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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Os Waimiri-Atroari – Parte IV - Gilberto Pinto Figueredo Costa e os índios Waimiri-Atroari


Os Waimiri-Atroari – Parte IV - Gilberto Pinto Figueredo Costa e os índios Waimiri-Atroari - Gente de Opinião

Florianópolis, SC, 08.03.2019

 

Gilberto Pinto Figueredo Costa e os índios Waimiri-Atroari

 

Jornal do Brasil, n° 145 ‒ Rio de Janeiro, RJ

Quarta-feira, 24.09.1968

FUNAI Detém Chefe Atroari
Temendo Sarampo na Aldeia

 

Brasília [Sucursal] ‒ O Sertanista Gilberto Pinto está se defrontando com um sério problema: impedir que o Cacique Maruaga dos Atroari regresse de imediato à sua aldeia, pois pode estar levando doença que dizimará seu povo. Maruaga esteve recentemente no Posto Indígena Jatapu, onde quatro crianças se encontram com sarampo. Se ele ou um dos seus 23 guerreiros retornar à aldeia com o bacilo da doença, os Atroari, cerca de 2 mil, poderão morrer da doença, que normalmente lhes é fatal.

 

PACIFICAÇÃO

 

Desde que massacraram a expedição do Padre Calleri os Atroari vêm sendo alvo das atenções da FUNAI, que tem desenvolvido todos os esforços para pacificá-los. Em maio, um grupo desses índios aproximou-se do Posto Irmãos Bríglia, ocorrendo novos encontros nos últimos meses. O sertanista Gilberto Pinto, considerado na FUNAI como o melhor depois de Francisco Meireles, acertou com o cacique Maruaga, através de índios que apareceram no posto, um encontro a várias luas, mais ou menos em fins de outubro. Foi surpre­endido com a notícia de que Maruaga, acompanhado de 23 guerreiros, apareceu no Posto do Rio Jatapu. Nesse Posto, quatro crianças encontram-se com sarampo. Ao ser avisado do aparecimento de Maruaga, Gilberto deslocou-se para o local, mas já não o encontrou.

 

Após dias e noites de marcha batida, de acordo com notícias chegadas ontem, conseguiu encontrar Maruaga já nas cachoeiras do Rio Camanau. A missão principal de Gilberto é de colocar Maruaga e seus 23 guerreiros de quarentena, até que se verifique se algum deles contraiu ou não a doença. O receio da FUNAI é que estes índios, ao regressarem, conta­minem a Aldeia, o que representará morte certa para vários Atroari, pois são muito sensíveis ao sarampo e à gripe.

 

O sertanista Gilberto Pinto, no entanto, não pode explicar aos índios essa circunstância, pois são desconfiados e há receio de que se revoltem. No primeiro contato, mantido a 19 último. Gilberto não conseguiu convencê-los a ficarem para caçadas e pescarias porque, argumentavam, “estavam sem suas Marias”, as mulheres. Ainda que Gilberto Pinto não tenha notado qualquer sinal da doença nos índios no encontro mantido a 19 último, poderá haver dificuldades mesmo que ele consiga, retê-los. Os índios, que se mostram muito desconfiados, se algum deles vier a ficar com sarampo poderão considerar isto uma consequência de terem sido retidos pelo sertanista. (JB, N° 145)

 

Revista O Cruzeiro, n° 33 ‒ Rio de Janeiro, RJ

Terça-feira, 11.08.1970

Missão de Paz Entre os Atroari

Reportagem de Ubiratan de Lemos e
Geraldo Viola

 

Eis o relatório do sertanista Gilberto Pinto Figueredo Costa, da FUNAI, sobre contatos com os índios Waimiri e Atroari, tribos guerreiras o inimigas, por muitos anos, mas que agora formam uma só comunidade, sob o comando supremo do célebre cacique Maruaga, que comandou o massacre contra a Missão do Padre Calleri.

 

A importância dos contatos narrados decorre do fato de que essa aproximação com os índios belicosos se verificou pouco depois do massacre brutal, sem que o sertanista Gilberto tivesse conhecimento do fato, porque se encontrava, há meses, internado na selva, inspecionando postos indígenas e procurando encontros com tribos arredias.

 

O relatório é uma peça de substância informativa. O sertanista ‒ o único que manteve contato com os terríveis Atroari ‒ conta detalhes curiosos do encontro.

