Sábado, 31 de janeiro de 2026 - 08h01

Animais e pessoas. Orelha, Joca, Sansão, Manchinha.
Tainara, Daiane, Marias, muitas. Na semana que sabemos que São Paulo encerrou
2025 com recorde histórico no número de feminicídios, 266 mortes, registro de
60 delas na Capital, acompanhamos a saga do Orelha.
Tristezas, comoção geral, protestos, artigos, todo tipo de
manifestações, noticiário, imagens e redes sociais mobilizadas, até veladas
ameaças de prisão a quem expuser o nome e imagens dos jovens assassinos e suas
famílias. A casinha vazia na praia com flores e homenagens, a história da
vidinha, do carinho que recebia da comunidade. Como foi a violência que Orelha
sofreu, que necessitou de eutanásia tal dimensão. Negão, outro, foi baleado por
um PM no Rio Grande do Sul. Arrastada por uma moto, presa a uma corda, Vitória
ganhou esse nome depois de ser salva, machucada, e ao ser medicada,
diagnosticada com câncer poderoso. Na Praia Grande, em São Paulo, Neguinha,
cachorrinha, esfaqueada. Chico morreu no Sergipe, esfaqueado na cabeça com um
facão. Caramelo levou dez tiros de um segurança porque latiu ao vê-lo empurrar
uma mulher. Todos eram cachorros comunitários, aqueles sem dono, mas que todos
cuidam. Assim foram os últimos dias, nos quais Orelha se transformou em símbolo
maior.
Mas até agora, este mês, janeiro de 2026, já foram registrados dez
feminicídios no Rio Grande do Sul; seis, em Santa Catarina, e um outro tanto
que não sabemos e nem certamente saberemos na imensidão do Brasil. Na semana
foi marcante o encontro do corpo da corretora desaparecida após mais de um mês;
tinha sido assassinada e jogada no mato pelo síndico do prédio. Aqui e ali
lembramos da Tainara atropelada e arrastada por um quilômetro em uma das
principais vias de São Paulo, pernas amputadas, ainda lutou para viver.
Repetindo: São Paulo encerrou 2025 com recorde histórico no número de
feminicídios, 266 mortes, registro de 60 delas na Capital.
Precisamos nomear vítima por vítima, também contar suas histórias,
prender seus algozes, e também especialmente cuidar da proteção real das outras
milhares que poderão vir a ser as próximas. Mulheres comuns confinadas,
temerosas, sem saber como fugir da sina, como viver, proteger seus filhos. Que
sejam vistas suas situações. Especialmente, que as medidas de proteção, se
pediram, sejam eficazes, e não apenas um papel amassado. De muitas delas as
comunidades em que vivem se descuidam.
Conheço bem os dois lados dessas histórias, a das mulheres e a dos
animais. Já me safei de ser vítima e de não estar mais aqui para contar nenhuma
história. De não poder, o que faço há décadas, apontar a inanição das
autoridades e leis e projetos de proteção. Sobrevivi com a marca que, assim
como eu, tantas levam pela vida inteira.
Há muito também já cuidei de animais livres, minha inesquecível Banzai e
seu amigo Capitão: viviam em Ilhabela, sempre sob ameaças e que nos faziam
muitas vezes arrumar encrencas e brigas, pegar estrada na madrugada para
conferir se estavam bem. Enquanto pude. Um dia eles sumiram, foram sumidos, sem
deixar rastros.
Precisamos falar sobre a violência, que tem atingido níveis alarmantes,
de todas as formas, sobre pessoas e animais. Não quero mais só ver a imagem das
câmeras depois do que aconteceu, assistir como se fosse cinema, e a forma que
as autoridades usam para mostrar trabalho, batendo no peito. É preciso, antes
de mais nada, educar. Coibir o incentivo à violência que inunda as redes
sociais, e em grupos já conhecidos, que só crescem, em desafios, safados
nomeados em marcas como os tais “red pills’.
Vamos nos comover, guardar e honrar os nomes dessas vítimas, dos
“Orelhas” e também das “Tainaras”. Não podemos deixar que sejam esquecidos, e
os casos sejam sobrepujados e repetidos. Precisamos que os seus nomes, de gente
ou bicho, bonitinhos ou não, permaneçam vivos, de qualquer forma. Queremos
solução completa. Não, como tem parecido: os casos estejam sendo - pior –
copiados.
- MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação,
editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano,
Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital.
marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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Sábado, 31 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)
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