Porto Velho (RO) sexta-feira, 30 de julho de 2021
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Montezuma Cruz

Guajará-Mirim é top na culinária e na solidariedade com sua vizinha, no Beni


Guajará-Mirim é top na culinária e na solidariedade com sua vizinha, no Beni - Gente de Opinião

O incêndio é do lado de lá, quem socorre são os bombeiros brasileiros de cá. Safras agrícolas de Guayaramerín (Beni) para exportação entram pelo rio Mamoré, são registradas pela Receita federal e chegam ao porto organizado do rio Madeira, em Porto Velho. Tudo gira em função de Guajará-Mirim (46 mil habitantes) na fronteira brasileira com a Bolívia, um município diferente até na solidariedade sul-americana, que no sábado (10) completando 92 anos.

É o único dos 52 municípios que decreta tradicionalmente feriado o dia seis de agosto, data da Independência do Estado Plurinacional da Bolívia.

Antiga possessão mato-grossense, Guajará-Mirim foi instalado em 1929, ano do crack* da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Contudo, nunca se deixou abater pela desgraça norte-americana e sua gente nem se surpreendeu tanto, embora tenha reivindicado, quando o ex-presidente José Sarney o incluiu entre as Áreas de Livre Comércio no País.

Do rio Mamoré, em Guajará, até o rio Madeira, em Porto Velho, circulam cargas de exportação dos bolivianos,  informa Glenda Hara, coordenadora de comércio exterior na Superintendência Estadual de Desenvolvimento Econômico e Infraestrutura (Sedi).

Conforme a Sedi e a Sociedade de Portos e Hidrovias do estado de Rondônia, a Bolívia exportou R$ 17,2 milhões de óleo; R$ 8,3 milhões de arroz semibranqueado, polido. O estado que mais compra daquele país é o Rio de Janeiro: alhos frescos ou refrigerados, por exemplo, que totalizaram negócios de R$ 34,2 milhões no ano passado; depois, para São Paulo, R$ 14,3 milhões no mesmo período. Os bolivianos vendem ainda para o Distrito Federal, Mato Grosso, Acre, Espírito Santo e Minas Gerais.

“Nem tudo vem para o porto, mas a economia boliviana é pujante”, reconhece Glenda Hara. Todas as mercadorias exportadas via porto de Guajará-Mirim saem por rodovias (BRs 425 e 364) e peloo porto organizado de Porto Velho.

“Olha o açaí! Olha o açaí geladinho! Pan, empanada y tortilla!”. Se você ouviu estes gritos no meio de uma tarde modorrenta, certamente está em Guajará-Mirim, lembram os jornalistas Alexandre Badra e Ana Maria Mejia, filhos da terra.

Alexandre Badra, em seu programa Close não se cansa de mostrar os encantos turísticos regionais, entre eles, a secular festa do Divino e o Boi-Bumbá, quanto tem.

Guajará-Mirim é um termo oriundo da língua tupi: significa cachoeira pequena, mas há controvérsias de vários linguistas.

Com ruas e avenidas planas, a cidade facilita e convida as pessoas a andar de bicicleta. Tem até provas anuais de ciclismo promovidas pelo Corpo de Bombeiros Militar de Rondônia.

Nas lojas de maior procura, a bicicleta aro 29 nas marcas Lotus [do grupo Cairu, de Pimenta Bueno] e Colli [de Sarandi-PR) são vendidas atualmente por R$ 1800,00, divididos no cartão ou a vista. É alta a procura da bicicleta elétrica importada, cujo preço varia entre R$ 2.800 e R$ 3 mil.

No verde da Reserva Extrativista do Rio Ouro Preto, famílias de antigos seringueiros ainda extraem látex e cultivam babaçu, que entre outras utilidades, serve também para gerar energia elétrica.

Ali, mulheres se dedicam à produção de sabonetes coloridos artesanais, e os homens produzem botas e saias de borracha que já foram enviadas para Alemanha. A pesca amadora, liberada na época logo após a desova dos peixes, é outra grande atração. As belas praias do rio Pacaás Novos e a Serra dos Pacaás Novos também são espetaculares, mesmo ainda exploradas turisticamente.

No Distrito de Surpresa, onde existe farta produção de melancias vendidas na feira de Guajará, o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade preserva o Parque Nacional da Serra da Cutia. Com área de 216,5 mil hectares, o Parque Estadual de Guajará-Mirim faz parte desse imenso cenário verde. Criado com uma área original de 258 ha, ele perdeu 53,6 mil ha devido a títulos definitivos de propriedade da terra.

BOA CULINÁRIA

 

A professora Olga Mejia Brasil, ex-diretora da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Simon Bolívar, elogia a culinária local.  “Temos temos diversos de venda de saltenha pontos pela cidade, só no Centro são três”, ela informa.

Segundo a professora, as saltenhas bolivianas também são muito procuradas em Guajará. Elas são vendidas congeladas. “Pra mim são as melhores, porque são as mais fiéis à receita dos bolivianos.

