Quinta-feira, 4 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Montezuma Cruz

E Bolsonaro perde o bonde chinês


E Bolsonaro perde o bonde chinês - Gente de Opinião

O presidente Jair Bolsonaro cancelou o encontro que teria com o presidente da China, depois de esperá-lo por 20 minutos. Aparentemente, Xi Jinping se atrasou porque ainda estava conversando com o presidente da França, Emanuelle Macron. 


Aparentemente, Bolsonaro teve que desistir da reunião para não perder a hora de decolar de Osaka, no Japão, de volta ao Brasil. Tudo aparência.

A China desbancou os Estados Unidos da sua tradicional posição de maior parceiro do Brasil exatamente 10 anos atrás. Na relação comercial com o gigante asiático, dono da segunda maior economia do planeta, abaixo apenas dos EUA, o Brasil tem superávit: recebe mais do que paga. O que mais vende, porém, são matérias primas, commodities. O valor relativo dos produtos brasileiros é muito inferior ao das mercadorias que os chineses nos vendem, por conterem mais tecnologia.

Nos últimos anos, os chineses não mais se satisfizeram em receber em seus portos os produtos vindos do outro lado do mundo, principalmente minério de ferro e soja, de baixo valor agregado para muito volume físico. Decidiriam assumir o pleno controle da cadeia produtiva e de transporte das mercadorias. Passaram a comprar lotes e mais lotes de empresas brasileiras. Daí uma das suas frases de campanha e Bolsonaro: a China está comprando o Brasil.

Provavelmente informado sobre o significado mais profundo da afirmativa por gente capacitada a ir além de frases de efeito, de rasa compreensão dos fatos, como o astrólogo Olavo de Carvalho, Bolsonaro admitiu ter provocado um mal-entendido com quem mais fornece dólares ao Brasil.

O encontro de ontem seria para pôr fim a essa fonte potencial de atritos para que o presidente chegue à China, para onde pretende viajar em outubro, com direito a tapete vermelho (se é que a cor tem algum diferencial de tratamento num país que ainda é comunista politicamente).

A impressão que se tem é de que o cancelamento do encontro se deveu menos ao atraso de 20 minutos, perfeitamente compreensível e absorvível, e mais aos impulsos de grandeza, bufonaria e de bravata de Bolsonaro. Ele parece ter ficado ressentido com a atenção mínima que XI Jinping lhe deu, na mesa de banquete dos líderes do G20, enquanto tagarelava com Donald Trump.

O desequilíbrio na partilha da atenção é perfeitamente natural, tratando-se dos chefes de governo das duas mais poderosas nações do mundo. Mas se Bolsonaro ao menos dominasse um tatibitate em inglês, poderia ter conquistado mais do que os 10% que o vizinho lhe reservou.

O Itamaraty deveria convencer todo candidato monoglota eleito para presidir o Brasil, um país que, enfim, se globaliza, a um curso rápido do idioma mundial entre a eleição e a posse. Evitaria o constrangimento de se ver cenas de Bolsonaro como cego em tiroteio diante do interlocutor que tonitrua na língua de Shakespeare (agora também de Bush e Trump, para castigo do bardo de Stratford-upon-Avon por sua genialidade numa Terra medíocre).

A questão chinesa é tão importante e grave na agenda brasileira que Jair Messias Bolsonaro deveria engolir sua verborragia, tão vazia quanto a do seu guru, esquecer o orgulho, segurar o relógio e se impor aprendizado suficiente para torná-lo capaz de cortar o nó Górdio do desafio a que nosso maior parceiro comercial nos submete: como não se deixar levar apenas pelo superávit comercial, transformar matérias primas em produtos acabados e associação empresarial em ponte para um progresso bilateral, não por ordem de um novo colonialismo.

Como se diz em inglês: that’s the point, Mr. Bolsonaro

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoQuinta-feira, 4 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Quando assassinado, Agenor de Carvalho era  o secretário geral do MDB, que inteira 60 anos

Quando assassinado, Agenor de Carvalho era o secretário geral do MDB, que inteira 60 anos

Homem simples, solidário com a pobreza e prático em suas ações, o advogado Agenor Martins de Carvalho, teve a sua vida interrompida pelo jaguncismo

MDB governou Rondônia cinco vezes

MDB governou Rondônia cinco vezes

No cômputo geral, em seis décadas de história, o Movimento Democrático Nacional (MDB) obteve em Rondônia vitórias que o colocaram na vanguarda polít

Ícone da luta contra a ditadura, Jerônimo Santana ecoava em Brasília a voz dos desvalidos

Ícone da luta contra a ditadura, Jerônimo Santana ecoava em Brasília a voz dos desvalidos

Há capítulos da história dos 60 anos do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) que prosseguem atualmente com a marca de protagonistas pioneiros, ent

Governo de Rondônia vai arrecadar glebas devolutas

Governo de Rondônia vai arrecadar glebas devolutas

Na antevéspera das eleições gerais no País, o Governo de Rondônia fará a primeira arrecadação “sumária e administrativa” de terras devolutas após a

Gente de Opinião Quinta-feira, 4 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)