Domingo, 15 de fevereiro de 2026 - 08h20

Bagé, RS, 06.02.2026
Vamos continuar reproduzindo as
reportagens da Revista Manchete:
Manchete n° 890, Rio de Janeiro, RJ
Sábado, 10.05.1969
A Armadilha que Liquidou Guevara
(Reportagem
de Andrew Saint-Georges)
O Jornalista Andrew Saint-Georges
reconstituiu para a revista americana “True”
a longa perseguição desenvolvida durante três anos pela CIA na caçada ao famoso
guerrilheiro.
No dia 23 de março de 1967, às 7h, 29
soldados do Exército boliviano, sob o comando de três oficiais, patrulhavam as
margens do rio Nancahuazu. Bruscamente, um crepitar de armas ligeiras ressoou
entre os paredões graníticos de um desfiladeiro. Um civil da região, Vargas,
que servia de guia ao destacamento, estendeu o braço na direção das detonações
e se voltou para o Tenente Ruben Amezaga, de 21 anos, diplomado pela Academia
Militar. Mas os dois homens tombaram imediatamente sob uma descarga, sem terem
tempo de trocar uma palavra. O destacamento foi dizimado pelo agressor, sem
sequer responder ao fogo. Aterrorizados, oito dos sobreviventes fugiram através
da floresta. Saíram, finalmente, num estreito caminho de terra batida; lá, um
caminhão os recolheu e os levou para Camiri, onde estava sediado o Quartel
General da 4ª Divisão de Infantaria do Exército
boliviano.
A CIA Acha que Guevara Demonstrou
Falta de Vigilância na Bolívia Porque Pensava Mais na Posteridade

Imediatamente, o QG transmitiu uma mensagem em código pelo rádio. A notícia da emboscada alertou o Forte Miraflores, onde se acha o grande Quartel General das Forças de terra da Bolívia. É daí que são comandadas todas as operações. Um oficial levou apressadamente a mensagem, já traduzida, ao General de Brigada Juan José Tôrres, Chefe do Estado-Maior. Este precipitou-se na direção do Comandante-Chefe, General Alfredo Ovando. O despacho foi logo retransmitido para La Paz. Mal o Coronel Arana, Chefe do Serviço Secreto, leu as primeiras linhas, deixou o seu gabinete e se dirigiu à sede da MAAG (United States Military Assistance Advisory Groups) situada nas proximidades. No mesmo instante, o General Ovando telefonava ao Presidente René Barrientos. Alguns minutos mais tarde, o Palácio Presidencial lançava um apelo ao embaixador dos Estados Unidos, Douglas Henderson. De cabelos grisalhos, aprumado no terno de casimira escocesa, o embaixador estava a caminho da Embaixada, na sua imponente limusine, atulhada de aparelhos de comunicações. Foi pelo telefone do automóvel que ele falou com o Presidente Barrientos.
Em Washington, William Bewdler, Conselheiro do Presidente Johnson para assuntos da América Latina, tirou do gancho o seu telefone. Ouviu o que lhe diziam e foi ao encontro de Walt Whitman Rostow, o homem encarregado de resolver problemas urgentes no exterior. O episódio do Rio Nancahuazu não era um incidente banal numa selva remota e esquecida, mas um golpe teatral, que anunciava a volta à cena de um dos mais estranhos heróis revolucionários do mundo: Ernesto Guevara, o misterioso “Che”. E assim se desencadearam, tensos, misteriosos, os últimos episódios da implacável caçada ao homem, desenvolvida pela CIA, durante anos. Caçada que haveria de abatê-lo.
