Sexta-feira, 19 de dezembro de 2025 - 13h30

Bagé, RS, 19.12.2025
Vamos continuar
reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:
Manchete n° 718, Rio de Janeiro, RJ
Sábado, 22.01.1966
O Candidato Costa e Silva
Manchete: Assim falou à Manchete, numa
entrevista exclusiva, o General de Exército Arthur da Costa e Silva, Ministro
da Guerra e candidato (em potencial) à Presidência da República, na sucessão do
Marechal Humberto de Alencar Castello Branco.
Costa e Silva: O mais que posso ser, no momento, é
candidato a candidato. Ninguém pode candidatar-se por si mesmo. Mas, se for
indicado por um dos Partidos legalmente inscritos, como a lei exige, não
hesitarei em aceitar, pois me considero em perfeitas condições legais para assumir
o encargo. Sou brasileiro, maior de 35 anos, com uma longa folha de serviços
prestados ao Exército e ao País. E não vejo motivos para fugir ao cumprimento
de novos deveres. Não sendo um postulante, não terei dúvidas em aceitar o
oferecimento. Aliás, só se aceita o que é oferecido.
Manchete: Poucas horas antes de embarcar para
uma longa viagem pela Europa e Oriente Médio, Disse-nos o General:
Costa e Silva: Temos tido a preocupação de manter,
bem vivo, no coração do Soldado, o espírito revolucionário, como condição
essencial para a consolidação e a continuidade do Movimento de 31 de Março de
1964. E isto tem sido possível porque uma consciência moral preside os atos da
Revolução. O povo brasileiro, acima das paixões políticas e da resistência
natural a todos os Movimentos Restauradores, sente no íntimo o acerto das
medidas governamentais, a elevação que as preside, a superior inspiração que as
dita.
Manchete: Qual a sua impressão do ano agora
findo?
Costa e Silva: Analisando bem os doze meses
transcorridos, podemos bem sentir o valor dos sentimentos da obra realizada.
Ela é fruto do amor, do esforço, da tenacidade e do trabalho de todos e não uma
conquista isolada para o proveito próprio de quem quer que seja. Temos tido
também o propósito de realçar em todas as oportunidades o valor da ideologia
democrática e a necessidade de desenvolvê-la, cada vez mais, no meio militar,
de forma a tornar as Forças Armadas definitivamente imunes ao comunismo e a
outras formas totalitárias de Governo.
Manchete: O Ministro da Guerra faz as suas
declarações no Palacete Laguna, residência oficial do Chefe do Exército. A
mansão, embora com seus dois portões guardados por sentinelas, oferece ao
transeunte um aspecto de sossego e quietude. No seu interior, um homem simples,
rodeado da família, toma a cada minuto dezenas de providências e decisões
importantes, auxiliado por uma equipe de oficiais jovens, a cujas opiniões e
conselhos ele ouve e, não raro, se submete até com humildade. O Chefe Militar
responsável pelo sistema de segurança do Governo ia sair do País para atender a
convites oficiais de sete governos estrangeiros (Portugal, Inglaterra, França,
Alemanha, Itália, Espanha e Líbano), devendo ainda inspecionar o Batalhão Suez
na faixa de Gaza. Na véspera, passara o Ministério da Guerra a seu amigo e
colega, General Décio Escobar. Vários e decisivos detalhes deviam ficar bem
esclarecidos antes que ele tomasse o avião para ausentar-se do seu posto por 35
dias.
Manchete: Há alguma brecha no dispositivo de segurança?
Costa e Silva: Não me canso de pregar sempre a
unidade de todos os militares em torno dos mesmos ideais e princípios, evitando,
assim, a
formação
de brechas,
por onde os inimigos da Revolução possam infiltrar-se. Existe, permanentemente,
o perigo da intriga e da difamação, como fatores intencionalmente utilizados, a
todo o momento, para dividir as Forças Armadas. Conquistamos em março de 64 uma
grande vitória. Estamos agora em plena fase de consolidação. O inimigo, no
entanto, procura rearticular-se para voltar à carga. Recuou, mas não fugiu à
luta. Suas ações são sub-reptícias, solertes e silenciosas. Por isso,
precisamos estar de atalaia, em vigília permanente.
