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Montezuma Cruz

Quando assassinado, Agenor de Carvalho era o secretário geral do MDB, que inteira 60 anos


Quando assassinado, Agenor de Carvalho era  o secretário geral do MDB, que inteira 60 anos  - Gente de Opinião
Famílias do Bairro Floresta (Zona Sul) em Porto Velho: total confiança na defesa de Agenor de Carvalho (Foto Montezuma Cruz) - Gente de Opinião
Famílias do Bairro Floresta (Zona Sul) em Porto Velho: total confiança na defesa de Agenor de Carvalho (Foto Montezuma Cruz)

Homem simples, solidário com a pobreza e prático em suas ações, o advogado Agenor Martins de Carvalho, teve a sua vida interrompida pelo jaguncismo armado, antes de inteirar 35 anos. Em 9 de novembro de 1980 o MDB e o Território Federal perdiam seu herói na luta pela posse da terra. Outros foram mortos depois dele.

Não por acaso, mas numa busca improrrogável, 46 anos depois do atentado o Tribunal Popular contra crimes do Latifúndio julgará, sábado e domingo, crimes fundiários praticados contra camponeses, sem-terra, indígenas e quilombolas em Rondônia. 

Em que pese a má política hoje exercida por diversos de seus parlamentares, a essência do antigo MDB – que fez 60 anos dia 24 – guarda o histórico da resistência à ditadura militar.

O Tribunal Popular acontecerá no auditório do Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Rondônia (Sintero), em Porto Velho. No domingo serão apresentadas as alegações finais da acusação e defesa, reunião de corpo de jurados e leitura da sentença dos acusados. As inscrições serão realizadas no local.

Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), no ano passado a situação fundiária agravou-se no País, devido a disputas territoriais que resultaram em 13 mortos e diversos feridos. Rondônia teve sete assassinatos, dos quais três pessoas foram assassinadas numa só ocasião.

Criminalização

Em Rondônia, acampamentos camponeses são criminalizados há três anos por jagunços, pela Polícia Militar e Guarda Nacional. Na semana passada, o governo estadual publicou portaria se dando o direito de arrecadar terras devolutas. Estima-se que sejam mais de 15 milhões de hectares.

Advogados Populares, professores, estudantes universitários, Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos de Rondônia (Cebraspo) e Comitê de Apoio à Luta pela Terra (CALT) têm apoiado investigações e lutas indígenas e de camponeses em defesa de seu território nos municípios de Porto Velho, Ariquemes e Machadinho d'Oeste. Há outras áreas em perigo. O INCRA não avaliou até hoje a extensão dos acampamentos.

Advogada perseguida e presa

“Lutar não é crime” – diz o slogan do cartaz que pede liberdade para a advogada Lenir Correia, presa no dia 12 de novembro de 2025 em Ji-Paraná, a 367 quilômetros de Porto Velho.

Compromissada com os direitos humanos, defesa da Reforma Agrária e da justiça social no campo, a advogada é vista como ponto de equilíbrio no difícil amparo legal a comunidades vulnerabilizadas e constantemente ameaçadas pela violência no campo.

"Persegui-la em razão de sua atuação profissional é atentar diretamente contra o Estado Democrático de Direito, o direito à ampla defesa e a própria função social da advocacia", protestou recentemente a CPT.

A exemplo de Lenir, Agenor denunciava fraudes fundiárias, o que também resultou em dura perseguição da ditadura ao padre da Congregação Comboniana Giovani Zanotto, no município de Pimenta Bueno, no início dos anos 1980.

Agenor de Carvalho

O "advogado dos pobres" era também secretário-geral do MDB  (Foto Montezuma Cruz, colorizada por Luiz Claro) - Gente de Opinião
O "advogado dos pobres" era também secretário-geral do MDB (Foto Montezuma Cruz, colorizada por Luiz Claro)

Goiano de Porangatu, Agenor mudou-se com a família para o território federal no rastro de Jerônimo Santana, e dele se tornou o principal colaborador nas lides contra a opressão a posseiros inquietos. Sempre dispostos a auxiliar o advogado a pedir justiça para que tivessem direito a um lote, esses posseiros sofriam agressões físicas, psicológicas, e alguns morreram em consequência disso.

No pequeno escritório instalado numa sala na Rua Prudente de Morais, no Centro de Porto Velho, Agenor era constantemente procurado por famílias de sem-terra e sem–teto da Capital e do Interior. Era um raro personagem naquele cenário que mais privilegiava advogados com serviços contratados por insistentes pretendentes a terras devolutas.

Ao mesmo tempo em que defendia posseiros, acompanhava a vida partidária, viajando regularmente para o interior.  Era corajoso e obstinado, no período em que a Justiça dava sentenças em Brasília no âmbito do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios.

Sem juízes suficientes, Rondônia só contava com um juiz federal e, no Fórum Rui Barbosa, acumulava mais de dez mil processos. *

Sangue, suor e lágrimas em Cacoal

Quase 80 famílias perseguidas por jagunços ocupavam pedaços de terra na gleba Prosperidade, em Cacoal, a 500 quilômetros de Porto Velho. Ali, fazendeiros paulistas queriam a manutenção sobre terras também consideradas devolutas.

