Segunda-feira, 10 de junho de 2024 - 09h05

Bagé,
10.06.2024
Você vê, portanto, que o que há, em toda
essa questão agrária, é muita mistificação e muita deformação. Não há dúvida de que precisamos de incentivar e modernizar a
agricultura. Não há somente duas formas de industrializar a agricultura:
através da livre iniciativa ou através da socialização, isto é, da posse da
terra pelo estado. Entre uma e outra solução há numerosas formas intermediárias
a fomentar e a estimular. Nenhuma, porém, única, rígida, uniforme. O
cooperativismo, por exemplo. Se fosse imposto a todo o país, para começo de
conversa deixava de ser cooperativismo, porque as cooperativas exigem respeito
a seu caráter livre.
Há necessidade de modificar a lei de
cooperativas no Brasil, que é muito ruim. Mas pergunto: que é que, realmente,
esse governo está sendo impedido de fazer por falta de lei?
Todos os dias digo que desejo promover
a reforma democrática do Brasil. Mas todos os dias os meus adversários batem na
tecla de que “o Lacerda é contra as
reformas”. Não há uma palavra minha contra as reformas O que há, de fato,
repito, é que a propaganda totalitária pretende apossar-se da palavra reforma.
O governo federal sentou praça no setor das reformas, quer monopolizar o tema.
Há tempos cheguei a formular uma solução concreta, que nenhuma lei proíbe, nem
carece de reforma da Constituição. Depende exclusivamente de interpretação do
texto constitucional. É o seguinte: pagar as terras desapropriadas mediante
ações de empresas do estado, cotadas na Bolsa.
Ações da Petrobrás, por exemplo, o que
seria feito dentro do estrito respeito da própria lei que criou a Petrobrás,
brasileiros natos, etc. Ações da Siderúrgica Nacional, da Vale do Rio Doce,
etc. Títulos conversíveis em dinheiro. O Estado, com isto, não estaria deixando
de pagar previamente. Assim como a Constituição não proíbe a doação, se o
proprietário entendesse de fazê-la, assim também não proíbe que o Estado pague
em títulos, desde que o proprietário aceite. No Estado da Guanabara, estamos
pagando frequentemente com títulos. Assim, associaríamos o particular ao
desenvolvimento industrial do Brasil. Transformaríamos o latifundiário, ou o ex-latifundiário,
uma vez procedida a desapropriação, em um homem interessado na expansão de
Volta Redonda, no êxito da Vale do Rio Doce, etc.
O decreto da SUPRA, na realidade, não
tem consequências práticas. Uma coisa é a terra de beira de estrada, outra é a
terra em que se encrava um açude. O decreto da SUPRA é inócuo, não se destina a
coisa nenhuma, a não ser a intranquilizar. Se ele desencadeasse no Brasil um
delírio de cultivar a terra, para evitar de ser desapropriada, seria até muito
bom. Teoricamente, chegaríamos à superprodução. Mas, então, para que o decreto?
Só para assustar? Porque o estímulo da produção será alcançado mais facilmente
se destinarmos o dinheiro das desapropriações ao fomento da agricultura.
Nós
Ficamos com o Plano Trienal ou com a Supra?
Falta-nos, no Brasil, um estudo
completo e minucioso da terra, a ponto de saber, com exatidão, o que é produtivo
e o que não é produtivo.
Em princípio, porém, as áreas que
interessam mais à produção agrícola são as áreas de escoamento mais ou menos garantido.
Não se cogita da selva amazônica, por exemplo. A realidade, porém, é que, entre
uma cidade e outra, nas zonas que têm mercado, acesso a mercado consumidor, as
terras produtivas já contam com uma forma de exploração. Pode ser a mais precária,
a mais primitiva, a mais especulativa, mas o fato é que a terra aí não está
abandonada. Mesmo porque, se estivesse abandonada, não haveria o problema da Reforma
Agrária quanto à propriedade. O meu raciocínio é baseado no Plano Trienal, que
é do atual governo. Pergunto então: ficamos com o Plano Trienal ou com a SUPRA?
