Terça-feira, 3 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

O Candidato Costa e Silva


O Candidato Costa e Silva - Gente de Opinião

Bagé, RS, 19.12.2025

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 718, Rio de Janeiro, RJ


Sábado, 22.01.1966

 

O Candidato Costa e Silva

 

 

Manchete: Assim falou à Manchete, numa entrevista exclusiva, o General de Exército Arthur da Costa e Silva, Ministro da Guerra e candidato (em potencial) à Presidência da República, na sucessão do Marechal Humberto de Alencar Castello Branco.

 

Costa e Silva: O mais que posso ser, no momento, é candidato a candidato. Ninguém pode candidatar-se por si mesmo. Mas, se for indicado por um dos Partidos legalmente inscritos, como a lei exige, não hesitarei em aceitar, pois me considero em perfeitas condições legais para assumir o encargo. Sou brasileiro, maior de 35 anos, com uma longa folha de serviços prestados ao Exército e ao País. E não vejo motivos para fugir ao cumprimento de novos deveres. Não sendo um postulante, não terei dúvidas em aceitar o oferecimento. Aliás, só se aceita o que é oferecido.

 

Manchete: Poucas horas antes de embarcar para uma longa viagem pela Europa e Oriente Médio, Disse-nos o General:

 

Costa e Silva: Temos tido a preocupação de manter, bem vivo, no coração do Soldado, o espírito revolucionário, como condição essencial para a consolidação e a continuidade do Movimento de 31 de Março de 1964. E isto tem sido possível porque uma consciência moral preside os atos da Revolução. O povo brasileiro, acima das paixões políticas e da resistência natural a todos os Movimentos Restauradores, sente no íntimo o acerto das medidas governamentais, a elevação que as preside, a superior inspiração que as dita.

 

Manchete: Qual a sua impressão do ano agora findo?

 

Costa e Silva: Analisando bem os doze meses transcorridos, podemos bem sentir o valor dos sentimentos da obra realizada. Ela é fruto do amor, do esforço, da tenacidade e do trabalho de todos e não uma conquista isolada para o proveito próprio de quem quer que seja. Temos tido também o propósito de realçar em todas as oportunidades o valor da ideologia democrática e a necessidade de desenvolvê-la, cada vez mais, no meio militar, de forma a tornar as Forças Armadas definitivamente imunes ao comunismo e a outras formas totalitárias de Governo.

 

Manchete: O Ministro da Guerra faz as suas declarações no Palacete Laguna, residência oficial do Chefe do Exército. A mansão, embora com seus dois portões guardados por sentinelas, oferece ao transeunte um aspecto de sossego e quietude. No seu interior, um homem simples, rodeado da família, toma a cada minuto dezenas de providências e decisões importantes, auxiliado por uma equipe de oficiais jovens, a cujas opiniões e conselhos ele ouve e, não raro, se submete até com humildade. O Chefe Militar responsável pelo sistema de segurança do Governo ia sair do País para atender a convites oficiais de sete governos estrangeiros (Portugal, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Espanha e Líbano), devendo ainda inspecionar o Batalhão Suez na faixa de Gaza. Na véspera, passara o Ministério da Guerra a seu amigo e colega, General Décio Escobar. Vários e decisivos detalhes deviam ficar bem esclarecidos antes que ele tomasse o avião para ausentar-se do seu posto por 35 dias.

 

Manchete: Há alguma brecha no dispositivo de segurança?

 

Costa e Silva: Não me canso de pregar sempre a unidade de todos os militares em torno dos mesmos ideais e princípios, evitando, assim, a formação de brechas, por onde os inimigos da Revolução possam infiltrar-se. Existe, permanentemente, o perigo da intriga e da difamação, como fatores intencionalmente utilizados, a todo o momento, para dividir as Forças Armadas. Conquistamos em março de 64 uma grande vitória. Estamos agora em plena fase de consolidação. O inimigo, no entanto, procura rearticular-se para voltar à carga. Recuou, mas não fugiu à luta. Suas ações são sub-reptícias, solertes e silenciosas. Por isso, precisamos estar de atalaia, em vigília permanente.

