Domingo, 1 de março de 2026 - 11h20

Em meio século de
Rondônia, o jornalista cearense Ciro Pinheiro de Andrade viu a saga da
cassiterita. Seu olhar sociológico traz para análise histórica o trabalho duro
de animais de carga para garimpeiros e multinacionais do minério de estanho no
período 1960-1970
Por óbvios motivos, as
Redações de jornais prestavam mais atenção a balanços financeiros de fim de
ano, volume de estanho apurado e enviado à Usina Siderúrgica de Volta Redonda,
e nas festas promovidas pelas empresas, geralmente com almoços e jantares aos
donos de jornais, rádios e TV.
A pauta jornalística
cometia ainda o pecado de não escalar repórteres para acompanhar o
funcionamento de máquinas gigantes que resgavam a floresta para extrair
minério. Muito menos se interessava por burros e jumentos que suportavam no
lombo o peso dos sacos carregados com cassiterita apurada.
Tampouco historiadores
disseram, até então, algo a respeito. O capital atropela a própria literatura,
escondendo o heroico esforço animal no quintal e na floresta explorada por
multinacionais.
Quem analisar edições de jornais e revistas daquele período irá notar que as reportagens mostravam: aviões desaparecidos, indígenas, formação de vilas, o trem da Madeira-Mamoré, possíveis jazidas de diamantes, e a presença dos soldados do Exército em missões amazônicas. Burros e jumentos, se quiserem, só em fotos raríssimas de arquivos pessoais ou da Biblioteca do IBGE.

Para Ciro Pinheiro, o
burro e o jumento podem também ser vistos como pioneiros no Território Federal
de Rondônia. Antes do Hino do Estado eles já eram destemidos pioneiros, eu
concluo.
Algumas décadas atrás,
jumentos ‘importados’ do Ceará, depois de anestesiados, eram amontoados em
avião taxi aéreo e vinham parar nos garimpos do município de Porto Velho, cuja
extensão era ainda mais gigantesca que os seus 34mil Km². “Verdadeira saga”,
observa o jornalista.
Aqui, os animais eram usados pelas empresas mineradoras no transporte de cassiterita. “Somente o burro e o jumento, com suas colunas horizontais tinha condições de transportar o pesado minério de estanho, da lavra no meio da floresta, até o acampamento”, relata o jornalista.

Ciro presenciou várias
vezes o embarque desses que considera conterrâneos, no antigo aeroporto Caiari.
“Os bichinhos seguiam dormindo até o destino, lá nas minerações”, recorda-se.
Também o engenheiro
agrônomo pinheiro na assistência técnica rural em Rondônia, ex-deputado
estadual Luiz Carlos Coelho Menezes, conheceu a situação. “Quando cheguei aqui,
no ano de 1970, meu tio Raimundo era muito ligado ao garimpo; ele era conhecido
por Raimundo dos burros.”
Conta Menezes que o seu
tio Ormidas trazia burros do Nordeste e vendia para seringalistas do Acre,
Amazonas e Rondônia. “E o tio Raimundo participava dessa operação com mais
dedicação, e por isso recebeu o apelido.
Naquela ocasião, por
trabalhar com garimpo ele tinha muito contato com o pessoal do Departamento
Nacional de Produção Mineral (DNPM e com o próprio governador, coronel João
Carlos Marques Henrique.”
Em síntese: gente
importante e animais anônimos abriram campos minerais neste que atualmente é o
primeiro produtor de cassiterita no País.
___
NOTA
Marivalda Kariri, forrozeira raiz que andou por aqui nos anos1980, gravou 25 discos em
seus 60 anos de carreira, entre os quais, “A dança do jumento”. E ficou nisso a
homenagem ao animal. Como Rondônia é ingrata!
Domingo, 1 de março de 2026 | Porto Velho (RO)
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