Sábado, 17 de janeiro de 2026 - 08h05

Pleno Janeiro Branco, tempo de pensar a saúde
emocional e mental. Pergunta por aí, a quem puder: você está achando que parece
que todo mundo anda bem doido? Eu perguntei, e fiquei surpresa o quanto não só
quase todos estão achando que sim, e inclusive sinceramente admitindo que se
incluem nesse rol. Uma pesquisa sem registro, só para não achar que estou só e
averiguar o grau, concluindo que perto do que ando vendo estou até bem. Normal,
normal mesmo, ninguém está.
Em maio de 2009 escrevi o artigo “Numpintumsão” e que agora
revisito porque o tema não só continua ativo, como muito pior
proporcionalmente. 17 anos depois, o assunto atingiu outras dimensões, ganhou
notoriedade e o mês de janeiro para ser discutido, e, ao tratá-lo hoje
infelizmente fica exigida a inclusão de menos ironias e humor, menos questões
de foro íntimo, pessoais. Fiquei, acredite, muito impressionada ao reler,
agora, o que eu própria escrevi. Quanto tempo e como ele passa rápido! Ainda
não tinha nem o blog pessoal que criei em 2010, ideia ainda tinha acento, tudo
parecia mais livre e solto. Fui encontrá-lo em meus arquivos pessoais, em um
sonhado projeto de um livro de crônicas. Vou repostá-lo aqui, abaixo, ao final
dessas considerações, torcendo para que ao menos as coisas não piorem ainda
mais nos anos vindouros. Dá uma olhada.
Dito isso, vamos lá. Claro que atualmente há quem
visivelmente anda bem doido, confuso, até aflito, mas não aceita e ainda
responda com disparates – o negacionismo atinge o planeta também na questão da
saúde mental. Vide os exemplos de alguns de nossos políticos, os soltos e
alguns dos presos, incluindo ainda quem ardorosamente os defende apesar de tudo
o que fizeram, que todos assistimos. E a confusão criada diariamente por alguns
dos membros de instituições poderosas e suas decisões controversas,
inexplicáveis e tortuosas?
Os parâmetros entram em crise quando se perde a confiança
no que nos dava alguma segurança, sendo por eleição, por pagamento de impostos,
respeito, ou até por paixão, amor ou idolatria, entre outras formas de entrega
e dedicação. Isso tudo vêm se transformando cada vez mais rapidamente com a
vida digital, informação volátil, ignorância assumida, um individualismo que se
destaca para garantir a sobrevivência.
Os fatores não ajudam: a crise climática que ao mesmo tempo
ferve nossos miolos desse lado, congela outros em estações que nos fazem
acompanhar ansiosos a meteorologia e as moças do tempo como se realmente
adiantasse nos adiantar. Tentar nos proteger da violência que espreita cada
esquina e também invade silenciosa e sorrateiramente todos os meios digitais,
fazendo com que qualquer segundo de distração ou mesmo de boa-fé possa se
transformar em pesadelo e vergonha por ter caído em algum golpe. O que deveria
melhorar, estar sanado, como a violência contra as mulheres, atingindo picos
inaceitáveis.
Muito estranho tantos anos depois ver o quanto houve
progresso e, ao mesmo tempo, retrocesso; como tudo ficou mais chato e perigoso,
e o quanto ainda estamos desassistidos em algo tão importante.
Numpintumsão,
mesmo.
- MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de
comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção
Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo,
Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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Numpintumsão
(Artigo
de Maio de 2009)
Fale alto e devagar, pausadamente. Num-pin-ta-um-são! Não
pinta um, não é verdade? Você conhece? Ou, pior, você se considera são?
Pescou? Pensou? Não tem, gente! Quando a gente acha que já
viu de tudo, sempre aparece mais um ser inusitado à nossa frente. Isso acaba
sendo o rico, maravilhoso e verdadeiro sentido da existência. Já pensou se
todos nós fôssemos iguais? Ou normais, modelos básicos, standard? Estou falando
de sanidade "mental”, comportamental, embora também indo pelo lado sanitas
(saúde), diga, quem é que não tem uma bereba, um ponto fraco, um defeito de
fabricação?