 

Manchete: Gaúcho de Taquari, o General Costa e Silva conhece todo o País, pois já serviu nas mais distantes Guarnições. Casado com D. Iolanda, tem um filho, o Tenente-Coronel Álcio batizado com esse nome em homenagem ao General Álcio Souto. Quatro netos cheios de vitalidade quebram por vezes o silêncio daqueles jardins sombreados de árvores: Artur, André Luís, Alexandre e Carla, que tem pouco mais de um ano, e que o Ministro da Guerra chama de alegria da casa. É verdade que lhe ofereceram o lugar de ditador, logo após a vitória da Revolução?

 

Costa e Silva: É verdade, sim. Mas este fato já pertence à História e não devemos revivê-lo, porque ela se encarregará de julgar a minha recusa. O Brasil não comporta ditaduras e eu não nasci para ditador. Minha longa vida no Exército, que é democrático e popular, ensinou-me que ainda não foi inventado melhor regime que a Democracia. Justamente para preservá-la e evitar uma Ditadura de esquerda no Brasil, foi que saímos à rua, ombro a ombro com o povo.

 

Manchete: Afirma, a seguir, que, passados aqueles dias de tristes reminiscências, devemos agora fortalecer a disciplina, pois somente assim será possível dar ao País e ao povo a segurança que tanto desejam e necessitam para trabalhar e progredir.

 

Costa e Silva: A Revolução entregou ao Governo da Revolução a sua direção política. A ele, está atribuída, em consequência, a responsabilidade pelo planejamento e execução das ações de natureza política. O Presidente da República tem demonstrado o seu propósito de prosseguir em sua orientação de basear o Governo numa ordem legal que lhe foi outorgada pela própria Revolução, com vistas à institucionalização dos elementos necessários à defesa dos ideais revolucionários.

 

Manchete: E qual a função que compete ao Congresso?

 

Costa e Silva: O Congresso Nacional, preservado e legitimado pelo Ato Institucional, tem a grande responsabilidade de bem enquadrar-se na ação governamental e de cumprir os seus deveres para com a Revolução, contribuindo com sua ação para a preservação das instituições democráticas.

 

Manchete: Que diz sobre a ação do Judiciário?

 

Costa e Silva: Ao Poder Judiciário, também preservado, respeitado e acatado pela revolução, cabe uma cooperação dinâmica, imbuída do espírito renovador que norteia o 31 de março, que somente pela integração dos três poderes, dentro de uma só orientação doutrinária, poderá alcançar os seus objetivos.

 

Manchete: O General Costa e Silva declara que é velho amigo e camarada do Marechal Castello Branco, desde os tempos do Colégio Militar. Lutaram juntos antes do 31 de março e continuaram ainda mais unidos depois do movimento.

 

Costa e Silva: Temos fé na ação do Presidente da República, que contará com o nosso integral apoio, por mais drásticas que sejam suas decisões em favor do revigoramento e da continuidade da Revolução Democrática, que, como ele disse, é definitiva e irre­versível, e assim será.

 

Manchete: Existe perfeita união, atualmente, no Exército?

 

Costa e Silva: O Exército está unido, coeso e forte. Ao lado das outras Forças Armadas, ele, sem dúvida alguma, é muralha intransponível à comunização e à degeneração do País. É necessário que todos os seus componentes permaneçam unidos, sempre unidos, cada vez mais unidos, em qualquer circunstância e a despeito de tudo. Para salvaguardar esse estado de espírito torna-se indispensável que se mantenham incólumes a confiança e a lealdade dos Chefes para com os seus comandados e destes para com aqueles, pois nesse respeito e nessa confiança mútua repousam os princípios basilares da hierarquia e da disciplina consciente.

 

Manchete: O Ministro da Guerra sempre gostou de três distrações: jogar biriba, assistir às corridas de cavalo e passear a pé. Mas agora vê-se privado de todas elas, porque os compromissos e responsabilidades, muito absorventes, mal lhe deixam tempo para comparecer a uma ou outra reunião social. De uma coisa, faz questão: de atender seus velhos companheiros, inclusive os da reserva, a qualquer hora e dia.