Perseguidas e insultadas na beira da cerca de arame farpado, essas foram despejadas e impedidas de retirar as colheitas de café, arroz, feijão, mandioca, milho, banana, abacaxi, e alguns porcos, patos, galinhas e cães de estimação. Tudo fora confiscado.

Agenor defendia o direito delas ao lote de terra, mas ocorreu um período de muito sofrimento entre 1978 e 1979, quando ações de despejo saíam rapidamente do Fórum Rui Barbosa, contrastando com a lentidão no assentamento dos posseiros.

Antes da chegada dos soldados da Polícia Militar à área, as famílias pulavam miúdo nas mãos de oficiais de justiça. Houve dois despejos ali: num deles, depois de três dias e três noites presos numa cela fedorenta, Jovino de Souza, da linha 9, relatava ao advogado: “Não deu tempo para pegar nada: eles apareceram às 8h. Seis jagunços mandaram a gente pôr as mãos na cabeça e em seguida retirar os trens para fora de casa. Depois, fomos saber que eles jogaram tudo no Rio Machado”.

“Catem tudo, que eu vou queimar a casa!”, gritava um policial, cercado por jagunços. O casal de posseiros Florivaldo Honório Xavier e Carmelita Xavier via o casebre ir abaixo. Por trás desses jagunços estava o capitão-de-Exército Antônio Domingos Sanson, vindo de São Paulo. Posseiros viram pistolas e metralhadoras nas mãos dos jagunços. Nenhum inquérito foi aberto para apurar o uso dessas armas privativas.

Em junho de 1978, um batalhão de soldados da PM executou a tiros o segundo despejo. Duas grávidas passaram mal. Quem mais amedrontava as famílias era José Joaquim dos Santos, o conhecido “Zé Bahia”. Quando ele aparecia, ranchos vinham abaixo com motosserras. O coordenador especial do Incra, Bernardes Martins Lindoso, ameaçava: “Tiro eles de lá na hora que quiser e quando bem entender, do jeito que fizemos no (seringal) Muqui”. “As acusações do advogado e do deputado de nada valem e pouco vão influenciar o nosso trabalho”.

Fraude em Pimenta Bueno

Agenor denunciava uma vez mais a Polícia Militar do território. Os abusos corriam a BR-364. Outro oficial de justiça requisitara a PM para despejar posseiros nas terras do fazendeiro Iberê, no município de Pimenta Bueno.

Naquele período já “entregavam” o padre Giovani Zanotto, o ‘João Caboclo’, à PM e ao SNI. O sacerdote pertencente à Congregação Comboniana, estava malvisto na região devido à sua intercessão em favor dos posseiros de outra fazenda – a São Felipe.

A escandalosa situação abalava a Seccional da OAB e o próprio governo territorial: o então juiz de Direito e mais tarde desembargador, César Montenegro, decretara o despejo de apenas cinco famílias, mas o oficial decidiu por conta e risco despejar 70 (!), valendo-se da linha dura imposta pelo comandante, coronel Ivo Célio da Silva, que depois foi demitido.

Horrores continuavam. Representando as famílias, Antenor Penasco, Manoel Alves dos Santos e Valdivino Martins Vieira foram de ônibus protestar em Porto Velho. Queriam indenização e denunciavam recibos dos fazendeiros, supostamente falsificados, de comum acordo com o que haviam constatado funcionários do INCRA, em maio de 1977.

O juiz substituto da Comarca de Porto Velho, Bruno Ferreira, não quis reintegrar as famílias. Seu colega José Clemenceau Pedrosa Maia, que gozava férias, assinou liminar mantendo a posse temporária em favor dos fazendeiros.

Agenor de Carvalho corajosamente contestou-a, requerendo a anulação do despejo. Só em janeiro de 1979, por maioria de votos, o Tribunal de Justiça do DF e Territórios revogava a decisão do juiz Clemenceau Maia e determinava o retorno das famílias aos lotes.

Espoliação urbana

Os empresários Fernando Sorviezowsky, Carlos Figueiredo e José Milton de Andrade Rios foram acusados de armar o complô para matar Agenor, que os incomodava ao defender centenas de famílias sem-teto perseguidas nos bairros Nova Porto Velho e Floresta (hoje Zona Sul).

Fernando era sócio de Figueiredo numa grande empresa loteadora, e José Milton, ex-dono de toda área do antigo Seringal Muqui, que lhe fora tomado pelo INCRA na gestão do capitão Sílvio Gonçalves de Farias,

Para o advogado Amir Lando, ex-senador, ex-constituinte, a morte do colega “fora anunciada”. Lembra que, em 1978 e 1979 Agenor já se sentia ameaçado, encaminhando denúncias à Seccional da OAB.  Apelava ao órgão de classe “porque nenhuma garantia lhe dariam os órgãos de segurança do Território Federal.”

___

* O juiz do Fórum Rui Barbosa, presidente do Tribunal do Juri, e depois desembargador José Clemenceau Pedrosa Maia, julgava 1.400 sentenças em 1978, mas no decorrer do ano surgiram mais de 3 mil processos novos, ocasionando um déficit de1.600. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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