Sempre morei em lugares centrais onde todos os mundos se encontram,
onde dá de tudo. Tanto podem ser mundos arrojados, contemporâneos,
cosmopolitas, quanto grosseiros, grotescos e pouco desenvolvidos. Nos centros,
o epicentro de tudo quanto é tipo. Além disso, pela força da profissão,
encontrei ou esbarrei em personagens inesquecíveis, exemplos de vida, histórias
fantásticas e únicas. E numpintumsão. Garanto.
Há anos essa palavra habita meu vocabulário particular,
evocada, pensada ou dita bem rápido a cada uma das figuras que cruzei, e uma
palavra pronta para ser o título, talvez, de uma coletânea de pequenas dessas
histórias. Um dia. Eu contaria a história da amiga que só vai ao banheiro
acompanhada de uma caixa de fósforos. Dos decotes e requintes de estrela de um
dos muitos amigos perdidos, um que adorava Elizabeth Taylor. "Se a
Elizabeth Taylor solta pum, também posso”, sempre dizia, fazendo trejeitos da
diva.
Contaria a história de um ribeirinho, que tinha uma cama
presa a correntes no teto de sua casa ali na beira. A água ia subindo, a cama
também. O fogão boiando em cima de um isopor. O botijão de gás amarrado com
correntes a uma viga. A decoração: as folhas d’água que o rio trazia. E ele
sorria.
Certamente contaria a sua história, se a conhecesse. Manias
especiais. Artistas e músicos têm muitas delas, algumas bárbaras, outras
esquisitíssimas. Jornalistas também, além de um ou outro trauma e a vontade de consertar
o mundo, que não é coisa normal. Poderei contar alguns medos que conheci por
ouvir falar e que agora também habitam os meus medos. Um dos piores, morrer
engasgada, sozinha. Poderei contar algumas fantasias, desejos íntimos
confessados, também. Sei de cada uma!
Não é à toa que a Psiquiatria do Hospital das Clínicas de
São Paulo, há alguns anos, constatou em uma pesquisa feita num raio de 5 km que
mais de 50% das pessoas dali careciam ou viriam a precisar, em breve, nos anos
seguintes, dos serviços do hospital. Seja por casos de depressão, ansiedade,
esquizofrenia, alcoolismo e drogas, manias e/ou compulsões. Acho que já chegou
esse tempo.
Quem nunca se desencontrou, perdido no seu íntimo, quem
nunca pirou por amor, quem já não se sentiu um estranho no ninho? Quem já não
teve uns tremeliques? É difícil se expor nessas horas, tendemos a nos isolar.
Mas lembre-se que todo mundo continua ali ao redor assistindo aos nossos shows
particulares, e quando "voltamos” (e se voltamos) ficamos sabendo o que
tanto diziam de nós aquelas boquinhas nervosas e meio que fofoqueiras.
Loucuras que fazemos até por nada, nem se sabe de onde vêm,
repentes. Mulheres – acho que todas – já pensaram pelo menos uma vez na vida em
botar fogo nos seus armários, em geral antes de uma festa ou quando
simplesmente não encontraram nada que quisessem vestir. Homens - creio que se
desesperam em pensar que podem falhar na hora H. E falham. As coitadas das
crianças, como é possível que lidem bem com tantas e todas as novidades que a
vida vai apresentando? Daí, acredito, advêm muitos traumas, complexos, fatos
que marcarão sua personalidade como adultos.
O negócio é que está tudo muito acelerado e a diversidade
mais abrangente. Respeite. Tente ao menos entender, aceitar, como somos todos
tão diferentes, tão complexos, multifacetados. O careta pode ser o mais louco
de todos. O mais santo, o maior falsário. No delírio do louco, pode estar a
precisão que um pensamento cartesiano não alcança jamais. Onde você nunca
esperaria algo pode estar a fonte de muitas soluções. E tudo pode acontecer.
Não dá para se exigir ser são. Sabia que é abreviatura de
santo? E se numpintumsão, vaipintarlogoumsanto?
São (!!!) Paulo, país da Mãe Joana, quase com uma boa
idéia, 2009.
Marli Gonçalves, jornalista. De uns tempos para cá, deu
para começar a rever e a reavaliar um monte de coisas que viu, ouviu, suportou.
Deve ser alguma ficha caindo. Pode ser o tempo. Pode ser uma forma de
continuar, insana, "in corpore sano".
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Sábado, 17 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)
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