Para saber como a armadinha foi preparada, foram necessários meses de pesquisas na América do Sul. Os membros dos Serviços de Informações e das Forças Especiais que se empenharam na ação mantêm-se mudos. A maior parte desses elementos ou está ligada pelo segredo comum, ou prefere que a história caia definitivamente no esquecimento. Apesar disso, o quebra-cabeças foi constituído, peça a peça. Che Guevara tornou-se o braço direito de Fidel Castro após o triunfo da insurreição cubana, em 1958. Na primavera de 1965, dirigiu a seu companheiro de armas uma carta na qual renunciava às suas funções no Governo Cubano. Logo depois, desapareceu. Washington seguia de perto o destino de “Che”, desde que, em 1961, o Presidente John F. Kennedy e seu irmão, Bob Kennedy, Ministro da Justiça, decidiram que a guerra secreta seria a base da estratégia norte-americana. “Che” organizava escolas de guerrilheiros, utilizando recrutas vindos de todos os Países do continente. Para os voluntários que não podiam ir a Cuba, ele escreveu longos estudos táticos, um dos quais se tornou um “best seller” internacional. Cada embaixador americano que ia assumir o seu posto no estrangeiro fazia, antes, um curso de iniciação à guerrilha e à antiguerrilha, inspirado no manual de “Che”.
Desde fins de 1962, os discípulos de Che Guevara enfrentavam os boinas-verdes dos Estados Unidos numa dúzia de Países. Milhares de combatentes anônimos tombaram dos dois lados. O próprio Che, em veemente discurso proferido na Assembleia Geral das Nações Unidas, em dezembro de 1964, fez uma referência aos mortos ianques de que o público norte-americano jamais ouvira falar. Washington continuou a manter silêncio. Uma guerrilha sem interrupção prosseguia, há três anos, no Congo, na República Dominicana, na Tanzânia, no Peru, na Venezuela, na Guatemala. Mas “Che” queria uma confrontação aberta. E pensou ter encontrado terreno favorável na Bolívia.
Foi então que os Estados Unidos resolveram aceitar o desafio. Antes de passar à ação, a CIA começou por estudar a personalidade de Che. Primeira tarefa: a elaboração de um “dossier” PPS (Psychiatric Personality Study), ou estudo psiquiátrico da personalidade, algumas vezes também conhecido como BP (Behavior Profile), ou perfil do comportamento. A CIA reserva seus “dossiers” PPS às personagens de primeiro plano. Hitler e Stálin só não os tiveram porque morreram antes de certos serviços norte-americanos, em particular o Army’s Experimental 515th M.I. Detachment, terem aperfeiçoado os seus métodos. Mas, desde 1950, esses organismos procuram predizer o que farão determinados homens de estado em certas circunstâncias.
Os psiquiatras que trabalham para a Central Intelligence Agency (CIA) se debruçaram sobre a adolescência e a juventude de Che, a fim de determinar o seu comportamento. Ele tinha sido criado com pouco trato, vestindo camisas sujas, de unhas crescidas e negras, alimentando-se de forma ruidosa. Seus colegas lhe tinham dado a alcunha de “Chancho” (porco). E Guevara aceitara tal apelido com alegria, em vez de indignar-se. Che era também asmático. Para os especialistas dessa moléstia, as crianças por ela atingidas têm tendência para manter relações difíceis com os pais. E, na idade adulta, tornam a sociedade responsável por suas dificuldades. Os analistas da CIA, evidentemente, não podem predizer o que poderá fazer tal espécie de homem, mas podem determinar a maneira pela qual ele agirá.
Em fins de 1964, Che forneceu inconscientemente aos Serviços de Informações dos Estados Unidos muitos dados sobre o “modus operandi” de sua estratégia pessoal. A CIA soube de onde tirar as coisas essenciais para os seus arquivos: descobriu que o seu manual preferido sobre guerrilhas era a obra soviética sobre a guerra especial, intitulada “O Comitê Regional Clandestino em Ação”, mencionada pelo próprio Che. Em 1965, o “dossier” de “Che” já estava bem documentado. Os analistas do Departamento de Estado conheciam bem a grande operação de guerrilha que ele havia montado, em 1963-64, nas províncias setentrionais argentinas:
A operação era dirigida por membros civis e militares do Estado Maior pessoal de Che em Havana: Jorge Ricardo Masetti, seu adido de imprensa e o Capitão Hermes Pena. Três de seus melhores amigos foram mortos: Masetti, Pena e um comandante que, mais tarde, foi reconhecido como Raúl Dávila. Dez outros guevaristas, quase todos jovens argentinos, igualmente tombaram. Na ocasião em que “Che” desapareceu de Havana, a análise indicou o que provavelmente iria suceder: uma operação conduzida diretamente por “Che”, furioso, atormentado por um forte complexo de culpa e desejoso de vingar-se.
