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Marli Gonçalves

Faroeste temperado e as melindrosas


Faroeste temperado e as melindrosas - Gente de Opinião

Deve haver uma fonte de água especial que os políticos bebem, com efeitos borbulhantes nas soluções mágicas inventadas para problemas que deveriam eles – e o Estado - resolverem. A última, a liberação, no Rio de Janeiro, da venda de spray de pimenta para mulheres como se essa fosse a solução para nossa defesa.

Na bolsa, documentos, óculos, celular, batom, chaves, filtro solar, balinhas de hortelã, mais umas coisinhas e... um frasco de spray de pimenta. A nova indumentária da mulher carioca, segundo os gênios do poder que acreditam assim resolverem o horror da violência contra a mulher. O governador Cláudio Castro (pior é que não é só ele) está bem doido e perdido no tema do faroeste urbano: agora “autoriza”, como se precisássemos, que as mulheres se defendam assim, nos expondo a perigo até maior.

Imagina só: você, mulher, andando na rua pressente a aproximação de alguém e do perigo e já começa a revirar a bolsa. Revirar, que a bolsa da gente é famosa igual coração de mãe. Melhor até já usar uma lanterna pendurada do lado de fora que a iluminação das ruas não ajuda. Procura, nervosa, tateia com a mão. Não, não é o perfume, pega a latinha! Vai! Puxa. Rápido! Agora espera o perigo chegar a menos de dois metros, que é o alcance, e vai! Mira. Aperta. Rápido! Acerta o olho, senão não funciona; outro dia mesmo uma menina foi morta em São Paulo com um tiro na cabeça – o ladrão ficou é cego de ódio. Cuidado com o vento e para não acertar você também e aí ficar ainda mais desprotegida. Se precisar usar dentro de um local fechado, aperta, reza para funcionar, e sai correndo que o negócio impregna o ambiente todo, vai dar ruim. Lembra quando a polícia usa isso para dispersar os protestos, aqueles que cada vez precisamos fazer e andamos quietas? Sobra – até porque os sprays deles são mais potentes – para todo mundo.

De acordo com a liberação, que bom, hein? - compra ali na farmácia. Como se fosse barato, como se fosse assim. Os preços são bem altos, pesquise. O mais baratinho, 45 reais, até 900 reais, com requintes – depende do tamanho do frasco e da concentração da capsaicina, um composto químico presente nas pimentas do gênero Capsicum, entre elas, a dedo-de-moça, pimenta de cheiro, cumari, malagueta. Como são muito bonzinhos garantem entregar de graça às mulheres em risco, com medidas protetivas.

Mais uma observação: se alguém quiser mesmo se defender já podia comprar, em qualquer lugar do país, basta procurar nos grandes sites da internet. Nas ruas do comércio popular, pelo menos daqui de São Paulo, dá para comprar também as maquininhas de dar... choque! Os ambulantes vendem nas calçadas – apertando e mostrando com aquele barulhinho elétrico - os Tasers, armas de incapacitação neuromuscular que emitem impulsos elétricos que paralisam temporariamente a pessoa. Paralisam? Estamos ou não na Terra da Mãe Joana? Faroeste temperado e quente. Cada um por si e Deus por todos.

A semana não termina aí, e além das prisões históricas. No Congresso assistimos ao “show das melindrosas”, pessoas especialmente loucas para abafar os grandes casos de corrupção e desvio de dinheiro, Banco Master, Refit, INSS e outros que só poderiam ter ocorrido – bilhões, tão graves e fortes, por tanto tempo - com o claro apoio de muitos deles. Revidaram dando os dedinhos, ficando de mal com o governo, mandando recadinhos magoados, arrumando problemas para aprovar a indicação do novo nome ao STF, liberando geral e perigosamente licenciamentos ambientais, preparando pautas escorregadias, pequenas chantagens e pregos no caminho, que só retiram se tiverem suas vontades saciadas.

Para completar o quadro, ainda temos o momento patrocinado pela imprensa, medindo e mostrando as celas para melindrar ainda mais os ânimos. Momento “minha cela é maior e melhor do que a sua”. Fora isso, descobrirmos que durante anos o importante Gabinete de Segurança Institucional do país esteve nas mãos do General Heleno que só agora informa ter sido diagnosticado com Alzheimer desde 2018, justamente ano antes de quando tomou posse. E só soubemos agora porque pede para ficar preso em casa. Tudo bem, melhor liberá-lo. Pelo menos admitiu certa insanidade, entre tantas que há tempos assistimos abismados.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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