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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

MR-8, As Armas da Subversão


MR-8, As Armas da Subversão - Gente de Opinião

Bagé, RS, 20.02.2026

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 904, Rio de Janeiro, RJ


Sábado, 16.08.1969

 

MR-8, As Armas da Subversão


(Reportagem de Murilo Melo Filho)

 

 

Há dois meses, aquela moça vinha sendo seguida por agentes do Cenimar ([1]), que praticamente acamparam dia e noite em torno de sua residência num subúrbio carioca. Numa certa manhã de Sol claro e bonito, ela saltou do ônibus na Praça da Bandeira. Atravessou-a com passos nervosos. Entrou numa agência bancária mas sequer conseguiu chegar ao guichê: dois oficiais da Marinha prenderam-na no saguão do banco, entre os olhares surpresos e perplexos dos bancários, que nem tiveram tempo para saber de nada. Dentro da bolsa da moça, estava um cheque de NCr$ 600 mil – a chave que conduziria à decifração de um grande enigma escondido sob a sigla MR. E levaria à descoberta da rocambolesca história do que se chama “Movimento Revolucionário 8”. Agora, com as confissões e pistas já obtidas, o Governo acredita que já sabe onde está a subversão.

 

A outra ponta do novelo começou a ser desenrolada no Paraná quando Aloísio e Mauro sofreram um acidente no seu jipe que transportava armas com destino a dois sítios de treinamento de guerrilhas: o “Banhadão”, em Matalândia, e o “Boipicuá”, em Cascavel. Logo em seguida, denunciados por um motorista de táxi, foram presos Ivens, Marco Antônio, Sebastião e Rogério, que contaram tudo no interrogatório em Curitiba, facilitando bastante o desmantelamento da rede no Rio. A esta altura, a Marinha já havia assumido o comando das investigações e estava acompanhando os passos daquela moça no subúrbio. O cheque que ela não pôde descontar encaminhou o fio da meada até o elemento central de toda a trama: o bancário Jorge Vale, que no Banco do Brasil do Leblon, emitia cheques sem fundos contra outras agências e dando-lhes cobertura contábil quando eles eram devolvidos, conseguiu desviar NCr$ 8 milhões. Um desses cheques era exatamente aquele de NCr$ 600 mil. Outra parte do dinheiro (NCr$ 1 milhão e 200 mil) foi recuperada nos dólares e cruzeiros encontrados em vários apartamentos. A parte restante parece irrecuperável porque foi levada pessoalmente pela mulher de Jorge Vale para depositar em bancos suíços.

 

No grupo agora detido na ilha das Flores há um variado espectro de subversivos: uns realmente violentos e perigosos, outros românticos e idealistas, ao lado de aproveitadores e desonestos. A triagem já feita revela, porém, extensas vinculações com várias células internas e externas: Paraguai (Assunção), Bolívia (Cochabamba), Itália (Milão), França (Paris), Oriente Médio (Síria) e Norte da África (Argel). O diplomata Fathy Bonyaed, secretário da Embaixada da Argélia, no Rio, foi recentemente expulso do Brasil, por exigência das autoridades militares, em face de seus contatos com líderes do movimento estudantil.

 

Oito Importantes Conclusões a que o Inquérito do MR-8 já Chegou Estão Servindo de Ponto de Partida Para Novas Investigações

MR-8, As Armas da Subversão - Gente de Opinião

Eis algumas das conclusões retiradas deste e de outros interrogatórios:

 

1. Além dos assaltos externos, a que se expõem perigosamente, os integrantes da chamada “Frente de Expropriação” resolveram agir simultaneamente por dentro dos bancos, através de contadores e subgerentes, cujo ingresso na carreira bancária data do tempo do ex-Presidente João Goulart, e que possam desviar vultosas somas com simples artifícios de contabilidade.

 

2. Grande parte do dinheiro arrecadado nos assaltos e nos desfalques embora haja também muitos aproveitadores que estão se valendo do momento propício e agindo em nome da subversão, é destinada à compra de armas no exterior, sobretudo na França e na Itália, com trânsito por Argel e ingresso pela fronteira das Guianas e pelo Porto de Paranaguá.

 

3. Outra parte do dinheiro destina-se à aquisição de grande quantidade de cigarros, soro, sangue, medicamentos diversos e material cirúrgico, como se uma consequência lógica dos assaltos fossem os longos esconderijos, fugas, internações, curativos, intervenções e tratamentos. Esta preocupação parece ter aumentado depois do famoso “Caso Haas”, cujos comandados atacaram e isolaram ousadamente o Hospital de Itapecerica da Serra, obrigando o cirurgião a extrair quatro balas do corpo de um companheiro.

 

4. Os grupos preferem alugar apartamentos por dois ou três meses apenas nos diversos bairros e subúrbios das cidades, onde possam instalar postos de atendimento médico e pequenas emissoras clandestinas e de onde se mudam velozmente após 60 ou 90 dias para distrair e embaralhar a ação repressora.

 

5. Os presos que estão prestando depoimento, sobretudo os da ilha das Flores, constituem os alvos das próximas investidas dos grupos clandestinos, ou para serem soltos através de comandos temerários, ou para serem silenciados através de expedições punitivas.

