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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

O Exército nas Fronteiras


O Exército nas Fronteiras - Gente de Opinião

Bagé, RS, 19.01.2026


 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 876, Rio de Janeiro, RJ


Sábado, 1°.02.1969

 

O Exército nas Fronteiras

 

A Missão Desses Homens é Garantir a Integração da Amazônia

 

São pouco mais de três mil Soldados, incumbidos da guarda de uma fronteira de nove mil quilômetros e de uma vasta região brasileira, onde o índice demográfico é dos menores do mundo. As 13 unidades do Grupamento de Elementos de Fronteira representam a vanguarda da soberania nacional na Amazônia. Mais do que isso: representam também uma vanguarda da civilização. Graças à presença das Forças Armadas, a vida é possível nas pequenas localidades ribeirinhas. Abastecimento, assistência médica e dentária, a abertura e manutenção das estradas, as comunicações são incumbências militares nesse imenso território recoberto de florestas. Dotado do equipamento mais moderno de que dispõe o Exército e adestrado para o combate na selva, o Grupamento de Elementos de Fronteira semeia cidades ao longo de suas vias de penetração. Sua presença eficiente é uma garantia de paz e de integração da Amazônia na Nação Brasileira.

 

(Reportagem de Fernando Luís Cascudo e Fotos de Nélson Santos e Luís Mongelli Filho)

 

O Grupamento de Fronteiras (GEF) Reedita, com Heroísmo, a Epopeia de Rondon e dos Primitivos Bandeirantes

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Tornando efetiva a soberania do Brasil sobre uma grande porção de seu Território, os homens do Grupamento de Fronteiras realizam, também, tarefas indispensáveis à integração e à manutenção do sentimento nacional no Norte Amazônico. A formação escolar e cívica das populações fixadas nessa área faz parte dos programas regulares de trabalho das diversas unidades. Além disso, elas se empenham em criar estímulos e dar toda ajuda aos que se decidiram a enfrentar o desafio da floresta tropical. Essa tarefa dá continuidade, com igual grandeza, à marcha civilizadora de Rondon e dos primitivos Bandeirantes. O Exército escreve um novo capítulo na história da ocupação por brasileiros em seu Território.

 

A rebelião de colonos e ameríndios da Guiana na região de Lethem, perto da fronteira Norte do Brasil, evidenciou o papel vital do Grupamento de Elementos de Fronteiras na garantia da segurança nacional. O Brasil não foi surpreendido. Há mais de cinco anos, nossas autoridades vêm acompanhando de perto o desdobramento das antigas disputas entre a Venezuela e a Guiana, a luta interna entre correntes políticas que disputam o poder no mais jovem estado sul-americano. O deslocamento rápido de unidades do GEF em reforço à 9ª Companhia de Fronteiras, sediada em Boa Vista, Capital do Território de Roraima, possibilitou a formação imediata de um cinto protetor que neutralizou a infiltração dos rebeldes em Território Brasileiro. Foram presos vários líderes participantes do fracassado movimento.

 

Dentro dos conceitos modernos de estratégia militar, a mobilidade é fator primordial numa tropa que possui a missão de cobrir vastas extensões territoriais. Os meios de transporte mais modernos, principalmente o avião, permitiram um rendimento maior e grande elasticidade operacional às nossas unidades de fronteira. Sem dispor de grandes efetivos, distribuídos pelos nove mil quilômetros de fronteiras com as Guianas, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia, o Exército brasileiro conta, no entanto, com uma espinha dorsal de 13 unidades militares, um pouco mais de três mil homens, agrupados sob o comando central do GEF com sede em Manaus.

 

A Rede Bandeirante de Comunicações assegura as ligações permanentes entre essas Guarnições. Cerca de mil homens concentram-se em Manaus. O restante está distribuído em Companhias, Colônias Militares, Batalhões e Pelotões, que se estendem pelas localidades de Boa Vista, Cucuí, Ipiranga, Estirão do Equador, Palmeiras, Guajará-Mirim, Rio Branco, Forte Príncipe da Beira, Porto Velho, Tabatinga, Cruzeiro do Sul e Oiapoque. Cerca de 300 oficiais passam o mínimo de um ano na fronteira, ganhando além do soldo uma gratificação de 40%. Ao sair de sua comissão na Amazônia, têm o direito de escolher a próxima cidade em que servirão.

 

O papel desempenhado pelo Exército Brasileiro na imensidão continental da Amazônia é diário, anônimo, heroico e, principalmente, desbravador. Certas unidades estão a mais de mil quilômetros de Manaus: localizadas nas selvas, quase sempre nas barrancas dos Rios, são sentinelas vivas de um nobre sentimento patriótico. A vida de uma unidade de fronteira é de verdadeiro pioneirismo. A presença de um quartel é fator de aglutinação para a fixação de novas Colônias e futuras Cidades. As diretrizes para a ação das unidades do GEF em toda a Amazônia não se limitam às ordens e missões militares relativas à soberania nacional, à vigilância das fronteiras e à segurança das populações disseminadas por uma vasta e remota área. É muito mais amplo e humano o papel do Exército, como fator real de integração, de povoamento e de progresso na Amazônia.

