Quarta-feira, 25 de março de 2026 - 16h38

No cômputo geral, em seis
décadas de história, o Movimento Democrático Nacional (MDB) obteve em Rondônia
vitórias que o colocaram na vanguarda política amazônica e nacional:
administrou diversos municípios, ajudou a escrever a Constituição estadual e
governou cinco vezes. Apesar de algumas adversidades políticas, Rondônia viu o
MDB na berlinda: tanto o senador Amir Lando quanto o senador Confúcio Moura, exerceram
a liderança e vice-liderança do Governo – coincidentemente, Luiz Inácio Lula da
Silva,
Em 1978, o mesmo partido cuja militância fora agredida a jatos d’água do
caminhão dos bombeiros, na Rua Joaquim Nabuco após um de seus célebres comícios
no terreno da velha rodoviária, chegaria ao poder pelo voto direto em 1987.
Na carroceria do caminhão,
com algumas lâmpadas acesas, e ao redor, centenas de pessoas, as pessoas
vibravam com palavras vindas do âmago daqueles políticos conhecedores da exata
medida do sofrimento de cada um.
Oposicionistas sofriam e
se envergonhavam pelo fato de apenas dois municípios – Guajará-Mirim e Porto Velho
– poderem realizar eleições para suas Câmaras e, em condições anômalas, se
conformarem com a nomeação de prefeitos aprovados.
Nisso, o desabafo de Almir
Canduri, Salomão Melgar e Salomão Silva, vindos de Guajará-Mirim, aumentava o
coro de uma gente descontente com o sufoco causado pela ditadura e, ali na
praça, dispostas a mudar.
Na transição entre o
regime militar e a redemocratização do País, o partido esteve no poder nos
seguintes períodos: Ângelo Angelim (10/5/1985 a 15/3/1987), na transição para
estado; Jerônimo Garcia de Santana (15/3/1987 a 15/3/1991), uma vez; Valdir
Raupp (1º/1/1995 a 1º/1/1999), uma vez; Confúcio Moura (1º/1/2011 a 5/4/2018),
duas vezes.
Amir Francisco Lando foi
senador da República e ministro da Previdência Social; José Ronaldo Aragão,
Valdir Raupp e Tomás Correia também foram senadores pela sigla.
Foi o coroamento de um
período iniciado nos anos 1970, quando ainda era forte o embate entre ‘cutubas’
e ‘pele curtas’ em Porto Velho. Em 1973,
o MDB lançava a ‘anticandidatura’ (derrotada) do deputado Ulysses Guimarães a
Presidente da República.
Na transição entre os
generais-presidentes Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, isso
significava a forma de demonstrar que eleições indiretas promovidas pela ditadura
não traziam de volta a democracia ao País.
Nas eleições de 1974,
quando findava o primeiro mandato do deputado federal Jerônimo Santana, era
permitido escolher pelo voto direto um senador por estado, além de deputados
federais e estaduais – menos no Território Federal de Rondônia e nos demais.
Aquele pleito foi
considerado um marco do período ditatorial que havia começado dez anos antes,
com o golpe de 1964, e se encerraria dez anos mais tarde com a eleição do
senador Tancredo Neves para a Presidência da República.
O MDB era o único partido
da oposição e ganhava as eleições em 16 dos 22 estados, surpreendendo a Aliança
Renovadora Nacional (Arena) e os militares. Amapá, Rondônia e Roraima,
territórios federas, não elegiam senadores, e da mesma forma o Distrito
Federal.
Segundo o arquivo
histórico da Fundação Ulysses Guimarães, estes foram os resultados para a
Câmara dos Deputados: Arena, 199, MDB, 165, totalizando 364 parlamentares. No
Senado, a Arena elegeu 46 e o MDB 20.
Tudo ao vivo, sem
gravações e sem marketeiro
Lições cada vez mais
aprendidas, o MDB se preparou, realizou convenções para a Câmara e o Senado,
embora em diversos estados, as maiores lideranças do partido optaram por
garantir uma eleição de deputado federal, escolhendo nomes com menos tradição
política para o Senado.
Conforme depoimento do
ex-senador Roberto Saturnino à Agência Senado, naquela ocasião a campanha no
