Sábado, 10 de janeiro de 2026 - 08h02

Sempre brinquei de imaginar a invasão do box do
chuveiro de coisas que vejo e acontecem pelo mundo. Talvez por ser ali no banho
a hora em que, mal ou bem, debaixo do chuveiro, isolada, nua, ainda seja o
único lugar onde ainda consigo me sentir mais tranquila e relaxada.
Moro em São Paulo, bem sabem, e por aqui a loucura da
especulação imobiliária violenta e agressiva agora ocupa e demole tudo, até
prédios para a construção de outros, cada um mais horrendo que outro, espetados
lado a lado. Sempre brincava de temer que construíssem mais um justamente
dentro do box. A coisa só piora e aumentam as assombrações: agora, assim como
outros países desse mundo, temo e chego a imaginar a cara do Trump me olhando
pelo vidro embaçado, onde antes eu gostava só de desenhar coraçõezinhos e
vê-los se dissiparem no vapor.
Brincadeiras à parte, mas tentando manter o humor, que
começo de ano foi esse? Aliás, que tempos são estes que nos trazem diariamente
preocupações muito além das cotidianas? Muitas de sobrevivência, se teremos,
todos, ar para respirar, como enfrentar o calor além do limite suportável, água
para beber, energia elétrica, a estranha violência espalhada, o descontrole
social e político, as instituições em choque e em cheque.
Agora, soma-se a intranquilidade causada por um maluco
(normal, não é) poderoso brincando de mandar no mundo à sua vontade, pirando a
diplomacia moderna, ultrapassando perigosas fronteiras, obrigando ao aumento de
gastos com poderios militares, alegrando os senhores das armas, desarmando a promessa
de que nunca mais veríamos tanto terror como os ocorridos no século passado.
Fosse só ele. Mas não, a lista é grande e só aumenta numa movimentação
geopolítica expressiva.
Os pesadelos agora nos pegam acordados e para quem, por
obrigação profissional, precisa se manter informado, o estresse não passa mais
nem debaixo d`água. Entendo até o sucesso do mundo das fofocas se alastrando em
publicações sobre como celebridades e subcelebridades vivem, se vestem,
esbanjam, por onde andam, com quem casam e descasam, se mostram. Essa outra
realidade, se o biquini que usam é branco, de bolinhas, se “mostraram mais do
que deviam”, que nunca sei bem o que é que deviam mostrar. Uma realidade
paralela.
Ao mesmo tempo, aqui e ali, silêncio, o surpreendente
suicídio de alguém que todos consideravam bem, e a cada dia se torna mais
complexo entender o que se passa principalmente entre os mais jovens que creio
não estarem sendo preparados além das telas do celular e das redes sociais nem
para o sucesso.
Reparou que estamos em pleno verão e ainda nem surgiu uma
modinha, uma graça qualquer? Vivemos o Verão da Lata, do assobio, do topless.
Agora é só o do calor infernal, das chuvas, ciclones, rebeldia do mar causando
milhares de afogamentos em dias, e já já vai é aparecer algum surto para marcar
época.
O exemplo do box serve apenas para marcar uma fronteira
mínima, íntima, pessoal; você pode entender esse espaço mínimo, mas me diga se
tem outro. Já que todos os limites estão sendo violados, ultrapassados,
modificados, precisamos imaginar onde é que ainda daria para nos proteger.
Nosso bunker.
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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de
comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom
para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na
Amazon). Vive em São Paulo. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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