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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

MR-8, As Armas da Subversão


MR-8, As Armas da Subversão - Gente de Opinião

Bagé, RS, 20.02.2026

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 905, Rio de Janeiro, RJ

 

Sábado, 23.08.1969

 

Os Bandeirantes da Amazônia

 

(Reportagem de João Antônio)

 

 

Lutando contra um dos meios mais hostis da Terra, enfrentando mosquitos, malária, hepatite e o clima inóspito, dormindo em redes, trabalhando 24 horas por dia para aproveitar os meses de seca, militares e civis estão rasgando na selva, entre o Território de Rondônia e o Estado do Acre, uma estrada de 60 metros de largura e 12 metros de pista que vai de Cuiabá (Mato Grosso) a Cruzeiro do Sul (Acre), na fronteira com o Peru, no total de 2.842 quilômetros, sete vezes a extensão da Rio-São Paulo.

 

Via fundamental para a ocupação, o progresso e a defesa de uma região que representa dois terços do território nacional, essa rodovia é considerada um passo importante para a integração da Amazônia. O desafio foi aceito pelo Exército e o combate está sendo vencido pelo 5° Batalhão de Engenharia de Construção, sediado em Porto Velho (Rondônia). O Coronel Carlos Aloysio Weber comanda a Unidade com otimismo e o moral da tropa não podia ser melhor: Todos sabem que a Batalha será longa, mas não se deixam vencer pelo desânimo, diz o Coronel Weber:

 

Nós estamos construindo para o futuro.

 

O Calor Infernal, as Doenças e os Mosquitos não Conseguem Tirar o Bom-Humor Desses Homens Isolados do Mundo: Eles Ironizam a Hostilidade do Meio

MR-8, As Armas da Subversão - Gente de Opinião

Os primeiros frutos da luta, entretanto, já são visíveis. Basta ver o progresso que experimentou todo o Território de Rondônia após a chegada do Batalhão a Porto Velho. Explica o Comandante que, sob a responsabilidade de seus homens entre construir e conservar, estão 2.842 quilômetros de estradas, além dos 366 da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

 

Essas rodovias, uma em continuação a outra, atravessam toda a área fronteiriça do Brasil com a Bolívia e o Peru, formando uma gigantesca serpente que começa em Cuiabá e alonga-se até o extremo de Cruzeiro do Sul. São, ao todo, cinco rodovias: BR-364, de Porto Velho (Rondônia) a Cuiabá (Mato Grosso), com uma extensão de 1.521 km; BR-319, de Porto Velho a Abunã (ainda em Rondônia), com 214 km; BR-319, de Abunã a Guajará-Mirim (Acre), 128 km; BR-236, de Abunã a Rio Branco (Acre), 287 km; e BR-236, de Rio Branco à fronteira Brasil-Peru, 820 km. E o caminho não acabará aqui.

 

Em Cruzeiro do Sul foi criado, recentemente, o 7° Batalhão de Engenharia de Construção, com a missão de construir 500 quilômetros de estrada até Apucalpa, no Peru. A ocupação, que não foi conseguida ainda através da hidrovia, será tentada agora, com todas as possibilidades de sucesso, pela rodovia. Só por terra se pode travar um combate efetivo com a hostilidade da região e se poderá provar que a vida e a civilização são possíveis onde por enquanto existem apenas selva densa, mosquitos, feras e Índios.

 

E, para isso, a velha Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, com seus trilhos de bitola estreita e locomotiva Maria Fumaça, está obsoleta. A nova solução mostra, cada vez mais, ser a certa e a vitoriosa. O facão e o trator já abriram caminho no inferno verde, ao mesmo tempo em que, dos lados, descobre-se que a terra nada tem de infernal: é fértil. Está se revelando um trabalho produtivo plantar e colher na planície amazônica.

 

O Cessna militar que transporta o repórter, pilotado pelo Sargento Avelino, aterrissa no leito de terra e cascalho da estrada, no local chamado Girau, entre Porto Velho e Abunã. Os pilotos militares ou civis que operam na Selva Amazônica aprenderam a descer e decolar nos lugares mais incríveis: clareiras, praias que se formam no meio dos Rios durante os meses de seca, garimpos. São chamados, pela coragem, piratas, e demonstram-se à vontade naquele trabalho quando dizem:

 

A gente não aterrissa, chega ao lugar.

 

A certa distância das frentes de desmatamento, arruamento e construção da estrada, na retaguarda, ficam as chamadas turmas de equipamento, com a função de suprir de material e assistência mecânica os tratores e viaturas utilizados no trabalho. Há atualmente um acampamento desses no Girau, com 136 homens. As oficinas trabalham duramente, para dar conta de todos os consertos, e no menor tempo possível. É necessário pressa para abastecer a frente, onde as máquinas não podem parar: se não forem aproveitados ao máximo os meses de estio (seca), quando o inverno (a chuva) chegar será quase impossível prosseguir, em virtude do lamaçal. Trabalha-se, por causa disso, 24 horas por dia durante quatro meses por ano.

 

Apesar da dureza do trabalho, os Soldados e Civis acampados no Girau estão muito contentes, porque não precisarão mudar logo dali. Informa o sargento:

 

De Porto Velho até aqui, o equipamento já fez oito mudanças.

 

Estranho contentamento porque, além do trabalho, esses homens enfrentam a cada instante a hostilidade do meio. No quilômetro 154, houve dias de baixas de cinco, seis homens, que caíram com malária e foram retirados para Porto Velho. Os mosquitos são uma praga. O calor, insuportável. E, além de tudo, o isolamento da civilização é total. O Cabo Barbosa ilustra isso bem quando pergunta, na sexta-feira, o resultado do Vasco e Flamengo do domingo anterior, no Maracanã. Diz o Cabo:

 

Rádio de pilha, aqui, é luxo. Cristo, se passou por aqui, foi voando.