 

A história desses índios contém aspectos fortes de sua índole guerreira. Quando Barbosa Rodrigues, o famoso botânico autor de “Certum Palmarum”, alcançava o Rio Alalau, em missão científica, foi atacado pelos Atroari. Durante a última guerra, oficiais americanos procuraram filmar esses índios e foram massacrados. Há 20 anos, eles atacaram o Posto Irmãos Bríglia, do então SPI, e mataram quem lá se encontrava: homens, mulheres, crianças e até animais domésticos.

 

A sua aversão ao branco é muito antiga e remonta à conquista pioneira do Amazonas, na época em que o colonizador português Pedro Favela ‒ conforme nos conta o historiador Arthur César Ferreira Reis ‒ matou mais de 40 mil índios nas cabeceiras do rio Urubu.

 

No começo do século, a invasão do interior amazonense para conquistas de seringais era um gesto feroz, assim como acontecia nos Estados Unidos em relação ao Oeste americano.

 

Os Atroari não esqueceram essas lutas. Por isso a FUNAI se empenha em produzir, nesses índios ‒ como nas muitas tribos do Brasil ‒ a imagem positiva do branco, respeitando suas terras e seus costumes, e combatendo com mão de ferro a ocupação violenta do terras ocupadas por silvícolas.

 

Na realidade, qualquer denúncia de ação armada de branco contra índio tem como consequência imediata a punição drástica por parte das autoridades. Essa evidência, de 64 em diante, trouxe a paz nas selvas do Brasil. E os comentários de certa imprensa estrangeira, quanto à matança de índios, não passou de invencionice criminosa de grupos subversivos interessados em pichar o nome do Brasil no exterior.

 

Esta reportagem reproduz o relatório do sertanista amazônida Gilberto Pinto Figueredo Costa, da FUNAI. Foi ele quem realizou o primeiro contato com o chefe índio Maruaga, o cacique Atroari que deu a ordem para o massacre da Missão do Padre Calleri. O sertanista, em seu falar relatorial e simples, narrou todos os episódios do expedição. Em nenhuma ocasião os índios abordaram o massacre. E tudo correu bem, com saldo de maior confraternização entre silvícolas e servidores da FUNAI.

 

RELATÓRIO

 

Ainda sob forte impressão do encontro que mantivemos Com os Waimiri, nos primeiros dias de setembro [1969], e em consequência da comunicação procedente do Posto Camanau, informando haver chegado naquela unidade, dia 17, 24 índios chefiados pelo Tuchaua Maruaga, o maioral, quando recebi ordem de serviço interna para que, em caráter urgente, seguisse com destino àquela região e contatasse com o famoso chefe indígena.

 

Tomadas as providências, saímos desta capital [Manaus] dia 18, às 17 horas. Antes, porém, através da fonia, instruímos Estêvão da Silva Rodrigues, atual encarregado daquele setor, no sentido de envidar to­dos os esforços para fazer com que o Tuchaua Maruaga e seus guerreiros ali nos aguardassem, com chegada prevista para as 12 horas do dia 19.

 

Dada a urgência e importância do encontro viajamos sem descanso, tendo chegado ao Camanau às 14h45 do dia previsto, onde não mais encontramos o chefe Maruaga e sua gente.

 

Estávamos muito preocupados que os índios viessem a se contagiar com sarampo, considerando que teria casos da doença em filhos de funcionários que servem no Camanau.

 

Chegando ao Posto, fomos informados pelo encarregado de que o Tuchaua Maruaga, após esperar até as 12 horas sem que chegássemos, preparou-se e disse que iria embora, porque “não vem, não vem”, querendo dizer que, na hora marcada, ninguém estava lá; e demonstrando com isso que uma promes­sa feita deveria ser cumprida à risca.

 

ALEGRIA

 

Imediatamente, pela fonia, comuniquei a essa chefia o ocorrido, informando que partiria naquele instante atrás dos índios. Tendo deixado no Posto o telegrafista Alberto A. Sandoval, para manter contato permanente com esta sede, ainda viajando na lancha “José Bonifácio” saímos Rio acima, às 15h30, levando o encarregado Estêvão, o trabalhador Manoel Rodrigues, o mo­torista José Hilário da Silva e o ajudante de motorista Florentino Ferreira Lima.

 

Como os índios levavam uma vantagem de horas, procuramos ganhar terreno e, às 18 horas, conseguimos alcançá-los. Eles estavam acampados na margem esquerda do Camanau.

 

Fomos recebidos alegremente, o que nos encheu de satisfação. Imediatamente embarcaram em nossas lanchas para nos abraçar. As apresentações foram protocolares, tendo o índio Capitão Cândido à frente, como se fosse um embaixador.

