Sábado, 24 de janeiro de 2026 - 08h00

A maior, a mais tudo do país, para o bem e para o
mal, organismo vivo e, como tal, São Paulo registra transformações intestinas o
tempo inteiro mastigando e deglutindo seus quase 12 milhões de habitantes de
forma cada vez mais acelerada diante de nós, desfigurando até a sua própria
História.
Nasci por aqui, e estranho que praticamente quase nada do
que formaria minha memória afetiva se manteve intacto. O Hospital e Maternidade
Matarazzo, onde cheguei ao mundo, agora é hotel chique, com pedaços discutíveis
de preservação, depois de anos de total abandono e quase desmoronamento. Dos
lugares onde estudei, só a FAAP ainda está no lugar, e mesmo assim me parece
outra quando a vejo totalmente cercada, com a beleza de sua fachada mexida e as
suas escadarias vazias de alvoroços. Nos outros locais já há muito foram
fincados condomínios pavorosos: na Alameda Jaú, o Externato Luiz Magnanini
sumiu no tempo; na Rua Tabapuã, sumiu o Liceu Eduardo Prado e sempre penso até
o que foi feito com o bondinho que ficava no pátio, tudo aquilo. Me pergunto
até onde estarão os registros dos alunos – gostaria de rever meus boletins e
orgulhosas notas altas.
São Paulo é mestra em encantamentos e nessas mágicas das
quais não podemos nos distrair sob pena de perder referências e até, aliás, nos
perdermos em caminhos por não mais reconhecê-los, e isso às vezes em
pouquíssimo tempo que ali não passamos. Descrevo a região central onde me
estabeleci, bem paulistana; mas como repórter de cidades pelo Jornal da Tarde
conheci muito bem toda a dimensão dessa cidade e suas quebradas, como chamam
hoje suas periferias e limites inimagináveis, com barcos, represas, balsas,
linhas quilométricas de ônibus, estradas de terra e esperanças de melhorias que
certamente muitos ainda aguardam as soluções deitadas nas gavetas das
promessas.
Vivo na região mais contemporânea, central, onde as ruas
são um eterno Salão do Automóvel por onde passam os modelos mais exclusivos.
Onde muita, mas muita gente, se veste de preto; aliás, se veste como bem
entende, e lança moda. Onde os gêneros são realmente fluídos. Onde o luxo anda
junto também com a miséria e muitos dormem pelas ruas – e algumas dessas
pessoas tem nomes e até histórias conhecidas por estarem tanto tempo ali,
peregrinas da região. Conheço gerações que vi nascerem e terem filhos e filhos,
e grávidas cada vez mais jovens, quase crianças. Onde se diz que tem mais
segurança e às vezes percebemos que não temos nenhuma, assim como sem cuidada
infraestrutura, embora paguemos caríssimos impostos. Onde todas as religiões se
cruzam, os judeus ortodoxos e seus enormes chapéus de pele e roupas pesadas ao
véu que cobre as muçulmanas, com os belos e coloridos imigrantes africanos.
Levaria dias descrevendo o que acompanho.
A cidade que tenta se comparar de forma jeca e
desnecessária a Nova Iorque tem ainda muito o que se ver, conhecer. Ruas e
bairros inteiros eleitos como melhores em listas de revistas internacionais,
como o Bom Retiro e, agora, a Barra Funda, onde enormes galpões se
transformaram em galerias de arte formando até um roteiro oficial, mesmo que
ainda em meio ao abandono – tudo junto e misturado. O Centro Antigo merece uma
caminhada para observar a arquitetura e mesmo até alguns de seus escombros.
São Paulo é tudo ao mesmo tempo agora. Se revela a cada
momento, céu e inferno, suas contradições e falta de planejamento, sua
personalidade múltipla e rica, seus barulhos e stress constantes, medida a cada
feriado com a fuga desesperada de seus moradores em êxodos pelas estradas para
se refrescarem.
São Paulo, de qualquer forma, vale a pena. E a gente canta
Parabéns para ela. Reclamando, elogiando, olhando para os lados, ganhando ou
perdendo, mas ainda uma terra de oportunidades.
- MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de
comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção
Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo,
Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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Sábado, 24 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)
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