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Bagé, RS, 07.01.2026
Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista
Manchete:
Manchete n° 800, Rio de Janeiro, RJ
Sábado, 19.08.1967
Meu Amigo Castello Branco
Pelo General Aurélio de Lyra Tavares,
(Ministro do Exército)
Entendi que era do meu dever, tão imperativo quanto inadiável,
abrir um parêntese na rotina absorvente das atividades funcionais, para
escrever umas palavras de homenagem à memória, por todos os aspectos
respeitável, do nosso ex-Presidente, o Marechal Humberto de Alencar Castello
Branco.
Tive a honra e o privilégio de servir e de muito aprender com ele,
ao longo da vida militar, tornando-me, inclusive, seu amigo, título com que ele
me distinguiu, e que era, para mim, razão de grande orgulho. Conhecemo-nos e
convivemos mais estreitamente, no posto de Tenente-Coronel, ele mais antigo da
turma e já consagrado como Oficial de Elite, e brilhante instrutor das nossas Escolas
Militares. A partir daí, quis o destino que vivêssemos quase sempre juntos, no
trabalho de Estado-Maior, estudando e discutindo, dentro das mesmas ideias e
tendo em mira os mesmos, objetivos, embora com pontos de vista por vezes
discordantes.
Ele punha a alma e a inteligência em tudo o que fazia. Era uma
alma grande e uma inteligência invulgar. Completavam e distinguiam a sua forte
personalidade o caráter impoluto e a cultura multiforme, e bem sedimentada, com
base muito segura nos conhecimentos históricos e no hábito de estudar, sabendo
estudar.
Ligaram-nos ainda mais os dois grandes episódios vividos pelo
Exército da nossa geração: a Guerra, de que participamos, e a Revolução de Março,
fruto da aspiração e da imagem de um Brasil melhor, que todos tínhamos e temos
no espírito. Era um grande sonho nosso. Ele fez muito para realizá-lo, embora
tivesse tragicamente desaparecido sem vê-lo totalmente concretizado. Muitos não
compreenderam a sua obra e a grandeza com que procurou construí-la, em tudo que
dependeu do seu esforço. O julgamento desapaixonado só virá com o tempo,
sobretudo para os que como ele, com o espírito integralmente absorvido nas responsabilidades
da missão, nunca a sacrificou a preocupações menos nobres. Não cortejou a
popularidade e tampouco desceu ao nível dos que pretenderam atingi-lo ou
abalá-lo na respeitabilidade da alta investidura que tanto soube dignificar.
Fomos, já no período da guerra, integrantes da primeira turma
de oficiais do nosso Exército, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército
dos Estados Unidos. Lá, em Kansas, moramos juntos, na mesma casa, quatro Tenentes-Coronéis:
ele, Amauri Kruel, Teófilo Arruda e eu. Era uma espécie de “República de Estudantes”, na camaradagem
e na intimidade em que vivíamos e estudávamos juntos, apesar da austeridade
própria da nossa condição e dos nossos deveres, o que nos dava muito pouco
tempo para nós mesmos.
Veio depois a FEB, cujos trabalhos de organização nos aproximaram
ainda mais. Ele foi, desde o início, até as epopeias heroicas do Campo de Batalha,
o mesmo espírito infatigável e brilhante, servido por uma vontade firme que o
futuro reservava para missões ainda mais altas e amplas, no quadro da vida
nacional. Sob a direção do Marechal Mascarenhas de Morais, voltamos a servir
juntos, no EMFA, em período áureo e fecundo de estudos e trabalhos. Nessa
época, já o Brasil descambava para os dias tormentosos que se prenunciavam.
Foi, então, que mais se estreitaram as nossas relações, não apenas as de
serviço, como as de família. E isso me deu a oportunidade de frequentar mais
amiúde o seu lar de Ipanema, exemplarmente constituído, para fazer-me maior
admirador da sua integral dignidade como militar e cidadão.
Quando ocorreu a renúncia do ex-Presidente Jânio Quadros, com todas
as suas funestas consequências, passei a servir sob suas ordens. Ele era,
então, Diretor-Geral do Ensino, e, eu, Diretor do Ensino de Formação. Já se
falava, abertamente, em “Exército do Povo”,
na intenção de imprimir à nossa Instituição Militar, de caráter e de espírito
tradicionalmente populares, o sentido de uma organização miliciana, a
serviço de um governo flagrantemente submetido a um falso poder sindical,
dominado, sem qualquer sombra de dúvida, pelo comunismo internacional. Era
alarmante, dentro desse quadro, o trabalho oficial para mistificar a Nação,
incentivando a luta de classes e explorando as contradições e as fraquezas do
regime, na mais pura técnica da Guerra Revolucionária.