Che tardou a confirmar as predições dos analistas. Dezesseis meses se escoaram sem nenhum acontecimento decisivo. Mas a sua presença era frequentemente assinalada na Guatemala, no Vietnã, na Argentina e no Congo. Os especialistas de Washington, ligados à sua pessoa, desenvolveram surpreendente atividade. Eles se encarregaram de trocar “fumaça”, gíria que designa a falsa informação, a poeira nos olhos do adversário, com Havana.
A certa altura, Cuba anunciou que “Che” tinha desaparecido, ou que estava morto. Washington replicou, dando crédito oficiosamente a esses rumores, junto aos jornalistas e às agências governamentais. Mas os Estados Unidos já sabiam a verdade. A Marinha norte-americana e a National Security Agency mantêm ao largo de Havana um navio aparelhado com poderosa estação de rádio escuta. As comunicações de Cuba com o exterior são anotadas, palavra por palavra. Em maio de 1965, essa estação captou uma série de comunicações telefônicas internacionais. As vozes dos interlocutores estavam carregadas de emoção. A mãe de “Che” acabara de morrer subitamente em Buenos Aires. E os Estados Unidos ficaram sabendo que seu filho estava escondido num campo isolado, na costa Leste de Cuba. Mas nada mais foi ouvido, durante meses.
“Che” lançou os dados no dia 7 de novembro de 1966. Seguido de 17 antigos chefes do exército revolucionário cubano, dos quais 11 eram generais, instalou-se num campo de base, situado nos confins da selva, no Sudeste da Bolívia. Ele empregou as 19 semanas seguintes em recrutar na região um pequeno quadro de guerrilheiros bolivianos. A 11 de março, três recrutas desertaram e correram à Guarnição Militar Boliviana mais próxima. La Paz e Washington foram imediatamente informados. A comunicação estava ainda em exame quando, no dia 23 de março, ocorreu o ataque relâmpago contra a patrulha do Tenente Amezaga, confirmando as declarações dos desertores e desencadeando a contraofensiva.
Reuniões secretas foram realizadas incessantemente entre altas personalidades governamentais, durante a última semana de março e a primeira metade de abril. Certas reuniões ocorreram na sala de conferências do Chefe do Estado-maior do Exército americano, General Harold K. Johnson, outras no escritório de Walt Rostow, ou ainda na sala do Ex-Comm (Executive Committee of the National Security Council). Essas mudanças constantes de local tinham por fim manter a imprensa na ignorância de tudo. Um único correspondente estrangeiro, Murray Sayle, do Times, de Londres, estava na Bolívia no dia do ataque. Ouvindo rumores sobre as conversas radiotelefônicas entre a Casa Branca e a Embaixada dos Estados Unidos em La Paz, a partir de 23 de março Sayle decidiu fazer investigações “in loco”, acompanhando uma patrulha boliviana ao longo do Rio Nancahuazu. Tudo estava calmo. Havia, contudo, boatos persistentes sobre a presença de guerrilheiros na região. Quando Sayle regressou a La Paz, a 10 de abril, viu-se submergido por uma série de declarações tranquilizadoras. Disse-lhe um diplomata norte-americano:
Toda essa agitação realmente significa apenas uma coisa: que os bolivianos querem obter maior ajuda da nossa parte.
Mas a tática da camuflagem atingiu mesmo o pináculo da arte quando Jeremiah O’Leary, um dos melhores enviados especiais do “Evening Star”, de Washington, procurou obter notícias. Jeremiah foi recebido com grande pompa durante a sua peregrinação pela América do Sul. Da capital peruana, ele escreveu:
Os funcionários norte-americanos são quase unânimes na sua convicção de que “Che” Guevara está morto. Eles estão certos de que ele foi executado em Cuba, em consequência de suas divergências com Fidel Castro.
O’Leary disse, porém, que:
Existe um homem com o nome de Guevara entre os chefes de guerrilhas bolivianas, mas se trata de um bandido das selvas, de um simples caso de homonímia. Aliás, Guevara é um nome muito comum na Bolívia, quase tão comum quanto Smith na Inglaterra.
