Sábado, 14 de março de 2026 - 10h15

Apesar da
tentativa recorrente de dourar a realidade com indicadores reinterpretados ou
leituras otimistas do cenário econômico, os fatos acabam sempre se impondo. E
os fatos mostram que o Brasil tem perdido, ao longo das últimas décadas, uma
corrida decisiva pelo desenvolvimento.
Em 1995,
o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil foi de aproximadamente R$ 646
bilhões, em valores correntes. No mesmo período, o PIB da China alcançava 6,16
trilhões de yuans, o equivalente a cerca de US$ 738 bilhões à época.
Ou seja, naquele momento, as duas economias apresentavam dimensões
relativamente próximas.
Trinta
anos depois, porém, o contraste é contundente. Segundo dados recentes de
organismos internacionais, em 2024 o PIB da China chegou a US$ 17,32
trilhões, enquanto o PIB brasileiro atingiu cerca de US$ 2,17 trilhões.
Em outras palavras, em três décadas a economia chinesa passou de um patamar
semelhante ao brasileiro para uma dimensão quase oito vezes maior.
A
pergunta inevitável é: como isso aconteceu?
A
resposta passa, em grande medida, pelo ritmo de crescimento. Durante esse
período, a China sustentou taxas médias superiores a 7% ao ano,
impulsionadas por investimento, industrialização, exportações e forte expansão
da iniciativa privada. O Brasil, por sua vez, permaneceu preso ao conhecido “voo
de galinha”, crescendo em média entre 2,4% e 2,5% ao ano.
Mais da
metade dessas três décadas — 15 anos e 8 meses — foi marcada por uma
estratégia econômica baseada no crescimento conduzido pelo Estado, com aumento
de gastos públicos acima da arrecadação, estímulos ao consumo e ampliação do
crédito. Esse modelo produziu expansão temporária, mas deixou como legado
fragilidades estruturais.
Os sinais
desse desequilíbrio aparecem hoje de forma clara no cotidiano das famílias. Em fevereiro
de 2026, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,2% dos
lares, um novo recorde histórico segundo a Pesquisa de Endividamento e
Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio
(CNC).
A
percepção social confirma o quadro. O Índice Hibou do Consumidor Brasileiro
(IHCB) aponta que 78,9% dos brasileiros afirmam que o custo de vida está
muito acima da renda. Esse ambiente afeta diretamente a capacidade de planejamento
das famílias: 39,9% dizem não ter nenhuma segurança para planejar o futuro
financeiro, enquanto 38,4% relatam ter pouca segurança.
Sem
previsibilidade, não há planejamento. E sem planejamento, o futuro torna-se
incerto.
Há ainda
uma contradição curiosa no debate nacional. Parte da esquerda brasileira
costuma citar a China como exemplo de sucesso econômico. Entretanto, o modelo
que impulsionou o crescimento chinês foi justamente a abertura ao investimento
privado, a criação de zonas econômicas especiais, a integração agressiva ao
comércio internacional e a forte liberdade para empreender — características
típicas de economias orientadas pelo mercado.
Ou seja, a
China cresceu quando decidiu liberar as forças produtivas, enquanto o
Brasil continua frequentemente ampliando controles e entraves.
Aqui, até
mesmo os avanços parecem caminhar lentamente. A própria Reforma Tributária,
que poderia representar simplificação e racionalidade, ainda provoca
insegurança entre trabalhadores informais, microempresas e pequenos
empreendedores, preocupados com novos custos e maior complexidade operacional.
No mundo
inteiro, a fórmula do crescimento é amplamente conhecida:
segurança jurídica, ambiente favorável aos negócios, liberdade de
iniciativa, facilidade para empreender e carga tributária equilibrada.
O Brasil,
no entanto, segue na direção oposta em vários aspectos. A carga tributária é
elevada para o nível de renda do país — deveria situar-se, no máximo, ao redor
de 26% do PIB para economias emergentes — e os agentes econômicos
enfrentam um verdadeiro cipoal de leis, decretos e regulações que mudam
com frequência.
Somam-se
a isso a intervenção constante do Estado em setores produtivos e a persistente
dificuldade do poder público em manter suas próprias contas sob controle.
O
resultado é um ambiente que desestimula investimento, reduz produtividade e
limita o crescimento.
O Brasil
precisa voltar a crescer de forma sustentada. Para isso, será indispensável
melhorar o ambiente de negócios, estimular o empreendedorismo e recuperar a
confiança de quem produz, investe e gera empregos.
Em outras
palavras, é preciso soltar as amarras do Brasil.
(*) é
Economista e Doutor em Desenvolvimento Sócio-Ambiental pelo Núcleo de Altos
Estudos da Amazônia.
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