 

Cada unidade presta relevantes serviços à população civil que se agrega aos quartéis, formando Colônias em desenvolvimento. Serviços médicos e dentários, granjas, postos de abastecimento de gêneros de primeira necessidade, escolas, programas de alfabetização de adultos, apoio ao pequeno comércio, à produção agrícola e à pecuária fazem parte da rotina diária das unidades, obedientes à orientação recebida do alto comando e do próprio Ministério do Exército. A construção de pequenos Campos de Pouso e de Portos Fluviais, possibilitando a integração dessas populações que se agrupam nas proximidades de cada Quartel, são também missões de que se ocupam a Força Aérea Brasileira, com seus veteranos Douglas DC-3 e Catalinas, e a Marinha de Guerra, com o patrulhamento constante de suas corvetas.

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O hasteamento do Pavilhão Nacional, todas as manhãs, ganha uma dimensão simbólica particular nas Colônias Militares ou nas pequenas Vilas, em qualquer parte onde existir uma tropa. Crianças e adultos, para os quais o Brasil é apenas um mundo hostil de Rios e florestas, aprendem ali as primeiras lições cívicas e éticas, essenciais para a formação de uma mentalidade nacional. Oficiais-engenheiros, médicos e veterinários cumprem obrigações humanitárias, atendendo às populações pobres e garantindo a própria sobrevivência humana em condições tão difíceis.

 

O Exército entregou às unidades do GEF o armamento mais moderno de que dispõe, para a guarda das fronteiras. Os jovens recrutas, quase todos incorporados na própria região, recebem instrução com armas novas, com poder de fogo duplicado, o que valoriza a ação individual de cada Soldado. Reconhecendo a importância estratégica da Amazônia, o Exército Brasileiro fez de Manaus a sede de uma de suas mais completas unidades, o Centro de Instrução da Guerra na Selva, mais conhecido pela sigla CIGS. Seu primeiro Comandante, Coronel Teixeira, aprendeu nas escolas de guerrilhas e de combate nas selvas mantidas pelo Exército dos Estados Unidos no Panamá os ensinamentos que hoje aplica no CIGS, citado nas missões militares sul-americanas como um dos mais famosos centros de guerra na selva em todo o continente.

 

O CIGS dá ao Recruta, ao Sargento e ao Oficial estagiários uma dimensão nova de sobrevivência. Paralelamente ao estudo das ações militares e da luta de guerrilhas na selva, os alunos familiarizam-se com os perigos e surpresas naturais que a floresta oferece. O conhecimento sobre venenos de cobras e insetos, construção de armadilhas, choupanas, fontes de alimentação nativa, meios de orientação e sinalização são alguns capítulos de um longo e completo apren­dizado. O Centro adota as técnicas mais recentes como entidade formadora de uma elite pronta para atuar nas mais difíceis frentes, contra inimigos adestrados em condições adversas e perigosas.

 

O Grupamento de Elementos de Fronteira mantém, nos pontos avançados, onde não existe o Poder Público, mais de 10 escolas, com 66 professores e 2.300 alunos. Uma frota de 20 lanchas, 2 rebocadores e 7 balsas possibilita o deslocamento fluvial de contingentes em missões especiais e realiza o patrulhamento dos Rios, a interligação de cidades e povoados. Recentemente, uma conversa com o General Rodrigo Otávio, Comandante Militar da Amazônia e da 8ª Região Militar, a quem estão subordinadas quase todas as unidades da Amazônia Ocidental e Oriental, tivemos uma visão bífida, diante de um grande mapa, do trabalho surpreendente e desbravador do Exército na fixação de uma Amazônia brasileira e livre. Mostrou o General Rodrigo Otávio a importância cada vez maior dos Batalhões de Engenharia na região, como garantia da implantação de um sistema rodoviário indispensável para as comunicações terrestres.

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O papel que o 5° Batalhão de Engenharia e Construção (5° BEC) vem desempenhando é exemplar: construindo a rodovia Cuiabá-Porto Velho, ele agora prossegue em várias frentes a rota Porto Velho-Rio Branco, de enorme importância estratégica e econômica. Os Oficiais, subalternos e Praças do 5° BEC, rasgando estradas em plena selva, realizam uma notável missão pioneira que só pode ser comparada ao trabalho do Marechal Rondon, abrindo as primitivas rotas para a conquista do colosso amazônico. Recentemente, o 6° Batalhão de Engenharia e Construção foi criado para atuar também na Amazônia. Outros certamente virão, dentro de um planejamento que o Ministro do Exército, General Lyra Tavares, conhece bem e deseja executar na Amazônia.

 

É difícil, para quem vive nas grandes cidades, ter uma ideia exata do que representa a vida numa Colônia Militar, num Pelotão ou numa Companhia de Fronteiras. Muitos nem chegam a imaginar o que sejam, de fato, as distâncias amazônicas, os imensos espaços vazios onde o desconhecido representa um desafio permanente. O Projeto Rondon, que mostra o Brasil aos jovens brasileiros, possui um slogan altamente significativo:

 

Integrar para não entregar.

 

Assim faz o Exército Brasileiro, ocupa e coloniza, sozinho, distante, no silêncio e na solidão da imensa paisagem, para que no futuro a civilização possa finalmente chegar à fronteira, com todos os seus instrumentos de progresso, por estradas melhores e mais seguras. (MANCHETE N° 876)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

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