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Marli Gonçalves

Aconteceu outra vez


Aconteceu outra vez - Gente de Opinião

Aconteceu. E mais uma, mais uma, todos os dias. Não há mais nem surpresa, apenas a terrível sensação de repetição, e o que parece notícia velha e não é. São fatos que se repetem, num círculo vicioso de terror.

O apresentador do noticiário de tevê até ensaia uma cara de surpresa e constrangimento ao exclamar “Aconteceu outra vez”, antes de noticiar mais um atropelamento com morte, causado por mais um motorista alcoolizado, em carro de “luxo”, e que fugiu do local do acidente sem prestar socorro à vítima, e que, localizado, se recusou a fazer o teste do bafômetro. Logo recorrem aos arquivos somando o número de ocorrências este ano, ou comparando com o mesmo período do ano passado. Seguem-se as justificativas blábláblá da fiscalização, dos advogados que provarão a inocência de seus clientes, as cenas de desespero das famílias das vítimas, e o perfil de quem era a pessoa atingida e tudo o que ela ainda teria para viver.

Todo dia, se não é algum acidente irresponsável, o noticiário traz um ou dois feminicídios, ou tentativas. Ou todos, ou mais. Aconteceu outra vez. Medidas protetivas que não foram seguidas, ou melhor, quem tinha de proteger não o fez; até esse momento estamos com a terrível média de quatro assassinatos de mulheres por dia. Tudo parece natural, você se informa sobre o horror. Não vê qualquer sucesso na contenção desse horror, apenas promessas, planos, falta de amparo e atendimento real.

Aconteceu outra vez. Mais casos de racismo descarado, brigas de trânsito, ataques de fúria, mortes, tiroteios, a vida levada por conta de um celular, uma aliança. Motoqueiros demônios subindo em calçadas empunhando armas e levando futuros, cumprindo ordens e metas de organizações criminosas para suprir a comunicação dos presídios. Mais notas oficiais garantindo que a violência está sendo controlada, mandando às redações comparativos, em geral com poucos avanços, décimos percentuais. Sorria, você está sendo filmado. As imagens do “depois” serão mostradas suprindo os noticiários (e nos apavorando ainda mais ao assisti-las), e as investigações, garantem, estão em curso.

Os golpes se sofisticam. Aconteceu outra vez. Golpes do Pix, dos advogados, do INSS, da prova de vida, do falso sequestro – meu sobrinho que não existe, o filho que nem tenho, coitados, já gritaram chorando ao telefone umas três vezes só este ano, sob ameaças. Fora as compras que não fiz em contas e bancos que não tenho – essas são tentativas diárias. Por favor, não clique nem 1, nem 2. Desligue. Ou virará notícia ou estatística. Cuidado com os e-mails: por dia recebo, em média, pelo menos umas 50 tentativas, como boletos falsos, cobranças e ameaças que terei o serviço (muitos que também nem tenho) cortado, procedimentos na Justiça, na Receita, no raio que os partam. Já precisei trocar todos os meus cartões, bem sabem o trabalho que dá. Nossos dados continuam sendo vendidos em pendrives nas barraquinhas da 25 de Março.

Aconteceu outra vez e cada vez mais. Operações vistosas com nomes estranhos de investigações que vinham sendo realizadas há meses vazam bem no dia X, e os culpados por desvios, não mais de milhões, mas agora de bilhões, escapam. Sabemos assim dos ralos gigantescos de dinheiro público, de como a indústria do luxo – luxo absurdo – se sustenta. Ainda temos os tais influenciadores, alguns jovens criminosos virtuais vendendo ilusões e jogos. Tudo por dinheiro, sem esforço, com a enganadora ostentação que cria inveja e, logo, novos criminosinhos no mercado.

Mais e mais, Israel ataca Gaza; até outros terroristas vizinhos atacam Israel. Assim por diante. Protestos. Negociações de paz. Putin manda mísseis e drones para a Ucrânia, que manda mísseis e drones para a Rússia. Protestos. Famintos bombardeados em filas que chamam de humanitárias. Protestos. Acontece outra vez, também, todos os dias, de Donald Trump dar ordens estapafúrdias e demitir quem o contesta. Nosso governo fazer ou dizer trapalhadas. Fake news sendo espalhadas aos quatro cantos.

Nos tiraram até a surpresa. Protestos! Quem sabe qualquer hora funcionam?

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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