Quarta-feira, 4 de março de 2026 - 08h05

Quais são
os objetivos centrais das políticas públicas adotadas pela quase totalidade dos
193 países membros da Organização das Nações Unidas? Em termos econômicos, dois
vetores orientam a ação estatal:
1.
Elevar o Produto Interno Bruto (PIB) de forma sustentável
no curto e médio prazo;
2.
Ampliar o nível de emprego, reduzindo ao mínimo o
desemprego estrutural e conjuntural.
Estes
dois objetivos não são independentes. O crescimento sustentado do PIB tende a
expandir a demanda por trabalho, aumentar a renda média e, ao longo de ciclos
de quatro ou cinco anos consecutivos de expansão, reduzir a pobreza de maneira
consistente.
Quando a
população cresce a taxas moderadas- ou até declinantes, como ocorre em diversos
países- o aumento contínuo do PIB per capita torna-se o principal mecanismo de
elevação do padrão de vida. O crescimento econômico prolongado:
·
Gera
oportunidades de emprego formal;
·
Eleva
a massa salarial;
·
Amplia
a arrecadação sem necessidade de elevar alíquotas;
·
Permite
maior investimento público em infraestrutura e políticas sociais.
Por outro
lado, países que não conseguem sustentar taxas robustas de crescimento acabam
enfrentando um quadro visível de estagnação: escassez de oportunidades,
precarização do mercado de trabalho e perda de dinamismo empresarial.
O Brasil
historicamente apresenta dificuldade em manter ciclos longos de expansão
econômica. O crescimento ocorre de forma intermitente, interrompido por crises
fiscais, instabilidade política ou choques externos.
A
comparação entre governos recentes tornou-se tema de debate público,
especialmente porque a gestão anterior enfrentou uma crise sanitária global e,
ainda assim, apresentou indicadores de recuperação econômica que parte da
sociedade considera superiores aos do momento atual. Este fato elevou o nível
de cobrança sobre o governo de Lula da Silva, tornando mais difícil a
atribuição exclusiva de responsabilidades a fatores externos ou a
administrações passadas.
É
inegável que o contexto global se tornou mais complexo. A interdependência
econômica entre países ampliou a transmissão de choques. Sequências inesperadas
de eventos- conflitos geopolíticos, oscilações nos preços de energia e aperto
monetário nas principais economias-produzem efeitos relevantes sobre nações
emergentes.
Entre os
riscos atuais destacam-se:
·
Elevação das taxas de juros globais, com potencial
recessivo;
·
Incerteza quanto aos preços do petróleo e derivados;
·
Aumento das dívidas públicas;
·
Pressões inflacionárias persistentes;
·
Desaceleração da economia mundial.
Para um
país como o Brasil, dependente de fluxos internacionais de capital e da
exportação de commodities, este ambiente representa um desafio adicional
significativo.
Mesmo em
cenários internacionais favoráveis, promover simultaneamente crescimento do
PIB, geração de empregos, controle inflacionário e redução da pobreza já
constitui tarefa complexa. Em um ambiente externo adverso, essa tarefa exige:
·
Disciplina
fiscal consistente;
·
Previsibilidade
regulatória;
·
Estímulo
ao investimento privado;
·
Segurança
jurídica;
·
Planejamento
estratégico de longo prazo.
A crítica
central presente no debate atual reside na percepção de ausência de um plano
econômico claro, com reformas estruturais e estratégias definidas para melhorar
o ambiente de negócios e elevar a renda per capita de forma sustentável. Paralelamente,
observa-se aumento da carga tributária efetiva, ampliando a arrecadação sem que
se percebam contrapartidas proporcionais em eficiência do gasto público ou melhoria
dos serviços prestados à população.
O Brasil
encontra-se diante de um duplo desafio: um cenário internacional desfavorável e
as limitações internas de gestão econômica. A superação deste quadro não
depende apenas de retórica política, mas de políticas públicas estruturadas,
baseadas em responsabilidade fiscal, estímulo à produtividade e fortalecimento
do setor privado. Sem um plano
consistente de crescimento sustentável, o país corre o risco de prolongar a
estagnação relativa, atrasando o avanço na redução da pobreza e na melhoria do
padrão de vida da população. O debate que se impõe, portanto, não é apenas
eleitoral, mas estrutural: qual modelo de desenvolvimento será capaz de
garantir crescimento contínuo, geração de empregos e estabilidade macroeconômica
no longo prazo?
(*) É
economista e Doutor em Desenvolvimento Sócio-Ambiental pelo Núcleo de Altos
Estudos da Amazônia-NAEA.
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