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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

As Horas Dramáticas de Costa e Silva


As Horas Dramáticas de Costa e Silva - Gente de Opinião

Bagé, RS, 27.02.2026

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 908, Rio de Janeiro, RJ

 

Sábado, 13.09.1969

 

As Horas Dramáticas de Costa e Silva

 

(Reportagem de Murilo Melo Filho)

 

 

Com a Enfermidade do Presidente Costa e Silva, os Três Ministros Militares Assumiram a Presidência da República

 

Logo no dia seguinte à edição do Ato Institucional n° 12, a junta de Governo que passará a trabalhar no Palácio das Laranjeiras deu uma nota de continuidade à administração do País. Despacharam todo o expediente e acertaram um sistema de ação que garantirá plena normalidade ao funcionamento da máquina executiva. Os membros da Junta de Governo iniciaram seus despachos segunda-feira, pouco depois das 15h, no salão de recepções do andar térreo do Palácio das Laranjeiras. Imediatamente acima, no primeiro andar, fica a sala normalmente utilizada para esse fim pelo Presidente da República. O Ministro do Exército, General Lyra Tavares, foi o primeiro a chegar, logo seguido por seus colegas da Aeronáutica e da Marinha. O lugar à cabeceira coube ao Almirante Rademaker, sentando-se à sua esquerda o Brigadeiro Sousa e Melo e à direita o General Lyra Tavares. Os fotógrafos tiveram permissão para documentar brevemente cada um dos despachos, que consumiram, ao todo, mais de duas horas.

 

Obrigado Pelos Médicos a Guardar Repouso Absoluto, o Próprio Presidente Tomou a Iniciativa de Convocar ao Palácio Seus Ministros e Assessores

 

O ambiente no Aeroporto Santos Dumont era festivo e alegre. A FAB havia preparado uma manifestação de especial regozijo pela criação da Empresa Brasileira de Aeronáutica. Dentro de poucos minutos, o Presidente da República ali desembarcaria para iniciar uma permanência de dez dias no Rio, onde o aguardavam o longo programa de comemorações da Semana da Pátria, o Grande Prêmio Brasil, a Noite de Longchamps, a visita de um grupo de artistas amigos da Rádio Nacional, despachos normais com seus Ministros e a inauguração do sistema de micro-ondas da Embratel para Brasília e Belo Horizonte. Entre um e outro compromisso da exaustiva agenda, ele se reuniria com o Conselho de Segurança Nacional, numa cerimônia pública que seria o mais solene possível, para outorgar ao País a nova Constituição e reabrir o Congresso.

 

Exatamente às 11h25 daquela sexta-feira chuvosa, o Marechal Costa e Silva desceu as escadas do One Eleven. Não precisou de maior ajuda para chegar até o chão. Mas nenhum dos presentes precisou também de maiores explicações para notar que o Presidente estava doente. Um fotógrafo aproximou-se dele, mas não fez a foto porque um Coronel lhe pediu:

 

Não vê que o Presidente está febril e doente?

 

Visivelmente pálido e abatido, com o andar claudicante, ele fez ligeiros acenos para os amigos e Ministros presentes, evitando os cumprimentos pessoais e os apertos de mão com que sempre os distinguia em todas as suas chegadas, para dirigir-se a seu carro e recolher-se ao Laranjeiras.

 

Há dois dias, ainda em Brasília e muito gripado, ele começara a sentir os primeiros sintomas de perturbações circulatórias: tonteiras, turvação da vista, dores de cabeça e nas costas. Mas, mesmo assim, decidiu vir para o Rio. E no Rio ia iniciar um dos mais movimentados fins de semana de que se tem notícia na sua história. A cidade preparava-se para o Sweepstake e para o jogo Brasil x Paraguai, que bateriam todos os recordes de assistência e de arrecadação. As bandeiras começavam a engalanar as ruas e praças para a Semana da Independência, que o próprio Presidente também queria festiva e solene. Mas, em meio à euforia, chegou a primeira notícia ruim: o jatinho do IBRA afundara na baía de Guanabara, matando cinco dos seus passageiros, um dos quais seria Ministro de Estado. Confirmou-se depois que os quatro passageiros haviam realmente morrido, mas nenhum era Ministro.

