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Crônica

Onde moram as borboletas brancas?


Onde moram as borboletas brancas? - Gente de Opinião

Há casas que nos esperam em silêncio. Não como construções de tijolo, mas como espaços de reencontro. Mudei-me para uma residência que já era minha há alguns anos, embora meus passos jamais tivessem habitado seus cômodos. Não foi um retorno motivado por dor, mas por alinhamento. A vida apenas me reposicionou, como quem move uma peça no tabuleiro maior do tempo.

A mudança não nasceu de ruptura traumática, mas de consciência. Algumas transições são necessárias não porque algo se quebrou, mas porque algo amadureceu. Iniciei ali uma nova etapa da minha jornada, disposto a observar com mais atenção aquilo que antes passava despercebido.

No fundo do quintal havia uma pequena faixa de capim preservado. Não era descuido, tampouco desordem. Era um espaço onde a natureza seguia seu próprio compasso. E foi ali que descobri que o Universo, quando quer se revelar, escolhe dimensões discretas.

Todas as manhãs, ao abrir a porta da cozinha com o café ainda quente nas mãos, eu era recebido por uma revoada de borboletas brancas. Elas surgiam como se brotassem da própria luz, descrevendo movimentos suaves sobre as flores silvestres. Às vezes atravessavam a soleira da porta, pairavam por instantes no interior da casa e retornavam ao quintal, como mensageiras de um mundo invisível. Ali estava um universo em miniatura.

Não demorou para que eu compreendesse: aquilo não era acaso. Era correspondência. As borboletas, brancas, encontravam naquele pequeno território o que necessitavam para existir — alimento, abrigo, continuidade do ciclo. A vida responde ao ambiente que a acolhe. Onde há equilíbrio, há presença.

A metamorfose que as antecede sempre me pareceu uma das mais eloquentes expressões do design divino. A lagarta, ser rente ao solo, carrega em sua estrutura biológica um projeto de voo. Recolhe-se ao casulo, dissolve-se quase por completo, reorganiza-se em silêncio e emerge alada. A ciência descreve o processo com rigor admirável, mas não alcança o mistério essencial: o sentido. Como pode o que rasteja conter o código da asa?

Ali, diante dos meus olhos, estava a assinatura discreta do Grande Arquiteto do Universo — não como abstração teológica, mas como inteligência estruturante da realidade. Um princípio ordenador que transforma densidade em leveza, matéria em movimento, limite em expansão.

Durante meses, minhas manhãs foram acompanhadas por esse balé branco. Havia alegria na cena, mas, sobretudo, havia leveza. E leveza não é superficialidade; é estado de espírito. É a percepção de que a existência, apesar de suas complexidades, possui harmonia interna.

Com o tempo, decidi alterar a dinâmica do quintal. Construí uma cerca e introduzi quinze galinhas. Buscava outra forma de vitalidade, outra expressão de vida. Elas trouxeram movimento intenso, som, presença concreta. O espaço tornou-se mais funcional, mais organizado segundo uma lógica prática.

Mas galinhas ciscam. Revolvem a terra. Alimentam-se de brotos, sementes e pequenos insetos. Exercem, com eficiência, sua natureza. Gradualmente, o pequeno ecossistema se transformou. O capim rareou, as flores silvestres diminuíram, o solo ficou exposto. E, como consequência inevitável, as borboletas deixaram de vir. Não houve ruptura dramática. Apenas ausência.

Foi então que compreendi: ao modificar o ambiente, modifiquei o fluxo. O que muitos chamariam de “mato” era, na verdade, o substrato invisível onde o milagre se sustentava. Ao remover o abrigo, removi também o voo.

Numa manhã qualquer, abri a porta e percebi que o ar já não estava atravessado por asas brancas. As galinhas circulavam com vigor; o quintal estava vivo, mas de outra maneira. Foi nesse instante que compreendi que havia testemunhado, sem perceber, um delicado sistema de interdependência. O design divino não havia se retirado. Apenas se reorganizara.

O mesmo princípio criador que sustenta a leveza da borboleta sustenta a solidez da galinha. A mesma energia percorre ambos os seres. No entanto, cada manifestação provoca em nós uma experiência distinta. Uma nos ancora. A outra nos eleva.

É nesse ponto que reconheço a assinatura do Grande Arquiteto do Universo. Não como figura distante, mas como Inteligência que escreveu na matéria o código da transformação. A lagarta não é apenas um estágio inferior; é promessa. A borboleta não é simples evolução; é transfiguração.

Percebi, então, que apenas aqueles que cultivam sensibilidade conseguem enxergar o universo em miniatura. Num pedaço de capim, havia ciclos completos de nascimento, transformação e voo. Havia equilíbrio invisível. Havia uma pedagogia silenciosa ensinando que a vida floresce onde há espaço para diversidade.

Durante meses, minhas manhãs foram acompanhadas por esse balé branco. Havia alegria, sim — mas havia algo mais sutil: leveza. Aquele instante suspenso no ar transformava o gesto comum de tomar café numa experiência quase litúrgica. Não era espetáculo. Era correspondência entre ambiente e sensibilidade.

Hoje, quando abro a porta da cozinha, continuo encontrando alegria no movimento das galinhas. Há vitalidade concreta, há presença pulsante. Mas confesso que sinto falta da leveza suspensa no ar. Falta-me aquele instante em que o branco das asas interceptava a luz da manhã e transformava um gesto comum — tomar café — numa experiência de transcendência cotidiana.

Talvez essa seja a grande lição: o Divino está em tudo, mas nem tudo desperta em nós o mesmo estado de consciência. O universo fala o tempo inteiro; poucos estão dispostos a escutar. E eu sigo, atento, procurando preservar dentro de mim aquele pequeno território de capim onde as borboletas ainda possam pousar.

Aprendi que não basta desejar o voo — é preciso preservar o terreno onde ele nasce.

 *Rubens Nascimento é jornalista, formado em Direito, M.M Maçom-GOB e ativista do Desenvolvimento.

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