 

Conhecemos, enfim, o tão falado Maruaga. Não houve coquetel e, sim, café com bolachas, após o que fomos todos para terra, onde jantamos juntos. Pernoitamos nesse local.

 

 

 

O Relatório Realizado Pelo Sertanista Gilberto Pinto Figueredo Costa Destaca a Maneira Cordial Como Foram Recebidos Pelos
Índios Atroari. Munido de Câmara Fotográfica, Gilberto Focalizou Grupos de Homens e Mulheres da Temível Tribo Amazônica,
Após a Chegada à Sua Maloca

 

NO MESMO PRATO

 

Pela manhã, dia 20, o Tuchaua Maruaga pediu-me para seguir conosco na lancha, rebocando suas ubás [canoas cavadas em troncos]. Havia muita água no Rio, permitindo a navegação, e assim prosseguimos viagem, parando s 11h30 para fazer refeição. Comemos todos no lugar denominado Estrela.

 

Preparei um prato, tamanho família, e desembarquei, rumando para o grupo de índios, tendo convidado o Cacique e seus guerreiros para almoçar comigo. O convite foi aceito e comemos no mesmo prato, numa demonstração de amizade e companheirismo.

 

Os índios, por sua vez, trouxeram peixe assado à sua moda, tendo havido um verdadeiro banquete.

 

Enquanto isso, a bordo, os companheiros faziam o mesmo com os outros índios, num ambiente de tocante cordialidade. Terminado o almoço, foi servido café com bolacha, muito apreciado pelos índios.

 

GRAVADOR

 

Nessa ocasião, aproveitei para mostrar o gravador de fita. Fiz funcionar o aparelho, que reproduziu a voz do Capitão Cândido. Maruaga escutou com muita atenção. No começo ficou sério e depois desandou a rir gostosamente.

 

Aproveitei a oportunidade e perguntei a Maruaga se ele queria falar para o gravador. Ele respondeu negativamente, mandando o capitão Cândido falar novamente. Na qualidade de porta-voz oficial, Cândido falou bastante, terminando por pedir muitas ferramentas e acessórios de mata. Outros índios ‒ sempre entre risos ‒ falaram para o gravador.

 

MATÁ-MATÁ

 

Às 12h30, prosseguimos viagem até às 16 horas, quando paramos no Pedral Matá-matá [nome de uma tartaruga feia, antediluviana, o bicho mais asqueroso da região].

 

Lá teríamos de deixar a lancha José Bonifácio porque não havia mais água no Rio, que só permitia a viagem de canoa. Teríamos de continuar a viagem em motor de popa.

 

Enquanto permanecíamos a bordo da lancha para dormir, os índios seguiram um pouco mais em suas ubás, Rio acima, tendo ficado próximos a nós apenas 4 deles, sendo 3 guerreiros filhos de Maruaga. Acredito que estes receberam a incumbência de nos vigiar.

 

Dia 21, às duas da manhã, ouvimos barulho de canoa que se aproximava. Ficamos em alerta. As canoas atracaram na nossa lancha. Eram 4 índios que vinham se abrigar do temporal que ameaçava desabar e desabou mesmo. Uma chuva torrencial, com trovões e relâmpagos. Desses temporais que parecem o fim do mundo. Agasalhamos os índios e caímos em sono profundo, porque estávamos fatigados.

 

CACHOEIRA

 

Quando o dia amanheceu, nossos hóspedes prepararam seus jamaxis [grandes cestos que carregam às costas, com apoio de cipó na testa]. Queriam viajar conosco, no motor de popa.

 

No dia anterior, sofremos um encalhe e os índios tiveram de desatracar suas ubás, indo descarregar seus mantimentos num lajedo próximo, de onde voltaram para nos ajudar a desencalhar a lancha.

 

Às 8 horas, atracamos a ubá dos 4 índios que tinham dormido a bordo e prosseguimos viagem. Às 08h30, encontramos os demais, que haviam seguido na frente, a remo. Nessa altura, já rebocávamos 6 ubás, com meninos [curumins] e 20 homens. Entre estes, 4 Chefes ‒ além de Maruaga, o filho deste, Mina, o Capitão Cândido e outro índio cujo nome não consegui saber. Havia 8 guerreiros que eram do Alalau e 4 homens eu os reconheci de uma viagem que fiz àquela região, em 1966.

 

Às 10 horas passamos pelo antigo Posto Tubal, e às 11 chegamos à cachoeira Travessão. Os índios nos ajudaram a transpor o trecho encachoeirado, onde por pouco não sofremos um naufrágio. O cevador de mandioca chegou a cair no Rio, sendo retirado pelo mergulho profundo do índio Comprido. O próprio Maruaga e seus filhos deram sua ajuda nessa opera­ção da cachoeira.