Parece claro que o que se quer fazer
não é a difusão da propriedade agrícola, mas quem sabe o seu monopólio. Que
planejamento tem o governo, com referência, por exemplo, ao que diz na sua
mensagem ao Congresso sobre a obrigatoriedade de certas culturas? Que condições
tem o governo para planejar? Com esse governo, deixamos de produzir trigo,
quando poderíamos produzi-lo. Não resolvemos o problema do café. Estamos
perdendo a batalha do café no mundo inteiro, porque não fomos capazes de
selecionar a produção cafeeira! Deixamos andar para trás a produção do algodão,
depois do surto algodoeiro de São Paulo. Até hoje, não temos uma única estação
experimental de cana-de-açúcar em Pernambuco! Não temos, senão para amostras,
escolas de grau médio na agricultura. Não temos socorrido o trabalhador
agrícola, ensinando-lhe o que ele precisa saber. O pouco que sabe só o sabe por
assim dizer consuetudinariamente. Não lhe damos os instrumentos para trabalhar
a terra, não lhe damos noções de rotatividade de cultura, etc.
Até hoje, não se chegou sequer a
realizar o Projeto Artur Bernardes, para o estabelecimento de uma universidade
rural em cada área geoeconômica do País. Você já viu as estatísticas de
produção de tratores? A indústria nacional de tratores estaria em condições de
dobrar a sua produção em três meses. Mas não lhe dão o necessário mecanismo de
crédito. Sem falar na ausência de tudo o mais, dos obstáculos que seria preciso
remover, da ausência de tratoristas, de toda uma infraestrutura que é
indispensável à duplicação daquela produção. Ora, não é possível fabricar
trator para deixá-lo no pátio da fábrica. Daí, estamos amarrados a uma produção
irrisória. E qual é a frota de tratores que existe no Brasil, entre
estrangeiros e nacionais, todos? É também irrisória! Sou a favor da Reforma
Agrária, quero fazê-la pelos caminhos por que realmente se deve e se pode
fazê-la. Com eficiência e sem demagogia. Que é que me adianta um plebiscito
para fazer a Reforma Agrária? O próprio Congresso pode pouco, ou nada pode, se
o Executivo não conduz o problema como é necessário. Quero deputados para a Reforma
Agrária. Mas quero, também, e sobretudo, tratores, agrônomos, crédito, etc.
Reforma Agrária não se faz no cartório, se faz no laboratório. Você já
experimentou comprar salitre do chile? Eu compro, quando vou a São Paulo. Um
saquinho de nada custa qualquer coisa como 600 cruzeiros. Fosfato da África é
na mesma base. Vende-se fertilizantes no Brasil como se fosse joia. E o
governo, através dos fretes marítimos, estrangula a produção pernambucana de
fosforita. Como é que se pode falar em Reforma Agrária sem falar em fertilizantes?
Ora, o governo parece que está desejando apenas aumentar a população rural,
quando hoje é universalmente sabido que o problema é o oposto: trata-se de
aumentar a produção e diminuir a população agrícola.
A Reforma Agrária deve ter como consequência
natural diminuir a população agrícola. É a tendência incoercível no mundo
inteiro, com o fenômeno da urbanização. Antigamente, eu também já incorri nessa
asneira de falar em regime feudal da agricultura e ficar por aí, pelas
generalizações que nada têm a ver com a realidade. Hoje, temos o processo da industrialização.
A tendência, no mundo todo, é o trabalhador rural fixar-se na pequena cidade e
trabalhar no campo.
No Brasil, já estamos aglutinando nos
centros urbanos as atividades agrícola circundantes. A verdade é que trabalhar
a terra é duro. O agricultor, desassistido, às vezes arrisca tudo numa geada,
num granizo, numa seca. É um negócio precário. O Governo tem que assistir o
agricultor e oferecer-lhe vantagens para que ele continue trabalhando a terra.
Enquanto houver um exército de párias, não haverá no campo condições de
trabalho compatíveis com a dignidade do homem. Para mudar essa situação, não
creio que seja necessário alterar obrigatoriamente o regime de propriedade. Ou
melhor: não é preciso começar por aí.
O regime de propriedade se altera
forçosamente na medida que se alteram as condições gerais da produção. Tal
objetivo se alcança por mil e uma formas, inclusive com a sindicalização rural,
que é um caminho de luta e não um caminho de convergência de interesses. Ninguém
pode ser contra a sindicalização rural. Digo apenas que a sindicalização rural
não é o melhor caminho para obter o aumento da rentabilidade da terra, que é,
no fundo, o que interessa a todos, a patrões e a empregados, ao estado, aos
proprietários, aos consumidores, etc. O que sucede, portanto, atualmente, é uma
deformação sistemática. (Continua...)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do
Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre
(CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura
do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério
Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul;
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando
Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio
Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia
(ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio
Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da
Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós
(IHGTAP)
E-mail: [email protected].
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