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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Um Futuro na Base da Verdade


Um Futuro na Base da Verdade - Gente de Opinião

Bagé, RS, 13.02.2026

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

Manchete n° 897, Rio de Janeiro, RJ

Sábado, 28.06.1969

 

Um Futuro na Base da Verdade

(Reportagem de João L. de Albuquerque

e Antônio Praxedes)

 

 

Cumprindo seu programa de visita ao Brasil, Rockefeller ouviu os homens de Governo, da indústria e da inteligência brasileiras para planejar “um futuro na Base da Verdade”. O primeiro encontro do Governador Nelson Rockefeller com o Presidente Costa e Silva, no Palácio da Alvorada, foi marcado por um desejo mútuo de firmar em bases verdadeiras as relações futuras entre o Brasil e os Estados Unidos. O mínimo que se disse dessas negociações é que foram extremamente proveitosas. Tratava-se, porém, apenas do início de uma série de encontros em vários níveis e em três metrópoles brasileiras – Brasília, Rio e São Paulo.

 

Para os que ainda tinham dúvidas quanto aos objetivos da Missão Rockefeller, uma conversa franca cujos resultados serão sentidos com profundidade, mas não de imediato, as palavras ditas em português pelo Governador de Nova Iorque, logo ao desembarcar, valeram por um esclarecimento definitivo. Disse ele:

 

Não trago nenhum programa novo, respostas simples ou “slogans” fáceis. Desta missão podem resultar novas políticas dos Estados Unidos, mas não as trazemos agora. O que trago são mais de trinta anos de profundo interesse e afeto pelo povo brasileiro.

 

O enviado do Presidente Richard Nixon desembarcou em Brasília às 17h35 de segunda-feira, de um Boeing da Pan American. Sorridente, acenou da escada para os que o aplaudiam na Base Aérea. Caminhou, em seguida, por entre as alas de Soldados da Polícia da Aeronáutica até o ponto em que o esperavam as autoridades brasileiras. Abraçou fortemente o Chanceler Magalhães Pinto, exaltando a velha amizade que os une:

 

É um prazer especial para mim ser recebido em Brasília pelo distinto Ministro das Relações Exteriores, com o qual assinei o primeiro acordo de assistência rural, há vinte anos, quando ele era Secretário da Fazenda de Minas Gerais.

 

No palanque armado na Própria Base Aérea, foram pronunciados os primeiros discursos. Lá estavam funcionários diplomáticos brasileiros e americanos, autoridades militares e o Prefeito de Brasília, Wadjô Gomide. Rockefeller leu em português uma saudação em que exaltou a capital brasileira, afirmando que ela lhe dava a impressão de ter um pé no futuro.

 

Estamos construindo na Cidade de Albany uma nova sede para o Governo do Estado de Nova Iorque. Talvez não nesta escala. Mas, de todos os elogios que tenho recebido sobre o projeto, o que mais me agradou foi vê-lo chamado a Brasília do Norte.

 

Sobre o Brasil, qualificou-o como um País:

 

Que produz praticamente tudo de que precisa, constrói suas próprias fábricas e nelas usa a tecnologia mais avançada.

 

Apontou, finalmente, o desafio real que se apresenta, em sua opinião, aos povos o continente americano:

 

Encarar realisticamente o fato de nossa interdependência e desenvolver uma maior compreensão mútua tão essencial para conversação e colaboração proveitosas.

 

O caminho para isso, que ele reconhece não ser fácil, inclui o respeito à dignidade nacional e individual, a realização da justiça humana com base no progresso econômico e social. Da concretização dessas metas deverão resultar maior liberdade e bem-estar. Durante o discurso de Rockefeller, pousou no Aeroporto de Brasília o avião da Força Aérea em que viajavam os jornalistas da comitiva. Estes chegaram a tempo de ver um grupo de criancinhas de várias nacionalidades que frequentam a Escola Americana entoarem, em honra ao visitante, os Hinos Nacionais do Brasil e dos Estados Unidos. Os fotógrafos concentraram-se em documentar o pôr do Sol de Brasília. Logo depois, todos seguiram para o Palácio da Alvorada, através da Avenida das Nações, que praticamente margeia a Capital, passando distante dos blocos de edifícios.

 

A visita do Governador de Nova Iorque serviu como teste para um perfeito esquema de segurança, que mobilizou 1.400 homens. O primeiro encontro de Rockefeller com o Marechal Costa e Silva foi pouco mais do que um contato informal, que trouxe ao Presidente brasileiro uma surpresa: a facilidade com que o emissário americano se faz entender em português. Apesar do pouco tempo disponível, os dois conversaram reservadamente na biblioteca. Os assuntos mais árduos foram por certo deixados para o segundo encontro de duas horas, terça-feira pela manhã, ainda no Alvorada.

 

O descanso de Rockefeller no Hotel Nacional foi breve. Ainda assim, ele chegou com 55 minutos atrasado ao banquete no Palácio Itamarati, que reuniu 72 personalidades. Entre outros, lá estavam os Presidentes do Congresso e do Senado Federal, o Presidente do Supremo Tribunal, os Ministros de Estado, os Chefes das Casas Civil e Militar, o Prefeito Wadjô Gomide e o encarregado de Negócios dos Estados Unidos no Brasil, Sr. William Belton.

 

Ao iniciar a sequência de discursos, o Chanceler Magalhães Pinto falou sobre os primeiros resultados dos entendimentos bilaterais em curso:

 

Depois de sua conversa com o Presidente da República, tenho a convicção de que sua missão está praticamente cumprida.

 

E acrescentou:

 

Estamos todos satisfeitos com sua companhia, a de um apreciador das belas-artes e da cultura, que demonstra grande interesse em que Brasil e Estados Unidos estejam cada vez mais ligados.

 

Desta vez, Rockefeller preferiu falar em inglês. Reprisando um dos tópicos de sua fala no aeroporto, destacou o alto nível de sua comitiva, composta “por um grupo de americanos que aprecia o Brasil”. Recordou sua primeira visita ao Brasil, em setembro de 1942:

 

Vi ainda hoje uma fotografia publicada pela revista MANCHETE onde apareço com os Generais Dutra e Góis Monteiro.

 

Considerou uma honra ter sido escolhido para a missão pela América Latina e, em tom quase íntimo, referiu-se aos artistas brasileiros (à tarde, no Palácio da Alvorada, pudera ver alguns quadros que lhe foram mostrados pelo Presidente Costa e Silva):

 

O senso de beleza e de cultura é característica desse povo. Fiquei encantado ao ver as esculturas de minha amiga Maria Martins, o jardim de Burle Marx – que fez para mim um jardim bem menor do que este.

 

Retribuindo ao brinde que o Chanceler Magalhães Pinto erguera ao Presidente Nixon, brindou à “amizade Brasil-Estados Unidos e ao Presidente Costa e Silva”. Pouco depois das 23h00, o Governador Rockefeller deixava o Itamarati de regresso ao Hotel Nacional. Sua viagem já merecera então um qualificativo do Marechal Costa e Silva:

 

Uma conversa entre dois amigos.

 

Mas a visita prosseguiria nos dias seguintes, em novos contatos e nos diversos níveis da assessoria, até à tarde de quinta-feira. Além de Brasília, Rio e São Paulo figuravam no roteiro de uma programação intensa, prevista para dar ao visitante as maiores oportunidades de cumprir seus objetivos confessados – ouvir os anseios e sentir a realidade brasileira. (MANCHETE N° 897)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

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