Sexta-feira, 27 de outubro de 2017 - 15h22

O cacique Waiapi, Tzako Waiapi, perdeu incontáveis parentes no começo dos anos 1970,
no primeiro contato de sua tribo com homens brancos / Foto AFP
“Quando pegamos a gripe, nós melhoramos, então, quando o sarampo começou, achamos que iríamos melhorar de novo. Mas o sarampo é mais forte, e as pessoas morreram em apenas um dia”.
ISTOÉ
Tzako Waiãpi lembra perfeitamente o dia em que viu, pela primeira vez, homens brancos caçando na Floresta Amazônica: em poucos meses, quase todas as pessoas que ele conhecia morreram de uma doença misteriosa.
Esse encontro no começo dos anos 1970 foi a impressionante colisão entre dois mundos – e também o início de uma tragédia terrível.
De um lado, os membros da tribo Waiãpi. Do outro, os pioneiros da tentativa implacável para minerar, desmatar e, de forma geral, explorar os recursos naturais da Amazônia. Nenhum deles sabia da existência do outro.
“Os brancos levantaram revólveres, nós tínhamos flechas e também reagimos, todos se enfrentaram”, lembra o cacique idoso da aldeia Manilha, no interior da Amazônia.
O incidente acabou em paz, mas os garimpeiros que adentraram as florestas estavam deixando na tribo Waiãpi uma arma muito mais letal que qualquer revólver.
Doenças como sarampo e gripe já estavam há muito tempo controladas em sociedades urbanizadas. Contudo, ao se espalharem entre povos indígenas sem imunidade para eles, os vírus explodiram como bombas.
“Os Waiãpi não estavam acostumados a essas doenças, e elas mataram as pessoas rapidamente”, disse Tzako Waiãpi, deitado em uma rede numa cabana feita de folhas de palmeiras, cercado de membros da sua família, todos usando a tradicional canga vermelha da tribo.
“Quando pegamos a gripe, nós melhoramos”, lembrou, “então, quando o sarampo começou, achamos que iríamos melhorar de novo. Mas o sarampo é mais forte, e as pessoas morreram em apenas um dia”.
Tzako Waiãpi não sabe sua idade exata, mas estima que tenha por volta de 80 anos. Contudo, sua memória do horror da juventude é dolorosamente vívida.
“Não sobrou ninguém para enterrar os mortos. Animais comiam os corpos porque ninguém tinha parentes vivos para enterrá-los”.
Na tentativa de lembrar quantas pessoas próximas ele perdeu, Tzako começou a nomear, um a um: mulher, sogro, sogra, cunhado, filhos. Então, interrompeu a contagem e acenou com a mão para indicar a realidade: gente demais para contar.
“Eles roubaram os Waiãpi das suas crianças”, afirmou.
– ‘Nunca mais’.
De acordo com a contagem do censo, a população Waiãpi foi reduzida a apenas 151 pessoas em 1973, ante as cerca de duas mil estimadas.
Membros de tribos dizem que havia outros grupos de Waiãpi, vivendo tradicionalmente entre o Brasil e a Guiana Francesa, que escaparam da praga graças ao isolamento.
Os sobreviventes e um subsequente programa de vacinação do governo ajudaram a tribo a se recuperar para os atuais 1.200 integrantes. Embora haja uma ausência assustadora de idosos nas aldeias Waiãpi, as crianças estão por toda parte.
Agora, não é a doença que atemoriza os Waiãpi, mas a pressão crescente do governo federal e dos lobbies industriais para abrir a floresta à mineração e ao desmatamento.
Uma tentativa frustrada do presidente Michel Temer neste ano de autorizar a exploração mineral na Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), em plena Amazônia, despertou o desespero da população indígena.
“Estamos lutando para que isso nunca mais aconteça. É isso que digo para meus filhos, meus netos, meu povo”, disse o cacique Tzako Waiâpi.
“Estamos prontos para a guerra, agora. Nunca iremos recuar”.
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