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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

A Entrevista do Presidente da República


A Entrevista do Presidente da República - Gente de Opinião

Bagé, RS, 12.12.2025

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 663, Rio de Janeiro, RJ,


Sábado, 02.01.1965

 

Na Alvorada do Ano Novo, o Presidente da República Concede uma Entrevista Exclusiva a Murilo Melo Filho

 

O Pior já Passou

 

 

Ao escolher MANCHETE para fazer seu grande pronunciamento de fim de ano – calcado em termos de confiança e de otimismo sobre o Ano Novo que agora se inicia – quis o Marechal Castello Branco certamente distinguir uma revista que sempre pautou sua existência por uma permanente mensagem de esperança no desenvolvimento e na grandeza do País. Neste documento, concedido em caráter de exclusividade ao jornalista Murilo Melo Filho, Diretor da sucursal de MANCHETE em Brasília, o Presidente da República define a filosofia da Revolução que chefia, dá um balanço nos nove e atribulados meses que acaba de superar e descreve a perspectiva otimista que se abre diante dele e do Brasil no Ano Novo. Como os leitores perceberão, trata-se de uma linguagem de convicção, de tranquilidade e de certeza quanto ao futuro do seu Governo e o destino da sua Revolução.

 

Castello Branco: Caso seja possível falar-se numa filosofia da Revolução, ela não será senão a que inspira os regimes democráticos. A verdade é que, apesar dos erros, dos desmandos e, em muitos casos, dos crimes que vinham sendo cometidos pela administração anterior, somente a genera­lizada convicção de que se chegara às vésperas de acontecimentos subversivos que poriam fim às instituições democráticas provocou em 31 de março a histórica decisão do povo, maciçamente apoiada pelas Forças Armadas.

 

Manchete: Que pretende agora a Revolução?

 

Castello Branco: Ver fortalecido no País um sistema político e social que, abrindo aos brasileiros, sem distinção de qualquer ordem, novas e maiores oportunidades, assegure a todos, dentro da ordem jurídica, a igualdade e o bem-estar. Como é natural, uma vez rompida a antiga ordem, a Revolução, ao contrário do que foi assoalhado ([1]) pelos seus inimigos, deseja aproveitar a ocasião para renovar e inovar. Hoje, todos os brasileiros já sabem disso, e daí o apoio popular com que conta o Governo para levar a cabo a tarefa renovadora que se propôs. Salvo alguns elementos reacionários, que ainda não conseguiram colocar-se dentro do seu tempo, todos compreendem ser indispensável mudar a estrutura nacional, que em muitos aspectos é não somente antiquada, mas também óbice ao pprio desenvolvimento do País. Creio não ser preciso falar senão ligeiramente sobre objetivos éticos da Revolução. Realmente, embora não se possa tê-los como único fundamento da Revolução, nem por isso se poderá deixar de considerar a moralidade dos costumes políticos e uma austeridade em relação a toda a vida administrativa do País como um dos objetivos mais vivos do sentimento Revolucionário.

 

Manchete: Como vê os nove meses de Governo que agora se completam?

 

Castello Branco: É muito difícil explicar ao povo qual era a terrível realidade encontrada pela Revolução Vitoriosa. A verdade ultrapassa a própria imaginação. E não devemos ter receio de afirmar que, sem o movimento de 31 de março, o Brasil teria submergido no caos inevitável, como consequência da inflação desmedida, que teria feito o dinheiro derreter-se nas mãos dos que o possuíssem. Não seria, aliás, a primeira vez que o fato se verificaria, pois outros povos já passaram por igual flagelo. Não há quem ignore o que aconteceu Alemanha, em 1921, ou à China, mais recentemente, no momento em que a sua moeda sofreu vertiginosa desvalorização. O preço pago pelos povos cuja moeda se avilta rápida e progressivamente sempre foi a anarquia e a subversão, a que se segue, necessariamente, um Regime Ditatorial, que encontra na miséria e no desespero o clima ideal para, em nome da ordem, garrotear as liberdades.

 

Manchete: Reconhece que a Revolução adotou medi­das impopulares?