Manchete: Gaúcho de Taquari, o General Costa e
Silva conhece todo o País, pois já serviu nas mais distantes Guarnições. Casado
com D. Iolanda, tem um filho, o Tenente-Coronel Álcio batizado com esse nome em
homenagem ao General Álcio Souto. Quatro netos cheios de vitalidade quebram por
vezes o silêncio daqueles jardins sombreados de árvores: Artur, André Luís,
Alexandre e Carla, que tem pouco mais de um ano, e que o Ministro da Guerra
chama de alegria da casa. É verdade que lhe ofereceram o
lugar de ditador, logo após a vitória da Revolução?
Costa e Silva: É verdade, sim. Mas este fato já
pertence à História e não devemos revivê-lo, porque ela se encarregará de
julgar a minha recusa. O Brasil
não comporta ditaduras
e eu não nasci
para ditador.
Minha longa vida no Exército, que é democrático e popular, ensinou-me que ainda
não foi inventado melhor regime que a Democracia. Justamente para preservá-la e
evitar uma Ditadura de esquerda no Brasil, foi que saímos à rua, ombro a ombro
com o povo.
Manchete: Afirma, a seguir, que, passados
aqueles dias de tristes reminiscências, devemos agora fortalecer a disciplina,
pois somente assim será possível dar ao País e ao povo a segurança que tanto
desejam e necessitam para trabalhar e progredir.
Costa e Silva: A Revolução entregou ao Governo da
Revolução a sua direção política. A ele, está atribuída, em consequência, a
responsabilidade pelo planejamento e execução das ações de natureza política. O
Presidente da República tem demonstrado o seu propósito de prosseguir em sua
orientação de basear o Governo numa ordem legal que lhe foi outorgada
pela própria
Revolução,
com vistas à institucionalização dos elementos necessários à defesa dos ideais
revolucionários.
Manchete: E qual a função que compete ao
Congresso?
Costa e Silva: O Congresso Nacional, preservado e
legitimado pelo Ato Institucional, tem a grande responsabilidade de bem
enquadrar-se na ação governamental e de cumprir os seus deveres para com a
Revolução, contribuindo com sua ação para a preservação das instituições
democráticas.
Manchete: Que diz sobre a ação do Judiciário?
Costa e Silva: Ao Poder Judiciário, também
preservado, respeitado e
acatado pela
revolução,
cabe uma cooperação dinâmica, imbuída do espírito renovador que norteia o 31 de
março, que somente pela integração dos três poderes, dentro de uma só
orientação doutrinária, poderá alcançar os seus objetivos.
Manchete: O General Costa e Silva declara que é
velho amigo e camarada do Marechal Castello Branco, desde os tempos do Colégio
Militar. Lutaram juntos antes do 31 de março e continuaram ainda mais unidos
depois do movimento.
Costa e Silva: Temos fé na ação do Presidente da
República, que contará com o nosso integral apoio, por mais drásticas que sejam
suas decisões em favor do revigoramento e da continuidade da Revolução
Democrática, que, como ele disse, é definitiva e irreversível, e assim será.
Manchete: Existe perfeita união, atualmente, no
Exército?
Costa e Silva: O Exército está unido, coeso e
forte. Ao lado das outras Forças Armadas, ele, sem dúvida alguma, é muralha
intransponível à comunização e à degeneração do País. É necessário que todos os
seus componentes permaneçam unidos, sempre unidos,
cada vez
mais unidos,
em qualquer circunstância e a despeito de tudo. Para salvaguardar esse estado
de espírito torna-se indispensável que se mantenham incólumes a confiança e a
lealdade dos Chefes para com os seus comandados e destes para com aqueles, pois
nesse respeito e nessa confiança mútua repousam os princípios basilares da
hierarquia e da disciplina consciente.
Manchete: O Ministro da Guerra sempre gostou de
três distrações: jogar biriba, assistir às corridas de cavalo e passear a pé.
Mas agora vê-se privado de todas elas, porque os compromissos e
responsabilidades, muito absorventes, mal lhe deixam tempo para comparecer a
uma ou outra reunião social. De uma coisa, faz questão: de atender seus velhos
companheiros, inclusive os da reserva, a qualquer hora e dia.
