal, em Tornes, com avançada idade!
Tive oportunidade de conhecer as netas do
genial escritor, que me revelaram os escrúpulos de Dona Emília de Castro
Pamplona (Resende), sentia quando tinha que abordar livros do marido.
No tempo do Eça, mesmo décadas depois da morte,
a 16 de agosto de 1900, as meninas, mormente senhoras, consideradas da boa
sociedade, eram bastante recatadas; e se o aguilhão da curiosidade as
acicatasse a lerem livros do Eça, faziam no decoro do quarto. E nunca revelavam
que as conheciam, porque o pejo não lhas permitia.
Agora, em plena liberdade, na decadência da
civilização, as nossas donzelas: leem, conversam e debatem, temas mais
apimentados, que as cenas escabrosas, descritas pelo romancista.
Não admira, portanto, que os professores as
recomendem, até as incentivem, essas, e outras, moralmente mais reprováveis.
Não estamos no século XXI, onde tudo deve ser
lido, provado e incentivado?
Não estamos num " Mundo em Chamas",
interessante obra de Billy Graham ?
Segunda-feira, 19 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)
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