O cominho é produzido a partir de uma planta usada desde os tempos dos celtas, e por árabes e romanos. Os preços variam de R$ 4 a R$ 5, dependendo do comércio, e as saltenhas por encomendas também, conforme o tamanho. O cento de saltenhas custa R$ 90; na compra do cento das grandes permanece o preço de unidade, R$ 4.

“As receitas variam um pouco, umas mais apimentadas, outras com maior quantidade de outros condimentos, entre eles, o cominho,  e inovaram também no recheio:  frango e camarão mas todas  se remetem à da Bolívia”, explica a professora.

Professora Olga: elogios à culinária   - Gente de Opinião
Professora Olga: elogios à culinária

A professora (foto), fã da culinária local, lembra que uma saltenharia entrega os produtos ao longo das rodovias BR 425 e 364, para revendedores da beira da estrada. “Todos gostam muito”, ela diz.

Ela também destaca o tacacá produzido na cidade. “O nosso  é feito com um tucupi custa R$ 3 o litro e tem sabor inimitável, não é zedo, e dele fazemos excelentes pratos, desde peixe a galinha caipira até a rabada no tucupi. O litro custa R$ 3.

Tacacá é um prato típico de origem indígena da região amazônica. Tucupi é o sumo amarelo extraído da raiz da mandioca brava quando descascada, ralada e espremida.

Ela também destaca o tacacá produzido na cidade. “O nosso  é feito com um tucupi custa R$ 3 o litro e tem sabor inimitável, não é azedo, e dele fazemos excelentes pratos, desde peixe a galinha caipira até a rabada no tucupi. O litro custa R$ 3.

Tacacá é um prato típico de origem indígena da região amazônica. Tucupi é o sumo amarelo extraído da raiz da mandioca brava quando descascada, ralada e espremida.

Mesmo com essa riqueza alimentícia, Olga Brasil, que também aguarda o retorno da maior festa da cidade, o Duelo na fronteira (competição anual dos bois-bumbás vermelho e azul), lamenta o momento vivido pela cidade, a exemplo de outras cidades brasileiras que estão impedidas de se divertir: “Lamentavelmente hoje, estamos carentes de cultura, e eu costumo dizer que Guajará vive uma lastimável depressão coletiva; mas o Soberano Deus nos dará forças pra continuar”.

A renda per capita de Guajará é R$ 18,2 mil, segundo o IBGE. Outros números do censo mais recente feito pelo instituto: 150 toneladas anuais de arroz em casca; 27 t de feijão; 675 t de milho; uma tonelada de amendoim.

O passeio de catraia também é motivo para moradores das cidades vizinhas visitarem ou venderem seus produtos - Gente de Opinião
O passeio de catraia também é motivo para moradores das cidades vizinhas visitarem ou venderem seus produtos

IRMANDADE COM A HOMÔNIMA

 

Quis a história que as duas cidades separadas pelo rio Mamoré tivessem o mesmo nome: Guajará-Mirim e Guayaramerín, ambas amazônicas.

Numa placa do outro lado do rio Mamoré, em Guayaramerín (Beni), estava escrito, quatro décadas atrás: El mar nos pertence por derecho, recuperarlo es um deber.

Esse slogan denota que o povo boliviano tem direito ao mar, porém, ainda não se desenhou uma doutrina geopolítica capaz de direcionar a essa conquista, por outros meios.

A história indica que a ocupação militar chilena do porto de Antofagasta em 14 de fevereiro de 1879 foi o início da Guerra do Pacífico. Sem mar, 133 anos depois bolivianos do Beni (Amazônia Boliviana) se valem do porto organizado de Porto Velho para exportar seus produtos por embarcações que navegam pelo rio Madeira.

Na Superintendência Estadual de Desenvolvimento Econômico e Infraestrutura, a rota fluvial entre Porto Velho e Manaus se revela superior (para os bolivianos) à rota para os portos de Arica no Chile, e de Ilo e Matarani, no Peru.

* A Quinta-feira Negra (em inglês, Black Thursday refere-se ao dia 24 de outubro de 1929, quando ocorreu o crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque. O crash desencadeou a mais devastadora crise econômica da história dos Estados Unidos, considerando-se a abrangência e a duração dos seus efeitos. Marca o início dos 12 anos da Grande Depressão, que afetou todos os países ocidentais industrializados.

 

SAIBA MAIS

Em 13 de setembro de 1943, pelo Decreto-Lei 5 812, o município passou a fazer parte integrante do Território Federal do Guaporé, criado nessa data pelo ex-presidente Getúlio Vargas. No dia 21 de setembro do mesmo ano, pelo Decreto-Lei 5 839, a sua área territorial, somada a uma parte da área territorial do município de Mato Grosso (MT), ex-Vila Bela da Santíssima Trindade, passou a compor o novo município de Guajará-Mirim.

Essa composição territorial e sua confirmação definitiva como parte integrante do Território Federal do Guaporé se deu em 31 de maio de 1944 através do Decreto-Lei 6 550.

Pelo Decreto-Lei 7 470, de 17 de abril de 1945, Guajará-Mirim e Porto Velho passaram a ser os dois únicos municípios da divisão administrativa e judiciária do Território do Guaporé. Os novos municípios só vieram a ser criados nos anos 1980.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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