 

Castello Branco: Justamente para evitar que tudo isso acontecesse, a Revolução tem tido necessidade de adotar medidas frequentemente dolorosas e, por isso mesmo, impopulares. Parece ser mais fácil enganar o povo com slogans demagógicos, que afundam o País, do que o salvar com remédios inevitavelmente amargos. Preferimos, porém, a segunda hipótese. E queremos aproveitar esta ocasião para dizer a todos os brasileiros que o Governo sabe perfeitamente que são inúmeros os que estão sofrendo em decorrência das medidas adotadas para evitar males infinitamente maiores. Infelizmente, não havia como fugir a tão penosa e desagradável contingência. Tem sido necessário pedir a todos os brasileiros uma soma enorme de sacrifícios para que a Nação possa sobreviver com a dignidade e a altivez de que sempre nos orgulhamos.

 

Manchete: Qual o conceito que o Governo faz da inflação brasileira?

 

Castello Branco: A inflação brasileira, inseparável da corruão e do amolecimento do caráter nacional, estava conduzindo o País a um estado psicológico nitidamente marcado por complexos de inferioridade. E a xenofobia foi afugentando progressivamente do País a ajuda estrangeira indispensável ao nosso desenvolvimento. O crédito do Brasil no exterior desaparecera completamente. E a consequência, verdadeiramente dramática para um País com vigoroso cres­cimento populacional como o nosso, foi a queda vertical dos índices de nosso progresso. Não estávamos apenas estagnados. Pior do que isso, entráramos numa fase de decadência. Como é compreensível, os efeitos do mal não se fizeram sentir imediatamente, e, mesmo quando sentidos, as suas causas não podiam ser identificadas pelo povo, que vive e sofre as vicissitudes de cada dia, mas que, com frequência, se esquece do dia de ontem. Há quase vinte anos – o tempo de uma geração – estávamos mergulhados numa inflação cuja velocidade se abeirava da catástrofe, e, na verdade, como que nos habituáramos à corrida entre preços e salários, bem como a toda a série de males daí decorrentes.

 

Manchete: Que pretende fazer para corrigir a menta­lidade inflacionária?

 

Castello Branco: Todo o povo brasileiro, pois milhões dos nossos patrícios jamais conheceram um País de finanças estabilizadas e normais, habituou-se a viver, a pensar e a agir com base na inflação. Compra-se hoje o que se poderia deixar para amanhã, com receio de que no dia seguinte seja mais caro. Que fazer para que o povo compreenda que essa mentalidade e essa atitude inflacionárias apenas contribuem para tornar tudo mais caro ainda? A verdade é que será extremamente importante conseguirmos inverter essa tendência criada por duas décadas de inflação: os preços perderão também um importante fator de crescimento quando todos se convencerem de que não devem comprar na véspera.

 

Manchete: Acha que já conseguiu algum êxito no terreno das reformas?

 

Castello Branco: No esforço que está realizando para mudar o panorama político e social do Brasil, a Revolução pode sentir-se perfeitamente satisfeita do que já foi alcançado em matéria de reformas. O fato é tanto mais importante quando as incorporamos à nossa legislação, e, portanto, à nossa vida nacional, sem a menor quebra do regime democrático. O Congresso debateu-as e votou-as com inteira liberdade, muitas vezes por pequena margem, e quase sempre emendando as mensagens do Executivo, que delas teve a iniciativa. Tudo isso mostra que, em vez de querermos usar as reformas como pretexto para agitações de finalidades inconfessáveis, como vinha acontecendo, o atual Governo se empenha para fazer das reformas um fundamento de paz e de justiça social. Precisamos construir uma sociedade livre de privilégios. Dentro de um sistema de livre iniciativa, os privilégios devem decorrer apenas da capacidade e do trabalho de cada um.

 

Manchete: Quais as reformas que já conseguiu?