rádio e na TV “não era nada parecida com o que é feito hoje.” “Não havia
produção, os candidatos davam entrevistas e participavam de debates ao vivo. Os
programas não eram gravados, mas o recado era dado ao vivo. Não tinha
marketeiro, não tinha gravação, nada. Era realmente gratuito, custo zero.”
E assim, as surpresas
aconteciam. Ainda segundo a Agência Senado, o ex-senador Paulo Brossard, eleito
pelo MDB no Rio Grande do Sul, participava de um debate eleitoral em 1974,
quando em dado momento perguntou ao seu adversário, Nestor Jost (Arena), se
confirmaria a declaração de que aplicaria o artigo 477 do Código Penal. Ao que
Jost manteve a afirmação, Brossard levou o seu exemplar do Código a Jost e o
fez ver que aquele artigo não existia naquela legislação. Jost ficou
desconcertado. Brossard contou esse fato à Rádio Senado numa entrevista em
2014.
“A economia ia mal”
O senador Pedro Simon
(MDB-RS), em depoimento à Rádio Senado, disse: “Os nomes (candidatos) da
revolução não tinham o que dizer. Eles vinham de uma grande vitória e não
ofereciam nada para a população. O governo, com o fim daquele ‘milagre
econômico’, das grandes obras, não consistia em mais nada. A economia ia mal,
os militares estavam numa confusão dos diabos, não tinham nenhum comando. Eles
passaram a perde credibilidade. Foi uma decomposição do regime. A inflação alta
e a queda no poder aquisitivo da população caracterizaram o período militar.”
Até arenistas aderiram ao
MDB
Segundo Simon, a mensagem
do MDB denunciando a ditadura e defesa das liberdades democráticas era o que
encontrava respaldo entre os eleitores. Mesmo quem não fosse do MDB adotou na
campanha a bandeira da liberdade e da abertura política.
Assim ocorreu com o
senador arenista por Alagoas, Teotônio Vilela, reeleito em 1974.
“O velho Teotônio já tinha
um discurso liberal a favor da distensão, que era também o discurso do MDB, que
teve grande aceitação no Brasil inteiro. Foi uma avalanche (na direção) no MDB.
O ‘Menestrel das Alagoas’, por estar mais afinado com o discurso de oposição ao
regime militar, migrou para o MDB no meio do mandato, em 1979, expondo ainda
mais a ditadura.”
Na reeleição de Jerônimo,
ditadura se surpreende
A eleição de 1974, que
marcou a reeleição de Jerônimo Santana (MDB-RO) para uma vaga na Câmara dos Deputados
mostrou o crescimento da insatisfação popular com a ditadura, mas também
demonstrou que o regime subestimou a necessidade da repressão naquele momento.
O território era governado
pelo coronel de exército Teodorico Gahyva, que fora nomeado pelo general-presidente
Emílio Garrastazu Médici, em 31 de outubro de1972. Essa nomeação coincidia com
a campanha para as câmaras municipais de Guajará-Mirim e Porto Velho, onde o
MDB oposicionista foi vitorioso, elegendo a maioria dos vereadores.
Segundo o historiador
André Jacobina, a ditadura “acreditava que teria uma vitória esmagadora e que
não precisava fazer força para apoiar a Arena.”
Assim, conforme ele
analisa, os reflexos do resultado eleitoral acenderam alertas no regime
militar. “Ainda que Geisel reconhecesse o recado das urnas naquele pleito, em
mensagem à população em dezembro de 1974, nos próximos anos o presidente
deixava claro que não iria permitir que a abertura democrática por ele
idealizada saísse do controle.”
Lei Falcão: candidatos
mudos
E o governo logo adotou
medidas direcionadas a evitar uma nova vitória da oposição. Em julho de 1976,
pouco antes das eleições municipais de novembro, Geisel sancionou a Lei Falcão
(nº 6.339/76), batizada com o sobrenome do então ministro da Justiça, Armando Falcão.
Resultado: apesar da
existência de apenas dois partidos, a Arena governista e o MDB oposicionista,
este elegeu16 senadores entre as 22 vagas em jogo. Era esse o número de estados
com representação no Senado na época.
Amir Lando, Valdir Raupp e Tomás
Correia