 

PIRANHA ASSADA

 

Às 12h30, topamos nova cachoeira a nos desafiar. Nós ajudamos os índios a atravessar suas ubás e depois eles retribuíram o gesto ajudando-nos a transpor nossa canoa. Vencida a cachoeira sem maiores incidentes preparamo-nos para o almoço.

 

Foi oferecimento de Maruaga: piranha assada e jaboti. Comida feita na hora e à moda dos índios: o assado com tripa e tudo.

 

O nosso avanço tinha de ser vagaroso. Havia muitas surpresas desagradáveis: pedras pontiagudas afiadas como navalhas e que poderiam romper o casco das ubás e da nossa canoa. Prosseguimos depois do almoço e, às 17h30, paramos numa ponta de terra firme, a pedido de Maruaga. Ele queria pernoitar ali e concordamos com sua ordem.

 

MUITO SALGADO

 

Estêvão sugeriu que deveríamos dormir um pouco afastados do acampamento dos índios. Eu estava para concordar, quando Maruaga nos veio convidar para dormir no mesmo local. Aceitamos.

 

Uns índios prepa­ravam suas redes, outros foram pescar piranhas. Depois de prepararmos nossa dormida, assamos um pedaço de carne-seca. Convidamos para o jantar Maruaga e sua gente, que aceitaram a nossa comida e trouxeram muita farinha e as piranhas assadas. Os índios tentaram comer o charque, mas desistiram porque estava “muito salgado”.

 

Dia 22, muito cedo, os índios prepararam suas coisas para prosseguir viagem. Oferecemos a eles café com bolacha e eles a nós uma cuia com farinha de tapioca.

 

Entramos, juntos, novamente no Rio, fazendo roncar o motor de popa, que rebocava todo mundo.

 

TRACAJÁS

 

Daí por diante, em toda ponta de praia, os índios faziam um alvoroço dos diabos. Mostravam os tracajás [tipo de tartaruga] que saiam do Rio para a praia para desovar. Eles recolhiam os ovos, às braçadas, mas não comiam nenhum. Diziam que era para levar para as suas “Marias”. Não só os ovos, mas tudo de bom que encontravam, inclusive grandes peixes.

 

Estavam com muita pressa. Quando o motor enguiçava, o primeiro a desatracar a sua ubá era o próprio Maruaga. Para dar a sua ajuda imediata. E explicava a sua pressa: “Muita demora e ‘Maria’ chorar”.

 

Nesse dia o almoço foi feito a bordo. O servidor Manoel Rodrigues pescou um lindo tucunaré de 10 quilos, que foi transformado em caldeirada com pirão, a nossa parte, e a dos índios em moquém, uma espécie de churrasco de peixe.

 

Quando já estávamos em nossas redes para dormir chegaram os índios. Sentaram-se à nossa volta, falando sem parar, rindo a valer, em movimentos largos e alegres. Soubemos, então, a razão de todo esse furor de alegria: era que, no dia seguinte, chegaríamos à maloca deles, objetivo de nossa excursão de trabalho, e onde estavam saudosas as suas “Marias”.

 

MALOCA

 

Dia 23, dia da nossa chegada à maloca. Os índios acordaram aos pinotes de alegria. A viagem continuou até alcançarmos a mais difícil das cachoeiras ‒ a de Japiim. Os índios misturam o seu trabalho de atravessar as canoas para o outro lado do Rio, além cachoeira, com a operação do cata do ovos de tracajás.

 

Às 10 horas, ao fazermos uma curva do Rio, pudemos ver a maloca. Eles desatracaram as suas ubás e prosseguiram a remo, numa loucura de alegria. Nosso motor quebrou o pino num pau submerso e nós tivemos também de seguir atrás deles, a remo.

 

Fomos os últimos a atracar no porto, onde já nos aguardavam dois índios, que haviam permanecido na maloca. Começamos a descarregar as canoas, inclusive os dois cevadores de mandioca ‒ um para Maruaga, outro para Cândido. Eis quando aparece Maruaga rindo e alegre, convidando-nos a ir até a maloca. Era, aliás, o nosso grande desejo. Mas não poderíamos sequer sugerir. Ele mesmo teria de nos convidar ou ficaría­mos num local qualquer por perto.

