Domingo, 11 de maio de 2008 - 16h35
Biodesenvolvimento é o grande negócio
MONTEZUMA CRUZ
Agência Amazônia
Quem tem recursos naturais em abundância, deve utilizá-los. É o caso da Amazônia, é o caso do Brasil. O biodesenvolvimento é um negócio muito mais amplo do que simplesmente bioenergia. Observem com atenção o que diz o economista João Paulo dos Reis Veloso, ex-ministro do Planejamento do Geisel, em entrevista à revista Desafios do Desenvolvimento, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
Veloso, hoje conselheiro do IPEA, foi ouvido pela revista depois que The Economist, a mais importante publicação mundial de economia, comentou que a natureza talvez tenha sido pródiga demais com o Brasil em matéria de dotação de recursos naturais. Verdade: no setor bioenergético o Brasil é vanguardista, já que detém a melhor tecnologia, o melhor tipo de etanol – não o etanol de milho, como se faz nos Estados Unidos, mas o da cana-de-açúcar, que é muito mais produtivo e não competirá com a alimentação.
Na entrevista, o ex-ministro manifesta sua crença em que o chamado biodesenvolvimento se reveste em negócio bem mais amplo do que simplesmente bioenergia. "Já se pode fazer até bioquímica", ele proclama. Menciona o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para reforçar a bioquímica no lugar da petroquímica.
Aos jovens: Veloso vem de um tempo em que as descobertas petrolíferas na costa brasileira surpreenderam. Foi colega de Shigeaki Ueki, paulista de Bastos (terra do ovo e do bicho-da-seda), então afilhado do general Geisel, que gostava muito dele. Tempo em que a petroquímica cresceu por força e incentivo de quem a ela muito se dedicava.
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| João Paulo Veloso: "Já se pode fazer até bioquímica" /DESAFIOS |
Sem agricultura e sem pecuária
Desafios perguntou a Veloso a respeito da melhor forma de explorar riquezas na Amazônia sem degradá-la. Resposta breve, objetiva: "Não se pode fazer agricultura nem pecuária na Amazônia. Só se pode fazer uma coisa: aproveitar a biodiversidade para fazer biotecnologia. A riqueza da Amazônia em matéria de biodiversidade é uma coisa fantástica. Mas isso é um potencial. É preciso transformar esse potencial em produtos, por exemplo, para a indústria farmacêutica, para cosméticos, para agricultura. Tudo o mais que se tente fazer, como desenvolvimento florestal, agricultura e pecuária, destrói a floresta e gradativamente vai acabando com esse grande potencial brasileiro", proclamou.
O ex-ministro mencionou que os países escandinavos começaram pelo aproveitamento dos setores intensivos em recursos naturais, mas envolveram todas as etapas da cadeia produtiva, com grande aplicação do que hoje se denomina (isto já está codificado) de economia do conhecimento. "Quando se têm recursos naturais, deve-se desenvolvê-los e usar também o fruto disso para transformar a economia, para passar a novas etapas. Fazer upgrade (atualização), para depender menos deles, porque há recursos naturais que não são renováveis. Os nossos ora são não-renováveis, como petróleo e gás, mas ora são renováveis".
Sabe-se que algumas plantas nativas amazônicas vêm sendo largamente aproveitadas pela indústria farmacêutica, de cosméticos e de perfumes. Discutem-se patentes, biopirataria e entrega-se parte da floresta rondoniense para grupos madeireiros explorarem, por exemplo, a copaíba! Se isso dará certo, o tempo dirá. A concessão é para 40 anos.
Da entrevista do ex-ministro, o propalado desenvolvimento florestal abre mentes e corações para um exame minucioso e de resultados. Até porque, a exploração da floresta no Acre possui características próprias, outras em Rondônia, outras no Pará, os dois últimos, sob a sombra da degradação. O Amapá, com seus mais de 90% de verde conservado e quase intacto, ainda representa um oásis, cuja conservação e exploração está cada vez mais dependente da sensatez.
Fonte: Montezuma Cruz - Agênciaamazônia é parceira do Gentedeopinião
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