É verdade que os funcionários revelaram a identidade de um certo Moisés Guevara, organizador de um sindicato de mineiros comunistas. Mas não fizeram a menor referência aos documentos descobertos numa gruta da selva, os quais provavam que a guerrilha fora confiada a militares cubanos de postos elevados. Um alto funcionário dos serviços de informação declarou recentemente:
A estratégia de “Che” Guevara previa a criação de uma praça forte, de um inexpugnável reduto guerrilheiro, que iniciaria a luta nas selvas e, depois, internacionalizaria o conflito.
O Governo Argentino presidido pelo General Juan Carlos Onganía resolveu preparar uma intervenção militar direta, no momento em que descobriu a presença de guerrilheiros na fronteira Setentrional de seu País, particularmente vulnerável. Os Generais Argentinos pensavam que uma grande campanha antiguerrilha, de proporções internacionais, faria da Argentina a primeira potência militar da América do Sul. O ministro das Relações Exteriores, Nicanor Costa Mendez, declarou sem rodeios ao Departamento de Estado:
A Argentina decidiu empregar a Força. Tal advertência foi acompanhada de vastos movimentos de tropas, através de todo o Norte da Argentina.
Declarou recentemente um analista dos serviços de informações em Washington:
Nós estávamos certos de que, se os argentinos conhecessem o que sabíamos não teriam hesitado em atacar.
Nos bastidores, o Presidente René Barrientos tentou lançar a sua própria campanha de intervenção, através do embaixador da Bolívia em Washington, Julio Sanjines-Goytia, militar diplomado pela Academia de West Point e bom conhecedor dos arcanos do Pentágono. Rico e insinuante, Sanjines-Goytia mantém excelentes relações no mundo político, sobretudo com senadores e governadores do Sul dos Estados Unidos. Disse o embaixador:
Como o Governo de Barrientos era, provavelmente, o objetivo inicial de Guevara, a reação mais lógica era a de sustentá-lo. O Exército Boliviano poderá liquidar “Che”, se lhe forem dados os meios.
O primeiro pedido do Presidente Barrientos se elevou a seis milhões de dólares: dois terços em suprimentos militares e um terço em divisas, juntamente com um programa destinado a assegurar, em seguida, a estabilidade do orçamento nacional da Bolívia, cujo déficit era de 150 milhões de dólares em 1967.
Dean Rusk mostrou-se interessado. O plano Barrientos economizava uma intervenção militar e impedia a internacionalização da crise. Não era demasiado dispendioso. Rusk apressou-se a submetê-lo à discussão na próxima conferência secreta que viesse a ser realizada para tratar do caso Guevara. A 9 de abril, na sala de conferências do Estado-Maior Geral das Forças Armadas, no Pentágono, realizou-se tal reunião. Tivera caráter urgente e estavam presentes os detentores das funções mais elevadas: General Johnson, Chefe do Estado Maior do Exército; General Robert W. Porter, de 4 estrelas, Chefe do Southern Command, Quartel General da Defesa dos Estados Unidos na América Latina, sediado na Zona do Canal do Panamá; e os Generais de Brigada James D. Alger e William K. Skaer, Chefe dos serviços de informações do Southern Command. Diante dos militares, alinhavam-se o Secretário de Estado Dean Rusk, o adjunto de Secretário de Estado para a América Latina, Covey T. Oliver, o conselheiro da Casa Branca Walt W. Rostow, para assuntos de segurança da mesma área. E, ainda, Richard Helms, diretor da CIA, ladeado por diretores adjuntos e juristas. Rusk apresentou, concisamente, a proposta boliviana. Mal terminara. Richard Helms pediu a palavra:
É impossível confiar somas tão importantes aos bolivianos. E eu vou lhes dar as provas...