Em 1990, o catarinense
Valdir Raupp de Matos candidatou-se a governador de Rondônia pelo PRN. Obteve a
2ª colocação e iria disputar o segundo turno contra o candidato Olavo Pires.
Este foi assassinado antes do pleito e foi alçado à disputa o médico Osvaldo
Piana Filho, que foi eleito.
Raupp voltou ao
"ninho antigo", novamente se candidatando em 1994 ao governo, sendo
eleito em segundo turno. Tentou reeleger-se em 1998, mas perdeu para José
Bianco no 2º turno. Em 2002, elegeu-se senador por Rondônia. Foi líder do PMDB
no senado em 2007.

O advogado Tomás Correia
tomou posse no dia 17 de julho. Ele relatou que, durante os quatro meses de
mandato, participou de comissões temáticas, audiências públicas e debates sobre
temas legislativos. O senador acrescentou que também foi designado pelo PMDB
como membro da comissão que trata da reforma do Código Penal e apresentou 20
emendas sobre temas como aborto, eutanásia e drogas.
O senador destacou que
defendeu a transferência dos servidores do território de Rondônia para a
estrutura da União, e apresentou projetos propondo o aumento da validade do
passaporte e o fim da exigência de avalista no Programa de Financiamento
Estudantil (Fies) para atender estudantes reconhecidamente pobres.
Em 2012, o advogado, ex-deputado
estadual constituinte e ex-prefeito de Porto Velho, Tomás Correia, substituiu
Raupp por quatro meses, participando assiduamente de comissões temáticas,
audiências públicas e debates sobre temas legislativos. O PMDB o designou
membro da comissão que tratava da reforma do Código Penal, ao qual ele
apresentou 20 emendas sobre aborto, eutanásia e drogas.
Tomás. paraibano de
Granja, defendeu a transferência dos servidores do território de Rondônia para
a estrutura da União, e apresentou projetos propondo o aumento da validade do
passaporte e o fim da exigência de avalista no Programa de Financiamento
Estudantil (Fies) para atender estudantes reconhecidamente pobres.
Propôs, ainda, emenda à
Constituição (PEC) 53/2012, para facilitar o exercício da iniciativa popular na
apresentação de projeto de lei, ao estabelecer como requisito o mínimo apenas
um 1% do eleitorado do estado onde surgiu a ideia do projeto.

O senador José Ronaldo
Aragão, pernambucano de Santa Cruz do Capibaribe, médico e empresário, havia
migrado para o Paraná em 1975, onde trabalhou para o INSS. Daquele estado,
mudou-se para Mundo Novo (MS), e depois, Cacoal, onde filiou-se ao PMDB,
elegendo-se deputado estadual em 1982e senador em 1986, participando da
Assembleia Nacional Constituinte responsável pela Constituição de 1988.
Durante o mandato,
manifestou-se contra os altos índices inflacionários; criticou a intenção da
Secretaria Estadual de Planejamento em extinguir a Secretaria Executiva do
Projeto Planafloro.

O advogado Amir Francisco
Lando, catarinense de Piratuba, filiou-se ao MDB em 1980 e em 1983 participou
da Assembleia Estadual Constituinte. Assumiu a vaga deixada pelo senador Olavo
Pires, assassinado em 1990, e exerceu outro mandato, entre 1999 e 2004, sendo
em seguida escolhido ministro da Previdência Social durante o governo Lula. Foi
líder do Governo durante seu mandato como senador por Rondônia, depois deputado
federal.
Notabilizou-se ao ser
escolhido relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou o
escândalo de corrupção envolvendo o então presidente Fernando Collor de Mello e
seu tesoureiro da campanha eleitoral, Paulo César Farias, o "PC
Farias". Isso resultou no pedido de impeachment de Collor.

LAVADA DE VOTOS
● O MDB obteve ainda 335 dos 787
deputados estaduais e 160 dos 364 deputados federais, aumentando bem suas
bancadas nas assembleias, na Câmara e no Senado.
● Como é possível haver voto
direto em meio a uma ditadura que limitava direitos individuais, proibia
partidos de funcionar, fechava o Congresso, cassava políticos, enfim, editava
medidas que desrespeitavam o que dizia a própria Constituição vigente?”
● Esse paradoxo tem origem no
próprio golpe de1964. Apoiado pela classe média urbana e até por políticos, o
regime que se instalou após a deposição do Presidente João Goulart, a partir de
abril daquele ano, prometia não “radicalizar o processo revolucionário.”
● Também se comprometia a manter
a Constituição de 1946, como afirmava o Ato Institucional de 9 de abril, devolvendo
o País à normalidade democrática e confirmando a realização das eleições
diretas.
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