Em
todas as Escolas Militares do mundo, tanto as dos Países democráticos, como,
por mais fortes razões, as orientadas pelos comunistas, esse novo tipo de
guerra e os seus processos e técnicas eram, a essa altura, obrigatoriamente,
estudados. No Brasil, porém, chamavam pejorativamente de “reacionários”, “golpistas”
ou “gorilas”, os que sequer a ela aludissem ou dela tratassem, nas escolas ou
nos quartéis. Um grupo influente e categorizado de militares ligados à política
dominante já os considerava adversários do governo. Isso ocorria quando as
cartilhas de Mao Tse-Tung, além de farta bibliografia de propaganda vermelha,
invadiam a zona rural do Brasil e eram utilizadas por líderes camponeses, com
pleno consentimento do governo. O então General Castello Branco organizou e
repartiu, entre os chefes responsáveis pelos diferentes setores do ensino do Exército,
um programa de Conferências, obedecendo ao título “O Dever Militar e a Luta Ideológica”. Ele próprio o iniciou, em
oportuna e brilhante aula proferida na Escola de Comando e Estado-Maior do
Exército. Refiro-me ao episódio por tê-lo ajudado nesse trabalho, tanto
funcional, como pessoalmente. Foi iniciativa de grande repercussão no preparo
do espírito do Exército para que ele pudesse enfrentar, como enfrentou, a luta
a ser travada dentro em breve. Assinala, aliás, um grande momento da vida
militar do Marechal Castello Branco e o seu devotamento à causa da democracia.
Esse devotamento iria consagrá-lo até o fim da sua vida, grande e fecunda,
interrompida com tão dolorosa surpresa para a Nação e para o Exército.
Em
1962, eu, no Comando da 2ª Região Militar em São Paulo, e ele ainda na
Diretoria-Geral de Ensino, participamos de um programa de Conferências do Fórum
Roberto Simonsen, sobre Segurança Nacional, com Edmundo Macedo Soares, Otávio Marcondes
Ferraz e A. C. Pacheco e Silva. As Conferências foram públicas e difundidas em
livro, com grande aceitação e circulação entre os estudiosos do problema, pela
ansiedade e preocupação existentes, resultantes dos rumos perigosos que se
imprimiam à Nação. Foi nesse ambiente, carregado de episódios aviltantes, que
eu tive a honra de voltar a servir sob as ordens do General Castello Branco, na
condição de 1° Subchefe do Estado-Maior do Exército.
Ele
viera do Nordeste, já com as quatro estrelas do último posto da Carreira Militar.
Havia curtido, como comandante do IV Exército, os pesados sacrifícios a que não
podia esquivar-se, naquela conjuntura difícil, nenhum chefe militar, cioso dos
seus deveres para com a Pátria, quando investido das responsabilidades de um
Alto-Comando. E aquele era, sem dúvida, dos mais difíceis, pelas condições
políticas e sociais que tornavam o Nordeste uma área perigosa e vulnerável,
comprometendo a Segurança Nacional.
O
Estado-Maior, enaltecido e dignificado pela respeitabilidade moral e pelo prestígio
profissional do seu Grande Chefe, representou, naquela conjuntura, um papel
decisivo na orientação e na coordenação do pensamento e da ação do Exército, em
face dos graves acontecimentos que ocorriam. Procuravam-no, com assiduidade
cada vez maior, numerosos Chefes Militares, além de ilustres cidadãos civis,
inconformados com a grave situação nacional.
Destacava-se,
como figura de presença habitual, a do General Arthur da Costa e Silva, então o
mais antigo dos membros do Alto-Comando. Foi assim, naquela sala tradicional,
pela posição e pela projeção do General Castello Branco, que a linha
hierárquica das Forças Armadas se uniu e se fortaleceu, em torno dos ideais da
Revolução, que não tardaria a eclodir. No meio de tudo isso, o Estado-Maior não
parou nem o seu ilustre chefe deixou de orientar-lhe e impulsionar-lhe,
pessoalmente, as atividades funcionais. Em certos assuntos mais relevantes,
como eram; nesse tempo, a reestruturação do Exército e a reforma
administrativa, trabalhávamos, por véus em meu apartamento, na mesa de jantar.
Era da sua têmpera e do seu feitio, em toda a vida, ser ele mesmo o dono da sua
missão, por mais que apreciasse e elogiasse os assessores e lhe fosse pesada a
tarefa ou o tempo curto. Punha, por isso, sua personalidade e a marca própria
em tudo o que fazia. Colocava as obrigações funcionais acima de quaisquer
outras considerações, inclusive dos interesses próprios e das inclinações de
ordem afetiva.
Já
eleito Presidente, antes de despedir-se da chefia do Estado-Maior, num grande
discurso de adeus ao Exército ativo e de profissão de fé civilista, como o seu Gabinete
vivesse extraordinariamente cheio, descia para despachar no 5° andar, com os
dois subchefes, de modo a manter em dia o expediente, como, de fato, o manteve
até deixar a função. Por tudo o que sabemos, assim foi, em todos os aspectos da
sua grande vida: um homem do dever, para com o Exército, para com a Nação e para com a Família:
É esta a imagem moral que guardo dele e me inspira, agora, estas palavras de
reverência à sua imperecível memória. (REVISTA MANCHETE N° 800, 19.08.1967)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
YYY
Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso
do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de
Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre
(CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e
Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do
Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do
Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre
do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do
Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);


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