Porto Velho (RO) terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
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Gente de Opinião

Silvio Persivo

No te vayas Lio


 
Silvio Persivo (*)

Devo dizer que não sou um dos maiores fãs de Messi. Não nego que seja um jogador excepcional, mas, de certa forma, ele é o Zico argentino. Explico: ele e Zico tem, em comum, o fato de serem sempre regulares e, em momentos decisivos, serem até mesmo excepcionais, porém, sempre jogam de forma quase burocrática. E sei que vou desagradar muito os rubro-negros, mas, na verdade, como Messi, Zico foi um jogador que se fez pelo esforço, pela disciplina e não seria quem foi, ambos, aliás, se não jogassem na equipe em que jogaram. A grande diferença, talvez seja, que Messi veio da escolinha do Barcelona e nela se moldou, enquanto Zico precisou sair do Flamengo para se transformar num atleta no verdadeiro sentido. Messi, é verdade, conseguiu muito mais dinheiro e sucesso. Porém, penso que Zico foi muito mais perfeito em chutar e, para desespero meu, que sempre fui vascaíno, chutava com perfeição de qualquer jeito. Costumo dizer que Zico foi um dos últimos grandes ídolos brasileiros que sabia os fundamentos do futebol. Hoje tão esquecidos, e até mesmo vilipendiados, pela falta de treino, de disciplina, de aplicação. Os jogadores de hoje, muito bem pagos, podem ver pelo que fazem, desaprenderam a arte de chutar, de cabecear e, muitos, de driblar para a frente. De serem mesmo craques. São muito mais celebridades que eficazes no campo.

Voltando, no entanto, ao prato principal. Messi desfruta com Zico o dissabor de, na seleção, não conseguir ser o que é no seu clube e, para piorar, ambos falharam em momentos decisivos. Não consola, mesmo para Messi, um batedor de recordes, ser a estrela principal do mundo e não conseguir ajudar seu país a conquistar títulos. É uma coisa de profissional, sim, reconhecer as dificuldades e chorar por não conseguir fazer o que se esperava dele. É um fato que o honra tanto ter chorado, como considerar, mesmo não sendo verdade, na medida que ainda tem muito o que dar, dizer que não jogava mais por sua seleção por se sentir insatisfeito com sua atuação. Foi uma demonstração de seu alto nível de cobrança pessoal e um comportamento que honra sua carreira e seu país. Messi comprovou ser um verdadeiro argentino com a grandeza de seu gesto. A inconformidade com os limites é digna dos grandes gênios.

Assim, ouso dizer que é um fato político importante que, mesmo com a forte chuva que caiu sobre Buenos Aires, na tarde do último sábado, centenas de pessoas se reuniram no Obelisco, famoso monumento da cidade, para pedir que Messi não deixe a seleção argentina. Os fãs levaram bandeiras e cartazes com a expressão "No te vayas Lio" (Não se vá, Lio), usada desde o último domingo pelo jornal "Olé" para que o craque volte atrás, gritaram e cantaram. Um torcedor chegou a exibir uma bandeira em que o comparava a Deus. Certo que é um exagero, mas, que se pode esperar dos bons e orgulhosos argentinos? O que fizeram é um verdadeiro ato de humildade: reconhecer a grandeza de quem se esforçou para fazer o melhor e pedir que continue a fazer. Foi uma manifestação que foi honrosa para Messi, mas, também para os que a fizeram. De fato, Messi é uma estrela e, nos tempos atuais, qualquer seleção argentina ou até mesmo qualquer campeonato regional ou mundial, não há dúvida, que perde um muito do seu encanto, do seu brilho, sem ele. De forma que, como bom brasileiro, que gosta de bom futebol, também me associo, mesmo sem pegar a chuva que pegaram, e peço: Não se vá, Lionel. O futebol fica menor sem sua presença.

(*) É professor da UNIR-Fundação Universidade Federal de Rondônia de Economia Internacional e Professor Doutor em Desenvolvimento Sustentável pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos-NAEA da Universidade Federal do Pará-UFPª.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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