 

Castello Branco: Ao lembrar o que já foi feito no terreno das reformas, não desejo deixar de mencionar algumas das mais importantes, e cujos efeitos se farão sentir profundamente na vida brasileira. Começarei por aquela que mais dividiu a opinião pública: a Reforma Agrária. Graças aos esclarecimentos, ao esforço e à seriedade com que foi conduzida no Congresso Nacional, pudemos vê-la transformar-se em lei sem maiores traumatismos. E da sua correta aplicação acreditamos que advirão para a vida rural do País benéficas e importantes transformações. Também a reforma habitacional, através da criação do Banco Nacional de Habitação, terá extraordinário significado, pois abre imensas perspectivas no sentido de proporcionar a milhões de brasileiros a possibilidade de moradia própria e digna. Dentro de uma concepção perfeitamente realista, irá carrear para a solução do problema habitacional somas verdadeiramente vultosas. Outra reforma obtida foi a bancária, que, embora não tenha sabor popular, é de grande relevo para o País. Há quinze anos vinha ela sendo debatida no Congresso sem que se houvesse podido chegar a um entendimento, apesar da ingente necessidade que representava para a vida financeira do Brasil. Votá-la, sobrepondo-se aos muitos obstáculos exis­tentes, foi uma útil contribuição do Parlamento. Do mesmo modo, a Reforma Tributária proporcionou ao Governo um dos instrumentos adequados à efetivação dos planos financeiros.

 

Manchete: Tentará obter outras reformas?

 

Castello Branco: Tudo quanto já conseguimos não significa que tenhamos chegado ao fim do período das reformas que estão sendo reclamadas pelos brasileiros. Quando o Congresso reabrir-se dentro de mais algumas semanas, esperamos poder enviar-lhe mensagens propondo novas reformas, dentre as quais a da Lei Eleitoral, o Estatuto dos Partidos e a Administrativa. As duas primeiras visarão sanar graves erros do nosso sistema eleitoral e partidário, que se refletem em todo o arcabouço político do País, inclusive através do poder econômico. Portanto, num período verdadeiramente curto, a Revolução já pode apresentar ao País apreciável acervo de realizações, que demonstram não se estar malbaratando o tempo. Estamos trabalhando e avançando para que o Brasil adquira uma estrutura social digna do nosso tempo e da nossa civilização.

 

Manchete: Está convencido de que fará a recu­peração do País?

 

Castello Branco: Já disse e quero repetir que o Governo tem plena consciência dos sacrifícios suportados pelo povo para que possamos reconstruir o Brasil, proporcionando às gerações futuras uma existência melhor. Desejo, aliás, aproveitar esta oportunidade para transmitir a todos os brasileiros o reconhecimento do Governo pela coragem com que, nos seus lares, estão enfrentando muitas provações, confiantes na ação governamental, que sabem exclusivamente voltada para o bem comum. Não podemos, infelizmente, fazer milagres e esse período de sofrimento é inevitável, a fim de restabelecermos a normalidade e a tranquilidade no País. O que prometemos e acreditamos estar realizando é uma administração séria, infatigável, contrária a qualquer espécie de demagogia e inteiramente dedicada à tarefa de reconstruir uma Nação que encontramos enganada, aviltada e dividida. Não podemos nos dar ao luxo de sermos uma casa dividida. Precisamos retomar a consciência de que somos urna grande Nação de 80 milhões, com infinitas possibilidades de riqueza a explorar pelo nosso trabalho. Não devemos repousar nos outros, do mesmo modo que nos cabe aceitar e aproveitar a ajuda que nos possam dar para acelerar nosso desenvolvimento. Com o nosso trabalho e a extraordinária capacidade do povo brasileiro estamos em condições de ser uma das maiores Nações do mundo.

 

Manchete: Quais as perspectivas do Ano Novo?

 

Castello Branco: No que diz respeito à vida do povo, que é a preocupação máxima do Governo, podemos assegurar que o pior já passou. Em 1965 deveremos começar a colher os frutos dos sacrifícios feitos. Estamos certos de que os índices de elevação do custo de vida irão declinar substancialmente, até chegarmos a uma relativa estabilidade em 1966. A inflação, que era o maior dos nossos males, está em vias de ser praticamente controlada. E todos os motivos nos levam a concluir que estamos prestes a alcançar o fim da íngreme ladeira escalada em 1964. O povo, com a admirável compreensão demonstrada, nos ajudará a galgar o topo. Desejo encerrar estas palavras dirigidas aos brasileiros por intermédio de Manchete, agradecendo a colaboração e a confiança, que farão de 1965 o ano da reconstrução do Brasil. (REVISTA MANCHETE N° 663, 02.01.1965)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

 



[1] Assoalhado: tornado público, divulgado. (Hiram Reis)

A Entrevista do Presidente da República - Gente de Opinião

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