Costa e Silva: Através de notícias encomendadas,
verdadeira trama, urdida com interesses menores e particulares, com maldade
intencional e revoltante, procura atingir os Chefes mais categorizados e gerar a descrença dos subordinados em
seus chefes
e vice-versa.
Há o premeditado e impatriótico propósito de sabotar a autoridade de comando. Mas
aí está o Exército Brasileiro, firme, vibrante e impermeável à intriga,
indiferente às manobras daqueles que querem enfraquecê-lo para utilizá-lo como
simples instrumento a serviço de interesses pessoais. Aquietem-se os adeptos e
inconscientes seguidores dos sectários soviéticos, chineses ou cubanos e
lembrem-se todos, a espada que nos indica o caminho da honra e nos dá o exemplo
da palavra empenhada é a espada de Caxias.
Manchete: Este será o último ano de sua
carreira militar?
Costa e Silva: Já estou vivendo o último ano de
minha atividade militar. Durante ele, porei à prova todos os meus sentimentos e
toda a minha energia, visando a concorrer, ao lado de todos os meus comandados,
para a grandeza sempre crescente do nosso Exército e para a consecução dos
ideais que me levaram, depois de uma Revolução, a ocupar a Pasta da Guerra.
Manchete: O Ministro falou depois dos seus
planos administrativos. Encontrara o Exército com um déficit de quase 20 mil
casas, mas começou a enfrentá-lo através da construção maciça de casas e
apartamentos, atendendo com prioridade as Guarnições de fronteira e outras
menos favorecidas. Está reconstruindo quartéis velhos e construindo novos.
Iniciou uma colaboração intensa com o Ministério da Viação, através da sua
Engenharia de Construções, na construção de estradas de ferro (Tronco Principal
Sul e várias ferrovias do Nordeste), além da construção de estradas de rodagem
(5 mil km em 18 rodovias federais), das obras de abastecimento d'água em várias
cidades, reequipamento das comunicações, do armamento, fabricação de peças e de
munição, inclusive os modernos mísseis. A máquina administrativa do Ministério
da Guerra está sendo desburocratizada. Readaptações e promoções beneficiaram o
funcionalismo civil do Exército. Um Departamento de Ensino está previsto na Lei
de Organização Básica, além de melhoria de assistência médico-hospitalar,
criação da Pagadoria Central, Plano de Carreira Militar, dinamização da
Diretoria de Assistência Social, projeto do Regulamento de Promoções de
Graduados, Plano de Construção de Residências, elaboração da Lei de Promoções e
até Assistência Funerária.
Manchete: Qual a sua posição em face do Poder
Civil?
Costa e Silva: Temos deixado transparecer em todas
as ocasiões a nossa vocação democrática, o nosso respeito ao Poder Civil e o
nosso total repúdio a qualquer forma de governo totalitário. Somos leais, temos
confiança e fé no Governo da Revolução, à frente do qual se encontra a figura
do Marechal Castello Branco, Comandante Supremo das Forças Armadas, dando
ênfase, em todas as oportunidades, à obra patriótica de restauração nacional
que vem sendo realizada e manifestando-lhe sempre total apoio e integral
solidariedade. Mas, embora não seja homem de ameaças, devo dizer aos
brasileiros, revolucionários ou contrarrevolucionários, que se
convençam
de uma
realidade: esta Revolução veio para
ficar. Nossa autoridade moral faz-nos fortes e respeitados, porque respeitamos
o povo e ele nos respeita, sabendo como se sabe, que nosso sacrifício é em seu
favor. Ficamos cansados de alijar os subversivos e corruptos do poder, como
aconteceu várias vezes no passado para depois vê-los retornar ao Governo. Agora não.
Desta vez,
é para
valer.
Manchete: Afirmou ainda o Ministro.
Costa e Silva:
A. O Governo prometeu e cumpriu a sua
promessa de realizar as eleições de outubro passado.
B. Dentro do Governo a anistia não tem
sido cogitada.
C. Depois das recentes visitas que fez às
diversas Guarnições do País, pode assegurar que há uma firmeza absoluta entre
os Generais e os jovens Oficiais, porque todos têm uma missão comum a cumprir e
não ficarão no meio da caminhada.