 

Logo em seguida, à tarde de sábado, a cidade começou a ser traumatizada pelas notícias de que o Presidente sofrera um derrame ou um enfarte. As luzes do Palácio das Laranjeiras permaneceram acesas durante toda a noite de sábado e até a madrugada de domingo. Os casais de namorados, que habitualmente povoam a quietude do Parque Guinle, tiveram suas atenções despertadas para o inusitado movimento de carros que chegavam e saiam do Palácio. O Dr. Hélcio Simões Gomes, médico particular do Presidente, foi o primeiro a ser por ele chamado já na noite de sexta-feira, com o agravamento dos sintomas que determinaram inclusive o cancelamento da audiência daquela tarde com o Ministro Gama e Silva, também gripado. Após os primeiros exames, o médico achou melhor chamar ao Laranjeiras os seus colegas Mário Miranda, clínico, Abrahão Akerman, neurologista, e Paulo Niemeyer, cirurgião. A junta médica concluiu, após exames especializados, que apesar de serem satisfatórias as condições gerais do doente, ele havia sofrido uma crise circulatória com manifestação neurológica, que lhe impunha repouso absoluto.

As Horas Dramáticas de Costa e Silva - Gente de Opinião

Estava assim decretada pelos médicos a vacância temporária do cargo e o próprio Presidente da República tomou a iniciativa de convocar ao Palácio os seus Ministros e Assessores diretos. Durante todo o domingo, foi intensa a movimentação no Laranjeiras, aonde acorreram todos os Ministros presentes no Rio. O avião presidencial foi mandado a Brasília para de lá trazer, além do Vice-Presidente Pedro Aleixo, os Ministros Carlos Simas, Jarbas Passarinho e Tarso Dutra. O Vice-presidente permaneceria algumas horas no Rio, mas regressaria a Brasília, não participando assim da reunião ministerial convocada para a noite. Enquanto isto, o Presidente descansava em seus aposentos, aos quais tinham acesso apenas D. Iolanda, o Coronel Álcio ([1]) e os amigos mais íntimos. Seu estado de saúde reagia satisfatoriamente aos primeiros medicamentos, alimentando-se bem e fazendo aumentar as esperanças de sua recuperação.

 

Não se confirmaram os rumores de sua remoção para a Casa de Saúde Dr. Eiras ou para o Hospital dos Servidores. No próprio Palácio, foram instalados todos os equipamentos de exame, tratamento e assistência. Tampouco eram procedentes os boatos alarmistas de seu agravamento ou de sua operação; que circularam no domingo quando, ao contrário disto, o Presidente assistia pela televisão ao Grande Prêmio Brasil e ao jogo entre brasileiros e paraguaios. Segundo o jornalista Carlos Chagas, secretário de Imprensa, o próprio Marechal Costa e Silva fazia a mudança dos canais de tevê, escolhendo aquele que estivesse com a melhor imagem.

 

Do lado de fora do Laranjeiras, numerosos jornalistas e fotógrafos estiveram de plantão durante longas horas, filtrando as poucas notícias que transpiravam do Palácio. Soube-se então que a reunião convocada pelo Marechal Costa e Silva seria realizada às 20h do domingo no Ministério do Exército, sob a presidência do Almirante Augusto Rademaker, na qualidade de titular do Ministério mais antigo. Já então, estava resolvido que os três Ministros Militares assumiriam o posto em substituição ao Marechal Costa e Silva, durante o tempo que durasse seu impedimento: os médicos calculavam-no entre 30 e 60 dias, ao longo dos quais seu estado de saúde poderia agravar-se, melhorar ou estacionar.

 

Antes da reunião, os três Ministros Militares receberam o Vice-Presidente Pedro Aleixo, cujo avião descera no Galeão e ali fora recepcionado pelo Almirante Adalberto de Barros Nunes, Chefe do Estado-Maior da Armada. Coube ao Almirante Augusto Rademaker informar que a situação do País, com o recesso do Congresso e todas as consequências decorrentes do Ato Institucional n° 5, não possibilitava uma transferência normal, conforme previa a Constituição, das responsabilidades da autoridade suprema e do Comando Supremo das Forças Armadas. O Vice-Presidente Pedro Aleixo respondeu que não lhe cabia criar qualquer problema num instante grave como aquele. Reconhecia as altas razões e motivos que haviam levado os Chefes Militares àquela conclusão e resolveu voltar a Brasília.