Comentou, então, um volumoso “dossier”, ilustrando suas explicações por meio de mapas e de gráficos colocados sobre um cavalete. Disse que os bolivianos têm a escrituração de suas despesas públicas em lamentável estado. Os recursos fornecidos pelos Estados Unidos para reajustar os vencimentos dos funcionários, especialmente os da importante Polícia Nacional, teriam sido desviados, pois os salários dos mesmos estavam com atraso de alguns meses. Uma dotação especial para a aquisição de veículos capazes de vencer quaisquer dificuldades de terreno tinha sido gasta com a compra de viaturas que se atolavam e não conseguiam chegar à distância de um tiro do setor operacional de Che Guevara. Um breve silêncio serviu de oração fúnebre à proposta do Presidente Barrientos. O General Johnson apresentou então os planos do Exército, comportando, de início, a criação de uma Força de Intervenção, chamada Regional Assistance Command, formada de unidades contrarrevolucionárias capazes de isolar e de eliminar os quadros da guerrilha em seu próprio reduto. Disse o General Johnson:
Uma das mais importantes lições que aprendemos no Vietnã é esta: os ataques de surpresa das guerrilhas devem ser repelidos imediatamente, sem um instante de demora. Um Regional Assistance Command está atualmente em vias de organização.
Dean Rusk o interrompeu, alegando que o Departamento de Estado recomendava vivamente uma política de não-intervenção:
O Embaixador Henderson recebeu instruções para retirar das províncias bolivianas vizinhas da zona das guerrilhas todos os nossos conselheiros militares, transferindo-os temporariamente para La Paz.
Um colaborador do General Porter confirmou a execução da ordem. Continuou Rusk:
Pois bem... Nós recomendamos essa política de não-intervenção enquanto ela for humanamente possível. Eu sei que devemos agir. Mas lançar em ação os primeiros elementos do Regional Assistance Command parece-me o mesmo que por mais óleo na fogueira. Seria preciso encontrar alguma coisa mais discreta.
A conclusão de Dean Rusk selou o destino de “Che”. Ele não sucumbiria ao estrondear das armas de um Exército em campanha, mas, tombaria numa armadilha preparada no coração das selvas bolivianas. O sinal da perseguição silenciosa foi dada, Essa caça ao homem começou exatamente por uma minuciosa análise das fotografias que as patrulhas bolivianas apreenderam no primeiro campo abandonado pelos guerrilheiros, perto do Rio Nancahuazu. Os diretores da CIA apresentaram esses documentos no decurso de uma longa exposição. Depois, dois Coronéis mostraram várias ampliações. E, logo, produziu-se um choque na assistência, “como se tivéssemos recebido uma descarga elétrica”, segundo o testemunho dado, mais tarde, por um dos presentes. Os guerrilheiros, ao partir, tinham deixado intacto um “Forno Dien Bien Phu”. Perguntou um dos assistentes:
Existe alguma informação sobre o horário das refeições deles? Alimentam-se de noite? Ou de dia?
Disse um dos oficiais:
De noite. Nós o sabemos pelas declarações dos desertores.
Um murmúrio de emoção se elevou ao redor da mesa de conferências. Um oficial declarou:
Nesse momento, pensamos todos a mesma coisa: Agora nós podemos encontrar “Che” Guevara, pouco importando a selva e pouco importando, também, a rapidez de seus deslocamentos.
O “forno Dien Bien Phu”, de forma arredondada, é utilizado pelos vietnamitas desde o início desta década. Praticamente não expele qualquer fumaça e, com certeza, chamou a atenção de Che Guevara quando ele foi em caráter secreto ao Vietnã do Norte, em 1965. O que “Che” ignorava é que, em 1967, os Estados Unidos tinham aperfeiçoado técnicas aerofotográficas, que permitiam descobrir quaisquer fontes de raios infravermelhos, por mais dissimuladas ou bem camufladas que estivessem. A sensibilidade das novas objetivas de espionagem aérea é extraordinária. Em lugar da luz visível, é o fraco calor, captado por suas lentes múltiplas, que vem formar a imagem sobre um negativo de emulsão ultrassensível. A fotografia de um homem, fumando uma ponta de cigarro, em plena selva, em meio a uma obscuridade total, pode ser colhida a 450 metros de altitude, com tal nitidez que os técnicos dos laboratórios podem dizer se esse indivíduo está ou não barbeado.
Uma decisão foi imediatamente tomada: a de criar na Bolívia um Special Operating Group, colocado sob o comando do General Skaer. Essa missão, ultra prioritária, foi confiada às unidades aéreas do Special Operating Group. Em voos noturnos, sobre um corredor de cerca de 500 quilômetros de largura, elas estenderam suas pesquisas desde Santa Cruz à fronteira Argentina. Toda a zona está cartografada em minúsculos setores.