D. É favorável à alfabetização intensa e
urgente dos analfabetos, a fim de que eles possam então exercer o direito das urnas.
E. Ninguém conseguirá separá-lo do
Presidente da República, nem conseguirá também que as Forças Armadas se
separem dele. A união em torno da sua autoridade e liderança é absoluta, porque
todos reconhecem nele honestidade e sinceridade.
Manchete: O Presidente da República já se
manifestou sobre sua candidatura?
Costa e Silva: Ainda hoje almocei com ele, a seu
convite, para nos despedir-nos. Havia lido as notícias dos jornais e
perguntou-me a respeito. Dei-lhe a
mesma resposta que
agora
acabei de
ditar para a sua reportagem: o
Deputado Anísio Rocha perguntara-me se eu não era candidato, ou se fosse
indicado, recusaria o lançamento. Não vacilei, um só instante, afirmando que,
indicado aceitaria a indicação com muita honra.
Manchete: Na sua estante, onde avultam os
clássicos (Vieira, Bernardes, Camões), o Ministro da Guerra possui um livro “Palavras à Juventude”, cujo autor
escreveu a seguinte dedicatória: “Ao mais distinto aluno
da nossa
turma, oferece
o Cearense”.
O autor cearense,
no caso,
é o atual Presidente
Castello Branco,
que assim fez questão de homenagear o seu colega de estudos. No Colégio Militar,
entre 1912-1917, o atual General Costa e Silva foi o primeiro colocado. Na
Escola Militar, foi o terceiro. Na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais
(EsAO), com a Missão Francesa, foi novamente o primeiro, com nota próxima de
nove. Recebeu o grau de “très bien” na Escola de Estado-Maior. Foi
posteriormente instrutor de todas as escolas do Exército: Militar,
Aperfeiçoamento de Oficiais, Sargentos, Estado-Maior e de Moto Mecanização.
Manchete: Quer dizer que é otimista em relação
a 66?
Costa e Silva: Será um ano de trabalho e de
vigilância, como foi o anterior. Mas as dificuldades que por acaso surjam só
servirão para revigorar nossa coragem de enfrentá-las e resolvê-las. Minhas
palavras são de estímulo à união, à compreensão e ao trabalho. As possibilidades do
Brasil são
infinitas. Podemos confiar em nós
mesmos e acreditar em dias melhores. Neste sentido, uma grande obra está sendo
realizada pelo Governo da Revolução, sob a chefia do Marechal Castello Branco.
É uma obra restauradora, que há de promover o bem-estar do povo brasileiro e
que nos dará um Brasil maior, progressista, ordeiro, feliz e democrático. Como
filho de comerciante, pelas minhas origens, tenho todos os motivos para ser um
democrata e um otimista, sem quaisquer sentimentos de castas ou de privilégios.
Olho, pois, para o futuro com fé, confiança
e esperança.
As grandes conquistas são fruto do trabalho, da abnegação e do sacrifício. O
ano de 1966, que começa sob bons augúrios, poderá exigir de nós muitos esforços, persistência, compreensão
e tolerância. Para tanto, creditemos fé
no homem
brasileiro, possuidor de qualidades
extraordinárias, que saberá ajudar o País a alcançar seus grandes objetivos, em
prol da sua própria valorização, através da prosperidade e da grandeza
nacionais. (REVISTA MANCHETE N° 718, 22.01.1966)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
YYY
Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso
do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de
Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre
(CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e
Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do
Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando
Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre
do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do
Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

Terça-feira, 3 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)
Bagé, RS, 28.01.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete: Manchete n° 882, Rio de Janeiro, RJSábado, 15.03.1969 O Petró

Bagé, RS, 26.01.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete: Manchete n° 879, Rio de Janeiro, RJSábado, 22.02.1969 Paraná,

Bagé, RS, 23.01.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete: Manchete n° 878, Rio de Janeiro, RJSábado, 15.02.1969 Um Cam

Um Governo Forte Para Defender os Fracos
Bagé, RS, 21.01.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete: Manchete n° 877, Rio de Janeiro, RJSábado, 08.02.1969 Um Gov
Terça-feira, 3 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)