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Silvio Persivo

Os desafios do Brasil num cenário global adverso


Os desafios do Brasil num cenário global adverso - Gente de Opinião

Quais são os objetivos centrais das políticas públicas adotadas pela quase totalidade dos 193 países membros da Organização das Nações Unidas? Em termos econômicos, dois vetores orientam a ação estatal:

1.    Elevar o Produto Interno Bruto (PIB) de forma sustentável no curto e médio prazo;

2.    Ampliar o nível de emprego, reduzindo ao mínimo o desemprego estrutural e conjuntural.

Estes dois objetivos não são independentes. O crescimento sustentado do PIB tende a expandir a demanda por trabalho, aumentar a renda média e, ao longo de ciclos de quatro ou cinco anos consecutivos de expansão, reduzir a pobreza de maneira consistente.

Quando a população cresce a taxas moderadas- ou até declinantes, como ocorre em diversos países- o aumento contínuo do PIB per capita torna-se o principal mecanismo de elevação do padrão de vida. O crescimento econômico prolongado:

·        Gera oportunidades de emprego formal;

·        Eleva a massa salarial;

·        Amplia a arrecadação sem necessidade de elevar alíquotas;

·        Permite maior investimento público em infraestrutura e políticas sociais.

Por outro lado, países que não conseguem sustentar taxas robustas de crescimento acabam enfrentando um quadro visível de estagnação: escassez de oportunidades, precarização do mercado de trabalho e perda de dinamismo empresarial.

O Brasil historicamente apresenta dificuldade em manter ciclos longos de expansão econômica. O crescimento ocorre de forma intermitente, interrompido por crises fiscais, instabilidade política ou choques externos.

A comparação entre governos recentes tornou-se tema de debate público, especialmente porque a gestão anterior enfrentou uma crise sanitária global e, ainda assim, apresentou indicadores de recuperação econômica que parte da sociedade considera superiores aos do momento atual. Este fato elevou o nível de cobrança sobre o governo de Lula da Silva, tornando mais difícil a atribuição exclusiva de responsabilidades a fatores externos ou a administrações passadas.

É inegável que o contexto global se tornou mais complexo. A interdependência econômica entre países ampliou a transmissão de choques. Sequências inesperadas de eventos- conflitos geopolíticos, oscilações nos preços de energia e aperto monetário nas principais economias-produzem efeitos relevantes sobre nações emergentes.

Entre os riscos atuais destacam-se:

·        Elevação das taxas de juros globais, com potencial recessivo;

·        Incerteza quanto aos preços do petróleo e derivados;

·        Aumento das dívidas públicas;

·        Pressões inflacionárias persistentes;

·        Desaceleração da economia mundial.

Para um país como o Brasil, dependente de fluxos internacionais de capital e da exportação de commodities, este ambiente representa um desafio adicional significativo.

Mesmo em cenários internacionais favoráveis, promover simultaneamente crescimento do PIB, geração de empregos, controle inflacionário e redução da pobreza já constitui tarefa complexa. Em um ambiente externo adverso, essa tarefa exige:

·        Disciplina fiscal consistente;

·        Previsibilidade regulatória;

·        Estímulo ao investimento privado;

·        Segurança jurídica;

·        Planejamento estratégico de longo prazo.

A crítica central presente no debate atual reside na percepção de ausência de um plano econômico claro, com reformas estruturais e estratégias definidas para melhorar o ambiente de negócios e elevar a renda per capita de forma sustentável. Paralelamente, observa-se aumento da carga tributária efetiva, ampliando a arrecadação sem que se percebam contrapartidas proporcionais em eficiência do gasto público ou melhoria dos serviços prestados à população.

O Brasil encontra-se diante de um duplo desafio: um cenário internacional desfavorável e as limitações internas de gestão econômica. A superação deste quadro não depende apenas de retórica política, mas de políticas públicas estruturadas, baseadas em responsabilidade fiscal, estímulo à produtividade e fortalecimento do setor privado.  Sem um plano consistente de crescimento sustentável, o país corre o risco de prolongar a estagnação relativa, atrasando o avanço na redução da pobreza e na melhoria do padrão de vida da população. O debate que se impõe, portanto, não é apenas eleitoral, mas estrutural: qual modelo de desenvolvimento será capaz de garantir crescimento contínuo, geração de empregos e estabilidade macroeconômica no longo prazo?

(*) É economista e Doutor em Desenvolvimento Sócio-Ambiental pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia-NAEA. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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