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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Contrarrevolução de 64 – Parte VIII


Contrarrevolução de 64 – Parte VIII  - Gente de Opinião

Bagé, 29.05.2024

 

Diário de Notícias n° 12.687, Rio de Janeiro, RJ

Quarta-feira, 1°.04.1964

Castello Branco: Insurreição é Recurso Legítimo

Kruel Adere: II Exército Contra Jugo Comunista

Luta Fraticida Iminente no País

Ainda há Tempo

 

Desde que assumiu o poder, o sr. João Goulart tem transformado o País num campo de manobras experimentais, adestrando-se para o exercício de sua verdadeira vocação como herdeiro dileto do ditador do Estado Novo. Ao longo do seu governo, o presidente da República armou e desarmou dispositivos militares, montou e desmontou esquemas sindicais, traçou e destroçou políticas monetárias. Em cada uma dessas experiências parece ter acumulado elementos que confirmam a sua carreira para uma solução extralegal, do tipo caudilhesco – na melhor das hipóteses.

 

YYY

 

Não somos nós, apenas, que assim julgamos a conduta do presidente da República. Em seu editorial de domingo último, o jornal “La Prensa”, de Buenos Aires, analisa os últimos acontecimentos que aqui se desenrolaram e estabelece nítido paralelo entre os propósitos e métodos políticos do presidente João Goulart e os do ex-ditador argentino, acentuando a mesma exploração das agremiações de trabalhadores que, desvirtuando o verdadeiro significado do sindicalismo autêntico, facilita a infiltração dissolvente e anarquizante dos sequazes do extremismo internacional.

 

YYY

 

Apesar do alto grau de ambiguidade com que se move na cena política, não é difícil definir uma linha de conduta do sr. João Goulart, e dela extrair um certo grau de inteligibilidade. Já se vai tornando meridianamente claro, à força de se repetir, o esquema tático do chefe de Governo, cuja chave principal é a divisão e a dilaceração das forças que ele deseja combater ou controlar.

 

Dentro de seu próprio esquema de apoio político, ele prefere dividir para depois somar, desunir para intervir, destruir para salvar. Mas no rescaldo de cada uma de suas intervenções ou de suas jogadas políticas, fica-lhe sempre um lucro de perturbação da ordem pública, de desmoralização de lideranças e uma confusa consciência, por parte de parcelas humildes do povo, de que ele está agindo em seu benefício.

 

Talvez seja esta, e só esta, a moral de sua experiência política: lançar a intranquilidade sobre as instituições democráticas e as forças que promovem o desenvolvimento do País acusando-as, respectivamente, de arcaicas e espoliadoras, a fim de erguer a solução do problema social como uma tarefa a ser cumprida fora dos quadros constitucionais vigentes.

 

YYY

 

Há limites, entretanto, para este tipo de manobras políticas. E este limite, compreende hoje o País inteiro e a maioria esmagadora de nossas Forças Armadas, foi ultrapassado no episódio de quarta-feira Santa. Atentando contra a estrutura da hierarquia e da disciplina militares, o presidente da República tomou a iniciativa de solapar a segurança do regime ao qual jurou fidelidade. A partir do exemplo presidencial não há mais porque confiar na disciplina militar. E todo o País já começa a assistir eclosões de atitudes, que, em outras circunstâncias, poderiam ser enquadradas como desobediência aos regulamentos militares. Não pode, entretanto, haver indisciplina onde se reclama o restabelecimento da ordem e onde se luta pela preservação das instituições livremente constituídas.

 

O que o povo brasileiro deseja saber, neste instante, é o que o presidente da República fará, com urgência, para devolver o espírito de disciplina ao seio das Forças Armadas e a tranquilidade à nossa vida política, econômica e social. Está ao seu alcance atender a comandantes e a comandados militares, desde que abdique do facciosismo, do estrelismo e do demagogismo.

 

YYY

 

Está ao seu alcance agora, como em outras circunstâncias em agosto de 61, livrar o País de uma guerra civil, como está ao seu alcance promover, dentro da ordem e do acatamento à hierarquia militar, a revisão dos regulamentos militares, reivindicada com anarquia e com subversão disciplinar.

 

O que não lhe é lícito é a derrubada das instituições democráticas e a desmoralização de nossas Forças Armadas. Resta saber se o presidente da República compreenderá isso a tempo. Como é de se esperar. Como é de se exigir. Nem nós, nem ninguém e queremos crer nem mesmo o sr. João Goulart poderíamos concorrer para um desenlace violento para a crise que se instalou no País. Ainda há tempo, sempre há tempo para as soluções de bom-senso e de patriotismo.

Contrarrevolução de 64 – Parte VIII  - Gente de Opinião

Diário de Notícias n° 12.688, Rio de Janeiro, RJ

Quinta-feira, 02.04.1964

Kruel: Vitória Restabeleceu Paz Cristã ao Brasil

Arraes foi Encarcerado e Afastado por “Impeachment”

Marinha Caça Goulart

 

Enquanto o Congresso Nacional iniciava, em plena madrugada, em Brasília, a votação do “impeachment” do sr. João Goulart, homiziado no Sul, numa sessão tumultuada pela oposição do PTB, que ameaçava ir até o esforço físico para impedir o debate da matéria, o general Amauri Kruel chegava a São Paulo para conferenciar com o Governador Ademar de Barros e ultimar os preparativos para os deslocamentos das tropas que deverão seguir para o Rio Grande do Sul a fim de esmagar o último foco de rebelião concentrado em Porto Alegre, sob o comando do sr. João Goulart e Leonel Brizola.