 

No que toca à natureza, porém, nem tudo é negativo. Para que se tenha uma ideia da riqueza dessa região que os brasileiros estão explorando agora, basta dizer que um especialista paranaense classificou ali, num levantamento ligeiro, 165 qualidades aproveitáveis de madeira. A variedade do solo, principalmente da terra roxa, de grande fertilidade, é surpreendente, e oferece possibilidades de cultivo da quase totalidade dos cereais. Em alguns lugares, como Rondônia, as potencialidades econômicas são extraordinárias: borracha, castanha, madeira, couro, peles, poaia, óleos vegetais. Sem falar na cassiterita, uma mina fantástica: cada m3 de terra pode fornecer 45 kg do minério, que no alto do Rio Madeira-Mamoré aflora à superfície.

 

O trecho da estrada entre o Girau e Abunã, passando por Mutum e Marmelo, ainda não está pronto. Para chegar a Abunã; só de avião, ou pelo trem puxado pela Maria Fumaça, que não rende mais de 30 km/h. No povoado, fronteira com a Bolívia, que fica do outro lado do Madeira, há um pequeno Aeroporto de terra batida, entre o Rio e os trilhos da Madeira-Mamoré. Mais adiante, um cemitério de cruzes abandonadas e mato crescido.

 

Num hotel paupérrimo, o único de Abunã, o 5° Batalhão instalou uma companhia. O almoço servido dá uma ideia das dificuldades que enfrenta este posto avançado do Exército. A água, as verduras, os sucos, todos os líquidos recebem tratamento especial, na hora, sendo-lhes adicionadas gotas de Hidrosteril. Não existe água potável. Na mesa ainda podem ser encontrados comprimidos contra micose, medicamentos para o fígado, drágeas contra malária e vitaminas. Naquele dia, a temperatura estava baixa: 30°. Um Primeiro Tenente, o médico João Aberides Ferreira Filho, diz que os grandes males dali são a malária e a hepatite, doenças transmitidas por insetos.

 

No frio, o perigo diminui. O borrachudo e o pium se escondem, porque, para a desova, preferem o calor. O diabo é que aqui nunca deixa de fazer calor.

 

Ele é chamado para atender um acidentado, vítima do capotamento de uma camioneta. O mais impressionante no Batalhão é trabalhar ininterruptamente 24 horas por dia e ainda encontrar tempo para prestar assistência médica, sanitária e dentária aos moradores daqueles lugares que não passam de simples povoações. Ali, os militares são ao mesmo tempo operários, médicos, dentistas, professores. Depois da chegada da Companhia, o estado sanitário da população de Abunã melhorou sensivelmente, bem como o aspecto geral do povoado.

 

De Rio Branco, Capital do Acre, já é possível viajar de camioneta, para o Norte, por 20 km no leito de uma estrada de 60 m de largura, com 12 de pista de rolamento. Depois, pelo picadão aberto na mata, com apenas 60 cm de largura, penetra-se uns quatro km na selva, rumo a Sena Madureira. Do carro podem-se ver os pequenos e irrequietos macacos saguis que saltam na frente e dos lados durante todo o trajeto.

Um ex-seringueiro, Benedito Amaro de Alencar, de 56 anos, e sua mulher, aparentando 30, que iam a pé rumo à selva, ganham carona. Nordestino, baixo, magro, Benedito bendiz a estrada. Já não precisa pagar 50% do resultado do seu trabalho ao transportador de suas mercadorias até a cidade.

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O acampamento que assinala a proximidade das obras consta de três barracas de 3 por 5 m, cada uma com cinco redes. A turma é alimentada com arroz, feijão-cavalo, farinha-d’água e macaxeira (aipim) ensopada com carne-seca. São 20 homens levando uma vida inteiramente rude e cuidando do rancho para 20 que estão na frente do desmatamento e mais oito da topografia. No picadão faz um calor de 38 graus e os mosquitos incomodam terrivelmente. Os duzentos homens estão espalhados, no intrincado da selva, por uma área de 6 km2. Passam meses na mata e dormem em tapiris, sem qualquer proteção contra mosquitos, cobras e onças. Os tapiris são palhoças de 5 por 7 m, cobertas de palha de palmeira e sustentadas por estacas que terminam em forquilhas, onde são amarradas com cipó.

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Os homens são os primeiros a tocar na mata, e o seu trabalho é o de cortar as árvores, deixando-as numa altura de 60 a 70 cm. Atrás vêm os tratores, alargando o picadão para a estrada e completando, para os lados, a derrubada das árvores maiores. À medida em que se avança no estreito corredor, o barulho das máquinas vai sumindo e cedendo lugar aos verdadeiros ruídos da selva. Naquela área, o índice de malária tem sido pequeno, em comparação com lugares como Mutum, Girau, Abunã e, principalmente, Marmelo. Comenta um Cabo:

 

Em Marmelo, se você der uma banana e um Aralen (cloroquina) a um macaco, ele prefere o Aralen.

 

Nada abate o moral desses homens, nem a doença, nem os mosquitos, nem o calor de 40° C. Ao contrário, eles encontram, sempre, uma maneira de ironizar a rudeza do ambiente e fazer piadas sobre a própria sorte. Diz um:

 

O troço aqui é pra galo.

 

Outro corrige:

 

Não, é pra leão.

 

De terçado na mão, o Sargento Brandão sorri:

 

Eita! Vidão de bicho! (MANCHETE N° 905)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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