 

Costa e Silva: Através de notícias encomendadas, verdadeira trama, urdida com interesses menores e particulares, com maldade intencional e revoltante, procura atingir os Chefes mais categorizados e gerar a descrença dos subordinados em seus chefes e vice-versa. Há o premeditado e impatriótico propósito de sabotar a autoridade de comando. Mas aí está o Exército Brasileiro, firme, vibrante e impermeável à intriga, indiferente às manobras daqueles que querem enfraquecê-lo para utilizá-lo como simples instrumento a serviço de interesses pessoais. Aquietem-se os adeptos e inconscientes seguidores dos sectários soviéticos, chineses ou cubanos e lembrem-se todos, a espada que nos indica o caminho da honra e nos dá o exemplo da palavra empenhada é a espada de Caxias.

 

Manchete: Este será o último ano de sua carreira militar?

 

Costa e Silva: Já estou vivendo o último ano de minha atividade militar. Durante ele, porei à prova todos os meus sentimentos e toda a minha energia, visando a concorrer, ao lado de todos os meus comandados, para a grandeza sempre crescente do nosso Exército e para a consecução dos ideais que me levaram, depois de uma Revolução, a ocupar a Pasta da Guerra.

 

Manchete: O Ministro falou depois dos seus planos administrativos. Encontrara o Exército com um déficit de quase 20 mil casas, mas começou a enfrentá-lo através da construção maciça de casas e apartamentos, atendendo com prioridade as Guarnições de fronteira e outras menos favorecidas. Está reconstruindo quartéis velhos e construindo novos. Iniciou uma colaboração intensa com o Ministério da Viação, através da sua Engenharia de Construções, na construção de estradas de ferro (Tronco Principal Sul e várias ferrovias do Nordeste), além da construção de estradas de rodagem (5 mil km em 18 rodovias federais), das obras de abastecimento d'água em várias cidades, reequipamento das comunicações, do armamento, fabricação de peças e de munição, inclusive os modernos mísseis. A máquina administrativa do Ministério da Guerra está sendo desburocratizada. Readaptações e promoções beneficiaram o funcionalismo civil do Exército. Um Departamento de Ensino está previsto na Lei de Organização Básica, além de melhoria de assistência médico-hospitalar, criação da Pagadoria Central, Plano de Carreira Militar, dinamização da Diretoria de Assistência Social, projeto do Regulamento de Promoções de Graduados, Plano de Construção de Residências, elaboração da Lei de Promoções e até Assistência Funerária.

 

Manchete: Qual a sua posição em face do Poder Civil?

 

Costa e Silva: Temos deixado transparecer em todas as ocasiões a nossa vocação democrática, o nosso respeito ao Poder Civil e o nosso total repúdio a qualquer forma de governo totalitário. Somos leais, temos confiança e fé no Governo da Revolução, à frente do qual se encontra a figura do Marechal Castello Branco, Comandante Supremo das Forças Armadas, dando ênfase, em todas as oportunidades, à obra patriótica de restauração nacional que vem sendo realizada e manifestando-lhe sempre total apoio e integral solidariedade. Mas, embora não seja homem de ameaças, devo dizer aos brasileiros, revolucionários ou contrarrevolucionários, que se convençam de uma realidade: esta Revolução veio para ficar. Nossa autoridade moral faz-nos fortes e respeitados, porque respeitamos o povo e ele nos respeita, sabendo como se sabe, que nosso sacrifício é em seu favor. Ficamos cansados de alijar os subversivos e corruptos do poder, como aconteceu várias vezes no passado para depois vê-los retornar ao Governo. Agora não. Desta vez, é para valer.

 

Manchete: Afirmou ainda o Ministro.

 

Costa e Silva:

 

A. O Governo prometeu e cumpriu a sua promessa de realizar as eleições de outubro passado.

 

B. Dentro do Governo a anistia não tem sido cogitada.

 

C. Depois das recentes visitas que fez às diversas Guarnições do País, pode assegurar que há uma firmeza absoluta entre os Generais e os jovens Oficiais, porque todos têm uma missão comum a cumprir e não ficarão no meio da caminhada.

 

D. É favorável à alfabetização intensa e urgente dos analfabetos, a fim de que eles possam então exercer o direito das urnas.