Os voos de observação foram realizados a duas altitudes. Os RB-57, gigantescos, de grande autonomia de voo, decolavam da Howard Air Force Base, na Zona do Canal do Panamá, e cruzavam a grande altitude o conjunto do território boliviano. Durante esse tempo, lá embaixo, aviões menores iam e vinham, incessantemente, a pequena altitude. Eles se pareciam com os aviões das companhias petrolíferas, para que a população não manifestasse estranheza. Esses aviões investigaram minuciosamente todas as fontes de calor, operando muitos quilômetros de superfilmes infravermelhos.
Os dois especialistas mais destacados dos Estados Unidos em contraguerrilha já se achavam na Bolívia. A 27 de março, o Tenente Coronel Redmond E. Weber, mais conhecido como Red, chegou a bordo de um avião militar, que o desembarcou diretamente em Santa Cruz, nas proximidades da zona das guerrilhas. Ele fora acompanhado pelo Major Ralph W. Shelton, do 8° Grupo de Forças Especiais, mais conhecido como Pappy. Shelton estava incumbido de estabelecer a Base de Treinamento Contra Guerrilhas, para operações de urgência. A Bolívia não tinha uma força antiguerrilhas organizada. Dispunha somente de um dos menores, mais pobres e mais lentos Exércitos do Hemisfério Ocidental. Apesar disso, seu alto comando tinha ideias próprias sobre a maneira de cuidar do assunto Guevara. Mas o Embaixador Henderson replicou aos militares bolivianos mais opiniáticos:
Os Estados Unidos não tomarão nenhuma atitude, nem mesmo a de aumentar a sua ajuda militar, suscetível de ser interpretada como uma intervenção.
A atitude firme de Henderson tinha por trás dela o peso da decisão do Governo Norte-americano. Os bolivianos acabaram por se decidir a aceitar o treinamento e a formação do organismo que não desejavam.
A 29 de abril, quatro oficiais e doze soldados deixaram a Howard Air Force Base, na Zona do Canal do Panamá, com destino à Bolívia. Todos eram antigos combatentes das Forças Especiais, escolhidos por Weber e Shelton. Eles formaram um MTT (Mobile Training Team), ou equipe de treinamento móvel. Às 17h, daquele mesmo dia, eles instalaram em Santa Cruz o seu bivaque para passar a noite. Tão discretamente quanto um caçador levantando a sua carabina contra um jaguar distraído, os Estados Unidos apontaram sua arma contra “Che” Guevara.
Pappy Shelton meteu mãos à obra. É um homem cujo aspecto está longe de deixar transparecer o que ele é. De estatura média, tem rosto nem pálido nem corado, mas de um tom neutro azeitonado, da cor do solo do Estado do Tennessee, de onde ele provém, juntamente com o seu sotaque peculiar. Os agentes inimigos ficariam em desespero para estabelecer os sinais característicos desse militar de 38 anos, que ao longo de toda a sua vida sempre foi Soldado: durante dez anos, como simples infante, depois como Ranger, Paraquedista, aluno da Escola de Oficiais e, por fim, Oficial. Nessa qualidade, há já dez anos, tornou-se Chefe de Equipe das Forças Especiais. Ele levou uma ordem de serviço redigida em meia folha de papel. Nela estavam as diretivas do Southern Command. Segundo estas, Pappy e sua equipe deviam tomar a seu cargo 600 jovens quíchuas para formar com eles o 1° Batalhão de Rangers da Bolívia – comandos, treinados para ataques de surpresa. E tudo isso deveria ser feito em apenas dezenove semanas de instrução. Por outro lado, instruindo de cada vez três Companhias de Infantaria selecionadas, em cursos de quatro semanas, e repetindo esses cursos três vezes, Pappy teria nove companhias de fuzileiros para reforçar os regimentos de linha.
Durante esse período, o alto comando boliviano se agitou. Queria anunciar ao mundo a presença de “Che” na Bolívia, internacionalizar o conflito e abreviar os cursos de dezenove semanas de Pappy Shelton. Os Estados Unidos, recusaram. Explica hoje Shelton:
Nós tínhamos necessidade de aproveitar cada um desses dias para melhorar o programa de treinamento.
