Sábado, 30 de agosto de 2025 - 08h00
Aconteceu. E mais uma, mais uma, todos os dias.
Não há mais nem surpresa, apenas a terrível sensação de repetição, e o que
parece notícia velha e não é. São fatos que se repetem, num círculo vicioso de
terror.
O apresentador do noticiário de tevê até ensaia uma cara de
surpresa e constrangimento ao exclamar “Aconteceu outra vez”, antes de noticiar
mais um atropelamento com morte, causado por mais um motorista alcoolizado, em
carro de “luxo”, e que fugiu do local do acidente sem prestar socorro à vítima,
e que, localizado, se recusou a fazer o teste do bafômetro. Logo recorrem aos
arquivos somando o número de ocorrências este ano, ou comparando com o mesmo
período do ano passado. Seguem-se as justificativas blábláblá da fiscalização,
dos advogados que provarão a inocência de seus clientes, as cenas de desespero
das famílias das vítimas, e o perfil de quem era a pessoa atingida e tudo o que
ela ainda teria para viver.
Todo dia, se não é algum acidente irresponsável, o
noticiário traz um ou dois feminicídios, ou tentativas. Ou todos, ou mais.
Aconteceu outra vez. Medidas protetivas que não foram seguidas, ou melhor, quem
tinha de proteger não o fez; até esse momento estamos com a terrível média de
quatro assassinatos de mulheres por dia. Tudo parece natural, você se informa
sobre o horror. Não vê qualquer sucesso na contenção desse horror, apenas
promessas, planos, falta de amparo e atendimento real.
Aconteceu outra vez. Mais casos de racismo descarado,
brigas de trânsito, ataques de fúria, mortes, tiroteios, a vida levada por
conta de um celular, uma aliança. Motoqueiros demônios subindo em calçadas
empunhando armas e levando futuros, cumprindo ordens e metas de organizações
criminosas para suprir a comunicação dos presídios. Mais notas oficiais
garantindo que a violência está sendo controlada, mandando às redações
comparativos, em geral com poucos avanços, décimos percentuais. Sorria, você
está sendo filmado. As imagens do “depois” serão mostradas suprindo os
noticiários (e nos apavorando ainda mais ao assisti-las), e as investigações,
garantem, estão em curso.
Os golpes se sofisticam. Aconteceu outra vez. Golpes do
Pix, dos advogados, do INSS, da prova de vida, do falso sequestro – meu
sobrinho que não existe, o filho que nem tenho, coitados, já gritaram chorando
ao telefone umas três vezes só este ano, sob ameaças. Fora as compras que não
fiz em contas e bancos que não tenho – essas são tentativas diárias. Por favor,
não clique nem 1, nem 2. Desligue. Ou virará notícia ou estatística. Cuidado
com os e-mails: por dia recebo, em média, pelo menos umas 50 tentativas, como
boletos falsos, cobranças e ameaças que terei o serviço (muitos que também nem
tenho) cortado, procedimentos na Justiça, na Receita, no raio que os partam. Já
precisei trocar todos os meus cartões, bem sabem o trabalho que dá. Nossos
dados continuam sendo vendidos em pendrives nas barraquinhas da 25 de Março.
Aconteceu outra vez e cada vez mais. Operações vistosas com
nomes estranhos de investigações que vinham sendo realizadas há meses vazam bem
no dia X, e os culpados por desvios, não mais de milhões, mas agora de bilhões,
escapam. Sabemos assim dos ralos gigantescos de dinheiro público, de como a
indústria do luxo – luxo absurdo – se sustenta. Ainda temos os tais
influenciadores, alguns jovens criminosos virtuais vendendo ilusões e jogos.
Tudo por dinheiro, sem esforço, com a enganadora ostentação que cria inveja e,
logo, novos criminosinhos no mercado.
Mais e mais, Israel ataca Gaza; até outros terroristas
vizinhos atacam Israel. Assim por diante. Protestos. Negociações de paz. Putin
manda mísseis e drones para a Ucrânia, que manda mísseis e drones para a
Rússia. Protestos. Famintos bombardeados em filas que chamam de humanitárias.
Protestos. Acontece outra vez, também, todos os dias, de Donald Trump dar
ordens estapafúrdias e demitir quem o contesta. Nosso governo fazer ou dizer
trapalhadas. Fake news sendo espalhadas aos quatro cantos.
Nos tiraram até a surpresa. Protestos! Quem sabe qualquer
hora funcionam?
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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de
comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom
para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na
Amazon). Vive em São Paulo. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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