 

Ao mesmo tempo, deverão ser abastecidos, hoje, em Santos, os três navios da esquadra, Tamandaré, Pará e o Amazonas, que segundo se anuncia, sob o comando geral do Almirante Silvio Heck, rumam para o Sul a fim de cooperar no completo esmagamento dos insurretos. Ao mesmo tempo, por ordem do Sr. Ademar de Barros, começa hoje, em São Paulo, o racionamento da gasolina fixado em 70% para as indústrias e transportes coletivos e, em 30% para os carros particulares. A medida vai afetar profunda-mente o abastecimento de Brasília, uma vez que o Governo do Estado requisitou todos os estoques que transitam em direção à Capital Federal.

 

Ressurreição

 

Depois de três anos de inquietação e de lenta mas calculada demolição dos valores e das instituições democráticas, o Brasil encontra-se consigo mesmo e revela aos agitadores comandados uns, e acobertados outros, pelo sr. João Goulart a sua face verdadeira. O apego à disciplina e a obediência ao poder constituído traçaram às nossas Forças Armadas – às nossas democráticas Forças Armadas – durante esse longo e tormentoso período, a ingrata tarefa de vigiar a subversão, de amparar os esquemas de destruição da ordem constitucional e de implantação de um regime de exceção em nosso País. Elas o fizeram até o limite do desespero e até o limite de sua ppria sobrevivência como instituição destinada a garantir o povo brasileiro e as franquias democráticas.

 

Seu silêncio e sua paciência foram, entretanto, confundidos com uma conivência que jamais poderia acontecer. Então, do seio das próprias Forças Armadas, quem tentaram humilhar com a destruição de sua hierarquia, como do seio do povo brasileiro e de suas legítimas lideranças políticas, surgiu o movimento de desagravo de um País traído por aqueles que juraram defendê-loe negado por aqueles que dele se serviram para condená-lo à mais estúpida das deformações.

 

A deposição do sr. João Goulart foi um gesto de autodefesa do regime. Não foi uma revolução, nem uma quartelada. Foi como a decisão de alguém que se livra de uma roupa que ameaça sufocá-lo. E o sr João Goulart não fez outra coisa, durante o exercício de seu mandato senão sufocar a verdadeira vocação deste País e os legítimos e inequívocos compromissos do nosso povo com o regime livremente conquistado com a Carta Magna de 1946. Neutralizado e extinto o foco de subversão que se enquistara nos palácios presidenciais, o País está outra vez preparado para afirmar, através de suas Forças Armadas, de seus partidos políticos e das autoridades agora investidas no Poder, a sua decisão de progredir dentro da ordem, da tranquilidade e das tradições de generosidade que a nossa formação histórica e cristã nos imprimiu.

 

YYY

 

Podemos agora ter o que perdemos há três anos: um Governo. Governo para cumprir e fazer cumprir a Constituição, e não para rasgá-la em praça pública a pretexto de reclamar reformas de base. Governo para garantir a disciplina no seio das Forças Armadas e estabelecer o convívio fraterno entre comandados e comandantes. Governo tara regular e harmonizar as relações entre empregadores e empregados, a fim de que o nosso desenvolvimento econômico seja também desenvolvimento social.

 

Governo para policiar e abafar as pruridos de subversão, venha ela de onde vier, qualquer que seja a sua coloração ideológica. Governo, enfim, para respeitar a opinião pública e por ela se fazer respeitado.

 

Quanto à luta pelas reformas de base, não há porque temer o seu destino. A necessidade dessas reformas não foi deposta com o sr. João Goulart. Agora, sim, é que o País encontra o clima adequado à sua pregação, ao seu estudo e à sua aplicação. Porque elas são uma imposição do nosso desenvolvimento econômico e uma justa aspiração do nosso povo, e não um monopólio das correntes extremadas que se serviram da ambição política do sr. João Goulart.

 

Agora, não há porque temer ser favorável às reformas, pois elas não servirão mais aos desígnios sinistros e antinacionais dos que as ostentavam como bandeira da bolchevização deste País e da escravização deste povo e da cupidez e de mando pessoal.

 

YYY

 

Tomamos conta, agora definitivamente, de nossa casa. E uma enorme tarefa nos espera. Há que arrumá-la e torná-la digna do povo que a habita. Esta tarefa, entretanto, é um consolo e uma vitória. Pois conquistamos o direto de executá-la.

 

Dos escombros do governo do sr. João Goulart o Brasil ressurge e retoma o seu verdadeiro caminho, fiel à inspiração da sua própria bandeira: Ordem e Progresso.

 

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);

Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);

Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)

E-mail: [email protected].

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