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Hiram Reis e Silva

O Rondon de Daniel Scola – I Parte


Hiram Reis e Silva - Gente de Opinião
Hiram Reis e Silva

Bagé, RS, 10.02.2020

 

O meu grande amigo e historiador Coronel Luiz Ernani Caminha Giorgis – Presidente da Academia Militar de História Terrestre do Brasil/Rio Grande do Sul, enviou-me uma mensagem indignado com uma coluna publicada na “Zero Hora”, de 29 de janeiro de 2020, em que o colunista Daniel Scola faz a apologia de uma biografia de Rondon de autoria do jornalista e escritor norte-americano Larry Rohter.

 

Vejamos inicialmente o artigo de D. Scola:

 

Zero hora – Porto Alegre, RS

Quarta-feira, 29.01.2020

Biografias

[Daniel Scola – Interino]

 

Há 106 anos, um grupo de desbravadores se lançou numa missão pelo extremo noroeste brasileiro para mapear um rio com mais de 1,6 mil (?[1]) quilômetros de extensão e até então inexplorada.

 

Pelo sertão de Mato Grosso até chegar ao coração da Floresta Amazônica, o grupo com militares, guias indígenas e aventureiros brasileiros e americanos trilhou caminho para uma aventura que, mais tarde, viria a ser reconhecida no mundo todo.

 

Equipados com barracas, canoas feitas de troncos de árvores e comida restrita, depararam com tribos de índios hostis, abriram caminho pela mata selvagem e enfrentam condições extremas de tempo e de terreno.

 

A saga foi liderada pelo militar brasileiro Cândido Rondon, já naquela época um veterano explorador, e levava junto o ilustre ex-presidente dos Estados Unidos e Nobel da Paz Theodore Roosevelt ([2]). Ao final da viagem feita na maior parte a pé ([3]), extenuados e castigados pelas adversidades, comiam apenas o que conseguiam caçar. Alguns já não contavam mais com a possibilidade de terminar vivos a missão. O próprio Roosevelt encerrou a expedição carregado em uma maca.

 

A aventura com tom épico é o ponto alto do livro “Rondon, uma Biografia”, do jornalista Larry Rohter, que conta a trajetória do brasileiro que deu nome a um Estado – Rondônia –, é o patrono das telecomunicações ([4]) brasileiras e foi o responsável por levar estradas, pontes e portos a uma vasta região do Brasil.

 

É curioso que uma história de vida extraordinária de um brasileiro tão importante tenha sido contada com absoluto rigor só agora e por um jornalista america­no. Rohter dedicou cinco anos à pesquisa do livro.

 

Virei a última página pensando em quantas histórias mais de homens e mulheres que de alguma forma ajudaram a construir o país nesses 520 anos de Brasil ficaram esquecidas no tempo.

 

Fico imaginando se esse descuido histórico não teria relação com um certo estigma de parte dos historiadores ao Exército.

 

Se for isso, é uni tremendo equívoco. Positivista e pacifista, Rondon foi o maior protetor dos povos indígenas no século 20 e levava ao pé da letra o lema “Morrer se preciso for, matar jamais ([5])”.

 

Em livrarias americanas e europeias [físicas ou virtuais], é muito comum ver estantes abarrotadas de biografias e livros de diferentes períodos da História.

 

Apenas para ficar na mesma área: o explorador britânico capitão sir Richard Francis Burton, cujos feitos não se igualam aos de Rondon, tem duas boas biografias e é personagem conhecido e estudado na Inglaterra.

 

Umas das minhas suspeitas é de que, no Brasil, os principais centros acadêmicos de História não com­versam com o mercado editorial. Ou esse setor também não enxerga nas universidades a fonte ideal para a produção de grande fôlego e com rigor histórico que possa chegar ao público.

 

O certo é que carecemos de maneira geral de referências históricas com sua trajetória pesquisada e contada para o público de forma massificada.

 

O brasileiro lê pouco? A resposta é sim. Talvez uma forma de mudar isso seja pelo estímulo à leitura de bons livros baseados em personagens de referência que ficaram esquecidos ao longo do tempo.

 

Numa escola na periferia de Chicago, em 2008, para a cobertura eleitoral, assisti a uma aula de história política para jovens de 12 e 13 anos. Eles falavam de seus heróis, os “founding fathers”, os pais da nação americana, com suas qualidades e defeitos, com profunda admiração e conhecimento.

 

Existem muitos caminhos para mudar essa realidade. Desconfio de que se começarmos por distribuir livros como o de Rondon nas escolas brasileiras, a nossa história, no futuro, pode ser bem diferente ([6]).

 

Em tempo: Theodore Roosevelt morreu cinco anos depois da expedição brasileira. Até o fim da vida, fez questão de elogiar o extraordinário Rondon.

 

O colunista David Coimbra está em férias e retorna no dia 18.02.2020. (ZERO HORA, 29.01.2020)

 

 

Continua nos próximos artigos.

 

Fonte:

 

ZERO HORA, 29.01.2020. Biografias ‒ Brasil ‒ Porto Alegre, RS ‒ Zero Hora, 29.01.2020.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

·    Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·    Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·    Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·    Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·    Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·    Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·    Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·    Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·    Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·    Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·    Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·    Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·    Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·    E-mail: [email protected].



[1]    O Rio Roosevelt tem apenas 763 km de extensão e a Expedição percorreu e mapeou (segundo a Caderneta de Campo Nr 3 do Ten Lyra) 726,375 km.

[2]    Roosevelt foi o primeiro norte-americano a ser agraciado com o Nobel da Paz. Recebeu-o em 1906, como reconhecimento pelo seu trabalho de mediador que culminou com a assinatura do Tratado de Paz na Guerra Russo-Japonesa.

[3]    Na verdade o menor percurso – 650 km em lombo de burros e não a pé, o restante foi navegando, no “Adolpho Riquielme”, pelos Rios Paraguai e Cuiabá, no “Nyoac” pelos Rios Paraguai e Sepotuba, no “Anjo da Ventura” pelo Rio Sepotuba e em canoas pelo Rio Roosevelt.

[4]    Patrono da Arma de Comunicações do Exército Brasileiro.

[5]    Morrer se preciso for, matar NUNCA!

[6]    Uma pequena amostragem de livros editados no Brasil falando de do nosso Marechal da Paz – Rondon: “Missão Rondon” – Jornal do Comércio do Rio de Janeiro (1915) e Senado federal (2003); “Conferências Realizadas nos dias 5, 7 e 9 de Outubro de 1915” – Jornal do Comércio do Rio de Janeiro (1916); “Rondônia” – Roquette-Pinto – Imprensa Nacional (1917 e 1919); “Pelos Sertões do Brasil” – Amílcar Armando Botelho de Magalhães – Editora Nacional (1941 e 1942); “A Amazônia que eu vi” – Gastão Luiz Cruls – Editora Nacional (1938); “Impressões da Comissão Rondon” Amílcar A. Botelho Magalhães – Editora Nacional (1942); “Rondon Conta sua Vida” – Esther de Viveiros – Editora: São José (1958) e Biblioteca do Exército Editora (2010)...

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