Segunda-feira, 15 de junho de 2026 - 09h50

O velho Salomão Oro Win perdeu a mulher, um filho e
seus irmãos. Ele mesmo enterrou os corpos. Isso ocorreu em1963 no Igarapé
Teteripe (ou Tabocal), na região do Guaporé, onde a crueldade dos seringalistas
João e Luiz Dantas dizimou muitos indígenas Oro Win resistentes à presença de
seringueiros sob o comando deles. A sede pela produção do látex trouxe ambição
e ganância àquela parte do Território Federal de Rondônia. Empregados armados
daqueles seringueiros disparavam contra homens e mulheres, toda vez que eles empunhavam
seus arcos e flechas.
O jaguncismo era semelhante no Guaporé e nas regiões
Norte e Noroeste de Mato Grosso. Empregados do Seringal do Arquinda (dono do Alto
Cautário), por exemplo, abriram as barrigas de mulheres grávidas, atiraram
crianças de peito para o alto e as apararam na ponta de terçados – barbarismo
igual ao praticado na Chacina do Paralelo 11, contra os Cintas-largas, em Mato
Grosso, também no século passado.
Na região atacada pelos seringalistas “em defesa de
seu patrimônio” apenas 57 Oro Win, mas o sarampo e a gripe os reduziram a 31.
Há histórias não contadas em escolas, e para sabê-las precisamos procurá-las.
Nos velhos escaninhos judiciários de Guajará-Mirim e,
conforme relataram antigos moradores nos anos 1980, quando a mortandade foi
lembrada, o seringalista Manuel Lucindo da Silva organizou uma expedição na
cabeceira do Rio Pacaás-nova, para contatar aqueles indígenas. Ele era dono do
Seringal São Luiz, em Guajará-Mirim, na fronteira brasileira com a Bolívia.
A manobra frustrou seu objetivo, e aí Lucindo decidiu “punir
os Oro Win”, revela o Processo-Crime 6.362/78. Participaram da expedição Luiz
Barbosa, Raimundo Bezerra e Francisco Marinho, e os índios Valdemar Cabixi e
Tem Noi Pacaá-nova. O grupo alcançou a aldeia e foi atirando para todo lado.
Alguns índios baleados conseguiram fugir para a floresta, mas não resistiram.
Saldo: nove mortos, dos quais, cinco crianças, um adulto, dois idosos e uma
jovem.
Uma idosa e duas crianças não morreram na hora, mas
foram posteriormente executadas pelo seringalista Lucindo, disse no
processo-crime o indígena Hotor Oro Win, filho de Salomão, que os sepultou. Os
documentos judiciais traduzem a barbárie: Maria Mixem Toc Oro Win, mulher de
Hotor implorou pela vida e só não foi liquidada por interferência de Valdemar
Cabixi.
Juntamente com alguns feridos, levaram-na para a sede
do seringal, mas no meio do caminho Maria percebeu que os outros ficaram para
trás. Ouviu tiros. Encarcerada no seringal, ela apanhou bastante, mas um dia
conseguiu fugir. Lucindo ordenou a Cabixi que a capturasse novamente. E assim
ele fez, chegando armado à aldeia, onde deparou com indígenas desnutridos e
apavorados.
Sem alternativa, os Oro Win se viram cercados pelos seringalistas de um lado e
pelos Uru-eu-wau-wau de outro. Renderam-se. Um mês depois, Lucindo mandou
incendiar as malocas. A resistência veio em seguida: os índios escaparam,
chegando às margens do Rio Parati, onde ficava o seringal do Sr. Miranda Cunha,
que pediu a Lucindo autorização para que Cabixi “resolvesse problemas” em sua
área.
Seringueiros estavam abandonando as colocações e isso
representava prejuízo para Miranda. Cabixi localizou novamente os índios e os
levou para o Seringal São Luiz, mas oito deles fugiram. Salomão buscou-os e
teve início, então, um período de escravidão indígena. Em troca do trabalho que
começava de madrugada, eles recebiam peças de roupa e comida. A escravidão
indígena durou até os anos 1970.
As mulheres sofreram mais: foram estupradas por
jagunços e por familiares do seringalista. Nessa mesma década, no Paralelo 11,
em Mato Grosso, jagunços das famílias Arruda e Junqueira matavam a tiros e a
golpes de facão homens e mulheres Cinta-larga. Naquele estado e em Rondônia o
extermínio indígena provocado por fazendeiros e seringalistas expôs a
perversidade amazônica, algo que fez escola até para o trabalho escravo branco,
que se repetiu no Vale do Guaporé até os anos 1990.
Os Oro Towati, por eles próprios autodenominados, são
remanescentes de um povo com sete clãs, todos dizimados e extintos. Cultivavam
farinha de mandioca, feijão, milho, bananas, galinhas e plantas medicinais nas
aldeias Pedreira e São Luiz, na cabeceira do Rio Pacaás-nova e nas margens do
Igarapé Água Branca. No entanto, sua área tradicional fica dentro da Terra
Indígena Uru-eu-wau-wau, que foi homologada pelo Decreto nº 275/91.
A Funai transferiu os Oro Win para o Posto Indígena
Rio Negro Ocaia e lá eles conviveram com os Wari’, dos grupos Oro Nao, Oro Eo e
Oro At. Existem e resistem.
QUEM SÃO
Segundo estudos de
David Philips, os Oro Win provavelmente fugiram os jesuítas espanhóis na
Colômbia, e subiram nas serras Pacaás Novos no século com o primeiro ciclo da
borracha. Eles vivem nas cabeceiras do rio Pacaás Novos, e suas terras
tradicionais incluem este rio e seus afluentes entre o igarapé São João subindo
nas cabeceiras até a serra dos Pacaás Novos. Os Uru-eu-wau-wau invadiram sua
terra no início do século 20. Os seringueiros chegaram na região nos anos 40 e
quando foi estabelecido o seringal São Luís em 1963.
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