Na verdade, quando o Capitão boliviano Júlio Cruz lhe apresentou os jovens quíchuas, Shelton ficou surpreendido ao saber que cada recruta tinha direito a apenas dez cartuchos para aprender a atirar.
Só dez cartuchos? Como poderão aprender seja lá o que for?
Bem, primeiro nós lhes ensinamos a lidar com as armas, a manejá-las, a fazer pontaria. Mas só no fim do treino é que podem atirar mesmo...
Declarou Shelton:
Pois cada um dos meus recrutas terá 3.000 cartuchos para aprender bem!
Sob o Céu tropical, os quíchuas se iniciaram em centenas de astúcias e técnicas de combate pessoal. Aprenderam a garantir a segurança dos caminhos na selva, usando, como sistema de comunicação e aviso, latas vazias de conserva e cordões. Aprenderam a atirar com bazuca e a contra-atacar, em caso de emboscada. E, ainda, a interpretar um mapa e a sobreviver na selva comendo, se preciso, carne de macaco defumada.
A 17 de setembro, os alunos de Pappy se alinharam diante dele pela última vez. Não eram mais “soldaditos”, mas verdadeiros Rangers, ou Boinas-Verdes. O Batalhão passou, então, ao comando de um oficial boliviano. No dia seguinte, Shelton viu seus pupilos tomarem o caminho da 8ª Divisão, estacionada em Vallegrande, a fim de ter a seu cargo um setor de 16 quilômetros de extensão, infiltrado pelos guerrilheiros. Para “Che” a situação não cessara de se agravar. O círculo traçado ao redor da Zona Vermelha dos guerrilheiros cortou-lhes as vias de comunicação. Sua coluna sofreu grandes baixas, durante encontros com destacamentos bolivianos. A estratégia de sua primeira fase estava prejudicada com o desaparecimento de seus agentes mais valiosos. Depois da prisão de Régis Debray, “Che” perdeu sucessivamente seu mensageiro boliviano, Jorge Vasquez Viana, e seu agente de ligação argentino, Ciro Bustos. E, por fim, o único ser humano que lhe era mais próximo, sentimental e fisicamente: a misteriosa jovem conhecida pelo nome de Tânia.
Tantos são os enigmas que cercam a figura de Tamara H. Bunke, a esbelta e sedutora agente de informações que adotou o nome de guerra de Tânia em sua última missão na Bolívia, que os mais eminentes peritos só puderam descobrir uma pequena parcela da verdade. Nascida na Argentina e, educada na Alemanha Oriental, Tânia consagrou os últimos anos de sua vida ao serviço do KGB, órgão central dos serviços de espionagem soviéticos, ajudando a vigiar o Governo Cubano, oriundo das guerrilhas contra o ditador Batista. É que o Governo Revolucionário cubano era versátil, de reações imprevisíveis, inclinado a criar dificuldades. O papel de Tânia como chefe de ligação dos rebeldes foi inicialmente comprometido pelos três guerrilheiros desertores, que forneceram as primeiras provas decisivas ao Governo Boliviano.
No dia 30 de agosto, em consequência dessa delação, ela foi apanhada numa armadilha e tombou sob o fogo cruzado de uma emboscada boliviana, com sua pequena unidade da retaguarda separada da coluna de “Che” por um dia de marcha na selva. Ela morreu sem dizer uma palavra e também sem saber que Moscou deliberara condenar, com todo o seu peso, a aventura boliviana de “Che”. Este, igualmente, ignorava que sua última companheira e colaboradora era uma agente do KGB. E jamais o saberia. A emboscada, na qual Tânia sucumbiu, foi a última fuzilaria entre guerrilheiros e Soldados Bolivianos da tropa de linha comum. Depois disso, os Rangers treinados por Pappy Shelton passaram à ação. “Che” não teria mais que um mês de vida.