 

6. Dos assaltos e dos incêndios, o desespero subversivo pode evoluir para o chamado atentado seletivo, através de francos atiradores, postados no alto de edifícios e munidos de metralhadoras silenciosas, que escolhem determinadas pessoas para seu alvo, sob as ordens e instruções de um artilheiro experimentado como é o Capitão Lamarca, ou “Saga”. Daí a especial proteção que tem sido dispensada, inclusive pelos fuzileiros navais, a Ministros e Líderes do atual Governo, sem que nem eles mesmos saibam ou queiram. Há uma lista de 14 nomes para serem eliminados. E apesar de o Coronel Emanuel Nicole, agora detido na ilha das Cobras, ter jurado que jamais articulou com o Coronel Jefferson Cardim qualquer atentado contra o ex-Presidente Castello Branco, as autoridades militares estão convencidas de que a articulação realmente existiu.

 

7. O inimigo está acuado e é perigoso quando isto acontece, porque ele pode sair para qualquer espécie de reação, a fim de provar, entre outras coisas, que não é covarde. As próprias autoridades militares sabem que no meio das centenas de cabos e sargentos proscritos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, há homens de coragem pessoal, cuja marginalização pode levá-los às investidas mais loucas e desesperadas. Neste ponto, a reabertura política, com nova Constituição e recomeço das atividades parlamentares, pode ajudar um pouco, no sentido de destampar o caldeirão e contribuir para o desafogo.

 

8. Os focos descobertos nos últimos dias não são tidos como perigosos, porque não conseguiram até agora sensibilizar os quartéis ou empolgar qualquer parcela do operariado urbano e das massas camponesas, que, pelo contrário, têm até colaborado com a Polícia e o Exército denunciando os conspiradores.

 

Nas primeiras semanas em que a guerrilha urbana foi desfechada, os dispositivos de informação do Governo mostraram-se atônitos e impotentes. Haviam sido colhidos inteiramente de surpresa por um tipo de guerra para o qual não estavam preparados. Passado o instante inicial de perplexidade, cuidaram eles de estruturar-se em bases mais sólidas. Algumas polícias estaduais, tanto civis como militares, chegaram mesmo a pedir às Forças Armadas que acorressem em seu auxílio para ajudá-las no combate a um inimigo terrível e perigoso, “porque invisível”.

 

O modelo a ser seguido foi o da Marinha, que já possuía o seu Cenimar, funcionando a contento há alguns anos. Organizaram-se então o Centro de Informações da Aeronáutica e o Centro de Informações do Exército, que substituiu a antiga Segunda Seção do Estado-Maior. Os três, embora vinculados aos gabinetes dos Ministros militares, reportam-se ao Serviço Nacional de Informações em Brasília e daí, diretamente, ao Presidente da República. Já é realmente satisfatória, de certo modo, a aparelhagem de que esses serviços hoje dispõem em matéria de informação e contrainformação, para gravação de conversas pessoais e telefônicas, comunicação urbana, detecção de rádios clandestinas, observação a longa distância, etc. Alguns dos seus homens fizeram cursos especiais no exterior e particularmente no Panamá, junto às tropas americanas estacionadas no canal.

 

Êxitos parciais têm sido obtidos por esses serviços de informações e pelo aparelhamento policial nesta luta contra a guerrilha urbana: a prisão dos membros do MR-8 (embora reconheçam que quatro outros importantes conseguiram fugir e que Reinaldo conseguiu burlar a vigilância para suicidar-se em Copacabana), a descoberta de uma célula na rua São Francisco Xavier (embora o casal tenha escapulido) e a localização de três apartamentos em Copacabana com dólares, cruzeiros, passaportes, rádios emissores portáteis, pistolas e metralhadoras (embora seus ocupantes tenham também fugido minutos antes da chegada dos policiais).

 

Outros sucessos poderiam ser assinalados já nos próximos dias. Mas sobretudo neste assunto nem sempre a pressa é a melhor conselheira. Ela deve ser sacrificada em nome da maior segurança e êxito em ações seguintes. Há detalhes e homens cuja preservação é da maior importância e que, se forem “descobertos” agora, poderão acarretar os maiores danos e riscos em futuros imediatos.

 

Uma convicção é evidente: o Governo e os responsáveis pelo seu dispositivo de segurança sabem que ainda está muito longe a vitória final contra a guerrilha urbana. Pois nenhum estrategista militar moderno conseguiu até hoje elaborar qualquer tipo de combate eficaz contra guerrilheiros, tanto os do campo como os das cidades. O calvário americano no Vietnã, com todo o poderio de sua máquina bélica e as perdas israelenses diante do Al Fatah são exemplos muito conclusivos.

 

No começo foram os bancos que continuam sendo assaltados. Depois os supermercados, os carros pagadores, os postos de gasolina. Em seguida, a espetacular fuga de presos. Mais recentemente, as televisões paulistas, que apesar de toda proteção e vigilância, arderam em brasa. Qual será o próximo alvo da subversão? Onde está a subversão? (MANCHETE N° 904)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);



[1] Cenimar: Centro de Informações da Marinha. (Hiram Reis)

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* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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