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Crônica

A batalha dos sexos


A batalha dos sexos - Gente de Opinião

No Brasil corre um ditado maldoso de que pobre não vota em pobre, preto não vota em preto e mulher não vota em mulher, esqueceram de acrescentar que índio não vota em índio, talvez devido à pequena quantidade de indígenas preocupados com o destino das reservas brasileiras, salvo o saudoso deputado federal Juruna que marcou época, manuseando como tacape, pelos corredores da Câmara, um velho e surrado gravador de fita cassete. Juruna, primeiro e único.

Mulheres, negros e indígenas sempre estiveram à margem das decisões políticas, no território brasileiro, talvez por isso o TSE criou as chamadas cotas de gênero, a partir da década de 1990. E, mais recentemente, as cotas raciais e as de distribuição das verbas de campanha e de propaganda eleitoral para mulheres, negros, pardos, caboclos e indígenas. Não temam votar em mulheres, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar: Mim sê Dilma, sou fenomenal e já fiz muito programa na vida. Cadê o saco pra estocar vento, Valdeci?

Os índices de participação política, das chamadas minorias, nestas eleições de 2020, aumentaram razoavelmente, mas ainda é pouco. O ideal seria que todos os cidadãos e cidadãs se sentissem representados, nas casas legislativas brasileiras, nas prefeituras, nas governadorias e até mesmo na presidência. Sem esquecer que uma boa gestão pública não tem gênero nem cor, o que está se discutindo aqui é a participação democrática insignificante da mulher, do negro e do indígena, no cenário da paridade das eleições representativas.  A honestidade e a capacidade não têm sexo nem cor.

Num universo de 21 vagas para a Câmara Municipal de Porto Velho, foram eleitas apenas duas mulheres: uma já possui cadeira cativa, como representante sindical e a outra desponta como defensora dos animais. É irritante um índice tão baixo, quando se sabe que, em Rondônia, existem mais eleitoras do que eleitores. A paridade não pariu.

Mulher não vota em mulher? Em Ariquemes foi diferente! Uma mulher soube sensibilizar a mulherada, com uma campanha denominada Onda Rosa e, contrariando tudo e todos, foi eleita prefeita da cidade. Entre os candidatos de 51 municípios de Rondônia, apenas seis mulheres se saíram vitoriosas. A capital vai ao 2º turno, com uma mulher na disputa, e já se fala numa revoada de guarás e flamingos, enfeitando os céus da cidade. Jacaré vai nadar de costas.

Os eleitores de uma cidade histórica da minha querida Bahia, Palmas de Monte Alto, preencheram com seis mulheres, as onze vagas da Câmara Municipal, para o próximo mandato. Um feito inédito na região! O que se lamenta é que muitas candidatas ainda se identificam com o nome do marido ou do pai. O coronelismo machista e o patriarcado deixaram marcas demoradas nas estruturas do poder. No referido município da região serrana do sudoeste baiano, Selma de Leotério (PSD), foi uma das eleitas, com a ajuda do nome do marido. Vote em Maria do sargento Nicolau, senão o pau vai comer. Quando será que vão eleger seu José de D. Raimunda? Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa!

Nestas últimas eleições, em todo o Brasil, menos de 0,05% das Câmaras de Vereadores tiveram mais mulheres do que homens eleitos. No Congresso Nacional, a participação das mulheres também é baixa. Estão em exercício apenas 54 deputadas, de um total de 513 parlamentares. Já no Senado Federal, são 13 senadoras, de um total de 81 parlamentares. Apenas 7 mulheres disputaram a presidência e uma venceu. Os números colocaram o Brasil na 154ª posição no ranking mundial da participação de mulheres no Legislativo, feito pela ONU Mulheres, que analisou 174 países. A 7ª não conta, não é mulher, é anta.

A ampliação da presença feminina e negra nos espaços do poder representa a correção de uma grave distorção da democracia representativa brasileira. No entanto, é apenas um passo, dentre muitos outros, que ainda precisam ser dados na mesma direção. O sucesso eleitoral das mulheres, negros e indígenas, nos municípios do Norte, certamente permitirá vislumbrar alguns dos próximos desafios para o aprimoramento da representação política no Brasil.  A sociedade não precisa ter medo de mulheres que voam: anjos e bruxas pertencem a séculos passados. Nem de negros, eles são maioria e se identificam como pardos.  

A batalha dos sexos, na política, excluindo-se o machismo e o feminismo, com pitadas de educação e instrução, deverá terminar, como uma simples queda de braços. A nossa torcida é por uma boa administração. Alea jacta est.  

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