Um mestre da espionagem, de tez amarelada, entrou então em cena: era o Capitão porto-riquenho Margarito Cruz, oficial de informações de Pappy Shelton. O Capitão Cruz encarregou-se da missão mais intensa e mais secreta do programa: dirigir os Pelotões Especiais que ele mesmo formara e que foram agregados a cada Companhia de Rangers. Seus noviços executavam sozinhos as tarefas de coletar informações. Em trajes civis, eles se misturavam às populações locais e se infiltravam no setor da guerrilha. Explica o militar norte-americano, Capitão Wallender:
Não se tratava apenas de informações. Em matéria de combate, nós tínhamos o problema das exigências táticas a resolver por nós mesmos. A nossa vantagem sobre “Che” era a de que ele, sendo uma celebridade mundial, pensava como um General de 4 estrelas. Queria se tornar um campeão de alianças, senhor de vastos territórios, representante destacado de uma ideologia, figura de proa da História. Assim sendo, “Che” não tinha mais tempo a consagrar aos pequenos problemas, como o da segurança do perímetro de seu campo, ao horário das patrulhas e ao moral de seus recrutas de base. Ora, nós não pensávamos noutra coisa.
Em alguns dias, os elementos dos serviços de informações dos Rangers levantaram a pista de “Che”. No domingo, 8 de outubro, um calor canicular se anunciava desde muito cedo. Ao alvorecer, a companhia “A” dos Rangers, em uniforme de combate, partiu em direção de uma estreita e longa ravina, coberta por um bosque, a Quebrada del Yuro, onde movimentos suspeitos tinham sido assinalados na noite precedente. Os Rangers bloquearam todas as saídas e começaram a esquadrinhar o desfiladeiro. Bruscamente, antes do meio-dia, eles se viram sob o fogo de armas ligeiras. “Che” Guevara jamais pôde realizar o seu sonho de defrontar-se em combate com os ianques, por ele tão execrados. Mas se encontrava naquele momento em face de um inimigo não menos temível: as Companhias antiguerrilha, recrutadas entre a população quíchua e treinadas por Shelton. Che estava ferido e acuado. Ele se lançou através da ravina, atacando e correndo num trajeto em semicírculo, numa tentativa para sair da armadilha, estendida nas posições elevadas. O jovem Capitão Guy Prado, Comandante da Companhia de Rangers, tinha colocado nessas posições o Primeiro-Sargento Huanca, com uma seção de fuzileiros. A coluna de Guevara investiu contra ele, jogando tudo nessa cartada desesperada, sob uma violenta linha de fogo.
“Che” e sua coluna se atiraram contra a posição de Huanca como uma tempestade de fogo, recorda Shelton, Huanca deve ter ficado surpreendido, ao ver tombar as suas vítimas, mas impediu que os guerrilheiros fugissem e manteve a posição até que o resto da Companhia chegasse ao local e que alguém, com uma bala, fizesse tombar a carabina das mãos de Guevara. “Che” recebera vários ferimentos, mas todos sem gravidade. A CIA queria que ele permanecesse vivo, quando mais não fosse por motivos de ordem profissional. Mas o alto comando boliviano guardava lembranças particularmente desagradáveis do processo de Régis Debray. Nessa ocasião, centenas de jornalistas, em todo o mundo, tinham dado aos militares bolivianos a reputação de gorilas. O Presidente Barrientos e seus generais não teriam grande mérito na captura de “Che”. E queriam evitar os inconvenientes de um novo processo. Na Bolívia, a pena de morte não está inscrita no Código Penal. O alto comando boliviano estava num dilema: ou matar “Che” imediatamente ou nunca mais.
O Comandante-Chefe, General Alfredo Ovando, o fez fuzilar, no dia seguinte, sob sua ordem e responsabilidade pessoal. E a salva mortífera transformou a vitória da força antiguerrilha numa derrota política. Não houve comunicado triunfal. O Special Operation Group deixou a Bolívia sem alarde. Os únicos atos oficiais foram as promoções reveladoras de que se beneficiaram Bowdler e o General Alger. O Governo Boliviano nunca reconheceu publicamente a contribuição de Pappy Shelton e de sua equipe. La Paz apresentou a sua própria versão da longa perseguição de que resultou a morte de “Che” nesta frase lacônica:
Os Estados Unidos se contentaram em nos ajudar com algumas remessas de alimentos desidratados. (MANCHETE N° 890)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);


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