Quarta-feira, 4 de março de 2026 - 16h30

Há casas
que nos esperam em silêncio. Não como construções de tijolo, mas como espaços
de reencontro. Mudei-me para uma residência que já era minha há alguns anos,
embora meus passos jamais tivessem habitado seus cômodos. Não foi um retorno
motivado por dor, mas por alinhamento. A vida apenas me reposicionou, como quem
move uma peça no tabuleiro maior do tempo.
A mudança
não nasceu de ruptura traumática, mas de consciência. Algumas transições são
necessárias não porque algo se quebrou, mas porque algo amadureceu. Iniciei ali
uma nova etapa da minha jornada, disposto a observar com mais atenção aquilo
que antes passava despercebido.
No fundo
do quintal havia uma pequena faixa de capim preservado. Não era descuido,
tampouco desordem. Era um espaço onde a natureza seguia seu próprio compasso. E
foi ali que descobri que o Universo, quando quer se revelar, escolhe dimensões
discretas.
Todas as
manhãs, ao abrir a porta da cozinha com o café ainda quente nas mãos, eu era
recebido por uma revoada de borboletas brancas. Elas surgiam como se brotassem
da própria luz, descrevendo movimentos suaves sobre as flores silvestres. Às
vezes atravessavam a soleira da porta, pairavam por instantes no interior da
casa e retornavam ao quintal, como mensageiras de um mundo invisível. Ali
estava um universo em miniatura.
Não
demorou para que eu compreendesse: aquilo não era acaso. Era correspondência. As
borboletas, brancas, encontravam naquele pequeno território o que necessitavam
para existir — alimento, abrigo, continuidade do ciclo. A vida responde ao
ambiente que a acolhe. Onde há equilíbrio, há presença.
A
metamorfose que as antecede sempre me pareceu uma das mais eloquentes expressões
do design divino. A lagarta, ser rente ao solo, carrega em sua estrutura
biológica um projeto de voo. Recolhe-se ao casulo, dissolve-se quase por
completo, reorganiza-se em silêncio e emerge alada. A ciência descreve o
processo com rigor admirável, mas não alcança o mistério essencial: o sentido. Como
pode o que rasteja conter o código da asa?
Ali,
diante dos meus olhos, estava a assinatura discreta do Grande Arquiteto do
Universo — não como abstração teológica, mas como inteligência estruturante da
realidade. Um princípio ordenador que transforma densidade em leveza, matéria
em movimento, limite em expansão.
Durante
meses, minhas manhãs foram acompanhadas por esse balé branco. Havia alegria na
cena, mas, sobretudo, havia leveza. E leveza não é superficialidade; é estado
de espírito. É a percepção de que a existência, apesar de suas complexidades,
possui harmonia interna.
Com o tempo, decidi alterar a dinâmica do
quintal. Construí uma cerca e introduzi quinze galinhas. Buscava outra forma de
vitalidade, outra expressão de vida. Elas trouxeram movimento intenso, som,
presença concreta. O espaço tornou-se mais funcional, mais organizado segundo
uma lógica prática.
Mas
galinhas ciscam. Revolvem a terra. Alimentam-se de brotos, sementes e pequenos
insetos. Exercem, com eficiência, sua natureza. Gradualmente, o pequeno
ecossistema se transformou. O capim rareou, as flores silvestres diminuíram, o
solo ficou exposto. E, como consequência inevitável, as borboletas deixaram de
vir. Não houve ruptura dramática. Apenas ausência.
Foi então
que compreendi: ao modificar o ambiente, modifiquei o fluxo. O que muitos
chamariam de “mato” era, na verdade, o substrato invisível onde o milagre se
sustentava. Ao remover o abrigo, removi também o voo.
Numa
manhã qualquer, abri a porta e percebi que o ar já não estava atravessado por
asas brancas. As galinhas circulavam com vigor; o quintal estava vivo, mas de
outra maneira. Foi nesse instante que compreendi que havia testemunhado, sem
perceber, um delicado sistema de interdependência. O design divino não havia se
retirado. Apenas se reorganizara.
O mesmo
princípio criador que sustenta a leveza da borboleta sustenta a solidez da
galinha. A mesma energia percorre ambos os seres. No entanto, cada manifestação
provoca em nós uma experiência distinta. Uma nos ancora. A outra nos eleva.
É nesse
ponto que reconheço a assinatura do Grande Arquiteto do Universo. Não como
figura distante, mas como Inteligência que escreveu na matéria o código da
transformação. A lagarta não é apenas um estágio inferior; é promessa. A
borboleta não é simples evolução; é transfiguração.
Percebi,
então, que apenas aqueles que cultivam sensibilidade conseguem enxergar o
universo em miniatura. Num pedaço de capim, havia ciclos completos de
nascimento, transformação e voo. Havia equilíbrio invisível. Havia uma
pedagogia silenciosa ensinando que a vida floresce onde há espaço para
diversidade.
Durante
meses, minhas manhãs foram acompanhadas por esse balé branco. Havia alegria,
sim — mas havia algo mais sutil: leveza. Aquele instante suspenso no ar
transformava o gesto comum de tomar café numa experiência quase litúrgica. Não
era espetáculo. Era correspondência entre ambiente e sensibilidade.
Hoje,
quando abro a porta da cozinha, continuo encontrando alegria no movimento das
galinhas. Há vitalidade concreta, há presença pulsante. Mas confesso que sinto
falta da leveza suspensa no ar. Falta-me aquele instante em que o branco das
asas interceptava a luz da manhã e transformava um gesto comum — tomar café —
numa experiência de transcendência cotidiana.
Talvez
essa seja a grande lição: o Divino está em tudo, mas nem tudo desperta em nós o
mesmo estado de consciência. O universo fala o tempo inteiro; poucos estão
dispostos a escutar. E eu sigo, atento, procurando preservar dentro de mim
aquele pequeno território de capim onde as borboletas ainda possam pousar.
Aprendi
que não basta desejar o voo — é preciso preservar o terreno onde ele nasce.
*Rubens Nascimento é jornalista, formado em Direito, M.M Maçom-GOB e ativista do Desenvolvimento.
Quarta-feira, 4 de março de 2026 | Porto Velho (RO)
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