Sábado, 2 de agosto de 2025 - 08h03
Eita! Lá se foi mais um pedaço muito importante
da minha própria biografia. A perda de um amigo que poderia ser testemunha de
um momento importante de nossas vidas sempre abre um estranho buraco, além da
tristeza. Já estou quase sem quem possa dizer que é verdade tudo do muito que
já vivi.
Tenho certeza de que você aí já aprontou alguma, já viveu
uma aventura, tem casos inacreditáveis para contar, lembranças incríveis que só
você contando difíceis até de acreditar. Histórias que sempre é muito bom saber
que alguém poderia confirmar, mesmo que nunca isso seja necessário, que ninguém
esteja mesmo pensando em fazer sua biografia, nem você. Mas cada uma delas está
lá na memória, não estava sozinho e se a coisa foi boa ou especial, sempre
poderiam, juntos, lembrarem, atualizarem, vice-versa, às vezes até com detalhes
que haviam escapado da memória.
Esta semana mais uma vez tomei uma pancada e tanto.
Daquelas que atordoa, e muito. Na passagem habitual pelo Facebook dei de cara
com o anúncio da morte de quem eu costumava considerar como meu amigo mais
antigo, e que conheci ainda adolescente, há mais de 50 anos.
Jaques Gergorin, o seu nome. Muitos devem tê-lo conhecido
como Jaques Kaleidoscópio, o nome do programa na Rádio América que nos anos 70
marcou toda uma geração, feito ao vivo, com os amigos por ali no estúdio, rock
bom, e de onde saíram muitos nomes importantes de nossa música e cultura,
sucessos ainda por aí. Nos últimos anos se auto intitulava Jaques Sobretudo
Gergorin. Era exatamente isso; sobretudo poderia versar, com especial inteligência
e tino criativo.
O conheci tinha 15 anos, ainda uma colegial - ele morando
na torre, perto do sino, da Igreja do Calvário aqui em São Paulo, na Rua
Cardeal Arcoverde, Pinheiros. Ali vivia um grupo especial de amigos unidos em
torno do rock, uma comunidade livre como outras que floresceram, mesmo nos
tempos da ditadura. Na rua Lisboa, ao lado da Igreja, tinha um pequeno teatro
por eles dirigido, a Tenda do Calvário. Por lá passaram Mutantes, Som Nosso de
Cada Dia, Manito, muitos... Isso tudo faz parte das memórias do rock nacional.
Procure saber; não dá pra contar aqui como essa experiência terminou.
Mas, enfim, continuamos nossa amizade vida afora, às vezes
mais próximos, outros mais distantes, inclusive não o via já há algum tempo,
embora dele, meu leitor, soubesse, ganhando “bjaqs”. Ainda nos anos 70, com
outro amigo, o hoje vereador Roberto Tripoli, pela Antena 1, fizemos um
programa de rádio chamado Contatos de Primeiro Grau. A Rua Augusta era ponto de
paquera: os carros desciam e subiam, e os flertes rolavam. Nos encarregávamos
de passar pela rádio as mensagens, um Correio do amor, um Tinder do passado.
Tudo entremeado por música. Anos depois quase fui trabalhar com ele em Goiânia,
onde fazia um programa de entrevistas, o Sobretudo. Ultimamente Jaques se
divertia mesmo, acreditem, trabalhando aos finais de ano sendo Papai Noel!
Tem muito mais. Resumi bem a história para poder caber
aqui, e vocês entenderem o tamanho do buraco que a perda de um amigo pode
significar em nossas vidas. Nesse caso há ainda mais um detalhe estranho do
qual só tive consciência ao saber agora da sua partida: uma vez, há bem mais de
vinte anos, não consigo precisar, ele chegou a morrer. Sim, morreu. Um problema
no coração o apagou; os médicos o ressuscitaram. Não gostava de falar sobre
isso, mas chegou me contar à época a fascinante experiência de ir para o outro
lado e voltar. Claro que depois disso ficou, digamos, mais comedido no seu modo
de vida. Agora, já aos 76 anos, foi embora mesmo.
Daí o baque. Eu o acreditava imortal, o amigo com quem
sempre poderia contar para confirmar nossa história, a qualquer tempo, o que
faço agora com carinho e saudades.
Tenda do Calvário- achei esse registro:
https://www.dopropriobolso.com.br/index.php/musica-34379/44-musica-brasileira/1449-anos-70-a-tenda-do-calvario
E tenho este registro no meu Facebook, vídeo de Nellie
Solitrenick:
https://www.facebook.com/nellie1955/videos/578597769008532
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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de
comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom
para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na
Amazon). Vive em São Paulo. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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