 

E. Ninguém conseguirá separá-lo do Presidente da Repú­blica, nem conseguirá também que as Forças Armadas se separem dele. A união em torno da sua autoridade e liderança é absoluta, porque todos reconhecem nele honestidade e sinceridade.

 

Manchete: O Presidente da República já se manifestou sobre sua candidatura?

 

Costa e Silva: Ainda hoje almocei com ele, a seu convite, para nos despedir-nos. Havia lido as notícias dos jornais e perguntou-me a respeito. Dei-lhe a mesma resposta que agora acabei de ditar para a sua reportagem: o Deputado Anísio Rocha perguntara-me se eu não era candidato, ou se fosse indicado, recusaria o lançamento. Não vacilei, um só instante, afirmando que, indicado aceitaria a indicação com muita honra.

 

Manchete: Na sua estante, onde avultam os clássicos (Vieira, Bernardes, Camões), o Ministro da Guerra possui um livro “Palavras à Juventude”, cujo autor escreveu a seguinte dedicatória: “Ao mais distinto aluno da nossa turma, oferece o Cearense”. O autor cearense, no caso, é o atual Presidente Castello Branco, que assim fez questão de homenagear o seu colega de estudos. No Colégio Militar, entre 1912-1917, o atual General Costa e Silva foi o primeiro colocado. Na Escola Militar, foi o terceiro. Na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), com a Missão Francesa, foi novamente o primeiro, com nota próxima de nove. Recebeu o grau de “très bien” na Escola de Estado-Maior. Foi posteriormente instrutor de todas as escolas do Exército: Militar, Aperfeiçoamento de Oficiais, Sargentos, Estado-Maior e de Moto Mecanização.

 

Manchete: Quer dizer que é otimista em relação a 66?

 

Costa e Silva: Será um ano de trabalho e de vigilância, como foi o anterior. Mas as dificuldades que por acaso surjam só servirão para revigorar nossa coragem de enfrentá-las e resolvê-las. Minhas palavras são de estímulo à união, à compreensão e ao trabalho. As possibilidades do Brasil são infinitas. Podemos confiar em nós mesmos e acreditar em dias melhores. Neste sentido, uma grande obra está sendo realizada pelo Governo da Revolução, sob a chefia do Marechal Castello Branco. É uma obra restauradora, que há de promover o bem-estar do povo brasileiro e que nos dará um Brasil maior, progressista, ordeiro, feliz e democrático. Como filho de comerciante, pelas minhas origens, tenho todos os motivos para ser um democrata e um otimista, sem quaisquer sentimentos de castas ou de privilégios. Olho, pois, para o futuro com , confiança e esperança. As grandes conquistas são fruto do trabalho, da abnegação e do sacrifício. O ano de 1966, que começa sob bons augúrios, poderá exigir de nós muitos esforços, persistência, compreensão e tolerância. Para tanto, creditemos no homem brasileiro, possuidor de qualidades extraordinárias, que saberá ajudar o País a alcançar seus grandes objetivos, em prol da sua própria valorização, através da prosperidade e da grandeza nacionais. (REVISTA MANCHETE N° 718, 22.01.1966)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

O Candidato Costa e Silva - Gente de Opinião

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoTerça-feira, 3 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

O Petróleo Jorra no Mar

O Petróleo Jorra no Mar

Bagé, RS, 28.01.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:  Manchete n° 882, Rio de Janeiro, RJSábado, 15.03.1969 O Petró

Um Caminho Para o Brasil

Um Caminho Para o Brasil

Bagé, RS, 26.01.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:  Manchete n° 879, Rio de Janeiro, RJSábado, 22.02.1969 Paraná,

Um Caminho Para o Brasil

Um Caminho Para o Brasil

Bagé, RS, 23.01.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:  Manchete n° 878, Rio de Janeiro, RJSábado, 15.02.1969 Um Cam

Um Governo Forte Para Defender os Fracos

Um Governo Forte Para Defender os Fracos

Bagé, RS, 21.01.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete: Manchete n° 877, Rio de Janeiro, RJSábado, 08.02.1969 Um Gov

Gente de Opinião Terça-feira, 3 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)