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Silvio Persivo

UM SOPRO DE VIDA NA TELA


Obra de arte é aquilo que nos emociona, que nos faz pensar e sentir que nós, entes  efêmeros travestidos de carne, somos capazes de beirar o divino, de voar até os umbrais dos deuses. Obra de arte é, portanto um momento de síntese, de captação da essência de algum momento, tempo ou ser. Neste sentido o filme “Oscar Neimeyer- A vida é um sopro” é uma autêntica obra de arte. Fabiano Maciel e Sacha conseguiram fazer um filme que é uma autêntica obra de arte, uma obra prima, apesar do custo baixo do filme, porém, em certo sentido, isto talvez tenha colaborado para sua grandeza e estimulado a criatividade demonstrada nas soluções simples que a obra apresenta.

Efetivamente o roteiro é de uma pretensão franciscana. Até parece uma enumeração das obras de Niemeyer, de sua trajetória pessoal. No entanto o que poderia ser insosso ganha vida com a captação da humanidade do arquiteto, com sua presença e obra entremeando as diversas falas numa seqüência que se mostra generosa, porém também implacável na percepção do essencial. A verdade é que, embora seja um documentário aparentemente de louvação, a arte de Fabiano Maciel consistiu em desbastar o discurso, limpar os disfarces e mostrar Niemeyer nu e cru, um ser humano considerado genial, porém com suas contradições, com sua leitura de mundo, com sua complexidade que se apresenta tão simples no traço como na vida escondendo a cultura, a própria ausência da noção de que sua vida foi um sopro notável que, por mais que passageiro, se não moveu montanhas gerou edifícios e deixou marcas que hão de ficar por um longo, longo tempo.
 
Confesso que saí do filme de alma leve. Nem lamentei não ter tempo para fazer algumas perguntas ao diretor. E para que perguntas? Tudo estava lá na sua impecável obra. Seja no gesto e na fala de Oscar quando afirma que “Fodido não tem vez” ou, quando resume sua motivação implícita de vida, ao dizer que “mulher é importante”. Assim como as obras primas, como o filme de Fabiano que nos deixa certo de que a vida é um sopro, porém é preciso, indispensável mesmo, transformar o sopro em algo sensível como uma música, um poema, um quadro ou um filme. Fabiano, meus parabéns, você conseguiu. Não é apenas Niemeyer que se engrandece na tela. Você também. Ambos grandes artistas.

Fonte: [email protected]

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