 

A reunião ministerial durou apenas quarenta minutos, durante os quais foram aprovados o Ato Institucional n° 12 e uma proclamação à Nação. Na proclamação, o Almirante Augusto Rademaker, o General Lyra Tavares e o Brigadeiro Márcio de Souza e Melo comunicaram ao País que o Marechal Costa e Silva, por motivo de enfermidade, se encontrava temporariamente impedido do exercício pleno de suas funções. A conselho médico, teria ele de guardar repouso e ficar liberado, durante certo prazo, dos encargos do Governo, a fim de mais rapidamente recuperar a saúde. Na qualidade de responsáveis pela execução das medidas destinadas a assegurar a paz e a ordem pública e de tornar as providências relacionadas com a segurança nacional, comunicaram também que a situação do País não se coadunava com a transferência a outros titulares previstos na Constituição das responsabilidades da autoridade presidencial. Em face disto tudo, resolveram eles três assumir as funções do Marechal Costa e Silva, com um exercício que ficará limitado ao seu período de repouso e tratamento.

 

Os objetivos da revolução de 31 de março de 1964 serão inteiramente cumpridos, conforme os compromissos assumidos perante a Nação, na forma dos Atos Institucionais e da Constituição de 24 de janeiro de 1967. A paz e a segurança internas, o exercício dos poderes constituídos, no plano federal, estadual e municipal, a garantia dos direitos individuais e os compromissos de ordem internacional ficarão mantidos na forma da legislação em vigor. Pode a Nação confiar no patriotismo de seus Chefes Militares.

 

Apelam os ministros militares para a compreensão e cooperação do povo brasileiro, para o desempenho do relevante encargo que assumem, em nome do Presidente da República. Durante esse período, o Governo adotará todas as medidas que se fizerem necessárias para a normalidade da vida do País, nos planos interno e internacional, abstendo-se de adotar outras que não sejam as indispensáveis à continuidade administrativa e das atividades públicas e privadas em todo o País. No Ato Institucional n° 12, que tem apenas seis artigos, os três Ministros, legislando em nome do Presidente da República, decretaram entre outras coisas que:

 

1.  Baixarão todos os atos necessários à continuidade administrativa, à. preservação dos direitos individuais e ao cumprimento dos compromissos de ordem internacional.

 

2.  Continuam em exercício os poderes e órgãos da administração Federal, Estadual e Municipal que não foram atingidos pelos atos institucionais e complementares.

 

3.  Cessado o impedimento, o Presidente Costa e Silva reassumirá as funções em toda a sua plenitude.

 

4.  Ficam excluídos de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este AI e seus atos complementares, bem como os respectivos efeitos.

 

5.  Saindo da reunião, o Ministro Rondon Pacheco levou os dois textos para o Palácio das Laranjeiras, de onde o locutor Alberto Cúri, numa cadeia de rádio e televisão, apenas som, comandada pela Agência Nacional, transmitiu a sua íntegra para todo o País.

 

6.  Todos os Ministros ouviram a irradiação no 9° andar do Ministério do Exército, onde continuaram reunidos, já sob a presidência da junta. Estavam presentes também no Palácio da Guerra quase todos os Generais, Almirantes e Brigadeiros sediados na Guanabara.

 

O dia seguinte, que era o primeiro da semana e o primeiro de setembro, foi de calma absoluta em todo o País, Os bancos e as bolsas de valores não funcionaram porque o Sr. Ernane Galvêas, numa providência acautelatória, havia desde a véspera, em nome do Conselho Monetário, determinado que as instituições financeiras não funcionassem. A posse da junta de governo é provisória e seu mandato, interino. Dentro de prazo relativamente curto, seus membros devolverão o cargo ao Presidente Costa e Silva. Duas consequências lógicas e inevitáveis dos acontecimentos deste fim de semana são o adiamento da outorga da nova Constituição e a transferência para época mais conveniente da reabertura do Congresso. (MANCHETE N° 908)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);



[1]    Álcio Barbosa Costa e Silva: filho único do Presidente Costa e Silva e Dona Yolanda, que seguiu a carreira do pai no Exército. (Hiram Reis)

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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