 

IGUARIAS

 

Cândido pediu que déssemos um tiro para o ar para avisar às “Marias”. Caminhamos para a maloca e fomos encontrando índios, aqui e ali. Eles nos ofereceram piranhas assadas, traíras, um peixe muito gostoso, beijus de mandioca, farinha à farta. A fome era grande e comemos até tocar com o dedo.

 

Maruaga reapareceu e em sua companhia estava a sua mulher e um filho do 4 anos. O índio Nina também trouxe a sua “Maria” para nos apresentar. Depois que os Chefes tomaram essa atitude, todos os índios os imitaram, trazendo cada qual a sua “Maria” para apertar as nossas mãos. Foi uma ampla confraternização.

 

Eu disso a eles que também tinha a minha “Maria” e 8 filhos. Contei nos dedos. Eles vibraram. Parece que gostam de quem possui muitos curumins. Cessadas as apresentações, informaram que tinham aberto um grande roçado e queriam plantar milho, cana, mandioca e melancia. Nós lhe demos as sementes e ensinamos como plantar essas culturas, novas para eles.

 

Eu mesmo ensinei o plantio. Com paciência, procurando fazer com que me entendessem.

 

FOTOS

 

Perguntei a Maruaga se poderia tirar fotos de todo o pessoal. Ele permitiu. Comecei a operar com a pequena câmera que levava. Fotografei o Capitão Nina com sua esposa e dois filhos. A mulher não queria olhar a câmera e foi forçada a isso pelo marido. Acabou rindo e gostando. Havia ali entre 70 e 80 índios.

 

Não entramos na maloca, porque não houve convite. Fingimos até desinteresse. Vimos com o rabo do olho detalhes interiores. Todos os homens estavam conosco, enquanto as “Marias” se meteram dentro da maloca. Maruaga transpirava alegria. Falava nos roçados que ia rasgar na selva. Haveria muita comida para as “Marias”, crianças e guerreiros.

 

 

 

Maruaga, Chefe dos Atroari, Responsável
pelo Massacre da Missão do Padre Calleri, Comanda a Tribo sem Discussão

 

A VOLTA

 

Os chefes Maruaga e Cândido conversavam baixinho. Notei que falavam sobre o nosso rancho, que estava quase a zero. Trouxeram para nós farinha, bola de goma para fazer beiju e outras iguarias silvestres. E prepararam paneiros para botar mais mantimentos para a nossa volta.

 

Os próprios índios arrumaram os mantimentos na nossa canoa. Às 14 horas, iniciamos o regresso. Satisfeitos, missão cumprida. Maruaga e sua tribo ficaram no barranco acenando. Ele ‒ um guerreiro de 60 anos, de 1,80 de altura, postura normal de seriedade. Uma ordem sua ‒ e basta. Todo mundo o atende sem discutir.

 

PENETRAS

 

O relatorista denuncia o fato dos penetras que invadem os Altos Rios Camanau, Jauaperí e Alalauregião dos Waimiri-Atroariem busca de peles silvestres. E, se veem um índio, espantam-no a tiros, com medo, e com isso causam dificuldades ao processo de atração da FUNAI. Propõe: “A FUNAI deve tomar uma série de medidas, visando interditar os rios Camanau, Jauaperí, Alalau. Curiau e Uatumã [Baixo Amazonas], proibindo, terminantemente, o trânsito de pessoas estranhas, a fim de não prejudicar o trabalho que pretendo realizar junto aos índios”.

 

A solução é tão exata que a FUNAI, agora sob rigorosa supervisão, está estudando o caso com seriedade.

 

É oportuno sublinhar o risco que o grande sertanista Gilberto ‒ um homem profundamente devotado à causa do índio ‒ correu com seus companheiros. Como já foi escrito, eles não sabiam do massacre da Missão Calleri, provocado exclusivamente pela ausên­cia de tato do missionário. Se o índio deitava na rede do Padre, o Padre o expulsava com pontapés. Como negava presentes, isto é, o que o índio pedia. O somatório dessas ocorrências resultou no massacre. Evidentemente. Maruaga e seus guerreiros confiaram na pessoa de Gilberto e seus comandados. E foi generoso com eles.

 

Índio é como criança. Igualzinho. Faz festa quando é bem tratado. E pode ficar um amigão do branco. (O CRUZEIRO, n° 33)

 

Fontes:

 

JB, N° 145. FUNAI Detém Chefe Atroari Temendo Sarampo na Aldeia ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Jornal do Brasil, n° 145, 24.09.1968.

 

O Cruzeiro, n° 33. Missão de Paz entre os Atroari ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ – Revista O Cruzeiro, n° 33, 11.08.1970.

 

 

Solicito publicação:

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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