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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

1969, o Ano do Otimismo


1969, o Ano do Otimismo - Gente de Opinião

Bagé, RS, 16.01.2026


 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 875, Rio de Janeiro, RJ

Sábado, 25.01.1969

 

1969 0 Ano do Otimismo

 

 

O Ministro da Fazenda compara os resultados obtidos em 1968 com as atuais perspectivas econômicas.

 

De uma pequena sala, com oito telefones à mão, um homem jovem e tranquilo comanda as finanças brasileiras. Diante de uma agenda sempre congestionada, o Ministro Delfim Neto é forçado a acordar muito cedo e frequentemente trabalha até a madrugada. No dia de nossa entrevista, iria reunir-se com o Conselho Monetário, despachar com o Presidente da República e receber 22 pessoas; na véspera, estivera até tarde com seus assessores. Mas era manhã e o relógio marcava exatamente sete horas quando ele começou:

 

O Brasil vai bem, obrigado, e os números que tenho para divulgar justificam o nosso otimismo.

 

Em 1968 Foram Batidos os Recordes de Exportação, Produção de Petróleo, Receita Pública, Construção Naval, Empréstimos Bancários, Automóveis e Casas

 

Repórter: Quais são os números do seu otimismo?

 

Delfim Neto: Registrou-se o mais elevado nível de emprego de todos os tempos, a mais alta receita da União, as maiores exportações, grandes aumentos de depósitos bancários, de empréstimos ao setor privado, recorde na produção de petróleo, mais 1 milhão de KW instalados, os maiores investimentos em educação, quase 200 mil unidades residenciais num só ano contra 120 mil nos últimos 26 anos, construção de 1.750 km de rodovias e pavimentação de 2.150, construção de 160 navios nos estaleiros nacionais, investimentos industriais de 2 bilhões novos com quase 1.000 projetos de ampliação, 7 milhões de toneladas de cimento, investimentos recordes no Nordeste e na Amazônia, onde está sendo construída uma fábrica por dia, recorde no consumo de fertilizantes, no plantio de árvores e nos investimentos em comunicações, produção recorde de 200 mil veículos e lançamento de novos modelos.

 

Repórter: O Ministro da Fazenda cita o caso da participação da “International Finance Corporation” (IFC), subsidiária do Banco Mundial no projeto da Petroquímica União, considerado prioritário pelo Governo brasileiro. A decisão da IFC, de participar com 10% do capital social da empresa, é considerada pelo Sr. Delfim Neto como uma demonstração cabal de confiança no empreendimento. Além de participar com 2 milhões e 400 mil dólares, a IFC concedeu financiamento de 5 milhões de dólares para a execução do projeto, do qual participam a Petrobras e importantes grupos privados brasileiros. Tal projeto mereceu também a cooperação de um consórcio de bancos franceses, que concederam financiamento no valor de 40 milhões e 500 mil dólares, com aval do Tesouro brasileiro e contrato assinado a 17 de dezembro último. A implantação do projeto petroquímico influenciará investimentos paralelos da ordem de 400 milhões de dólares no parque industrial brasileiro, tanto na área de produção de matérias-primas, como na elaboração de produtos derivados.

 

Repórter: O Ministério da Fazenda estava precisando dos poderes conferidos pelo Ato Institucional n° 5?

 

Delfim Neto: Aproveitamos esses poderes para decretar uma série de medidas que terão efeito decisivo nas finanças e na economia do País durante este ano. Basta dizer que somente no capítulo do “déficit” orçamentário conseguimos diminuí-lo de 1,5 bilhão novos para 500 milhões, ou seja, para um terço, que representará em 1969 apenas 0,5% do Produto Bruto. Conseguimos isto com: 100 milhões novos de economia derivados do decreto de programação financeira, 150 milhões do imposto de renda sobre letras de câmbio e taxa rodoviária, 700 milhões do Fundo de Participação dos Estados e Municípios, 350 milhões em economia de pessoal, pela aposentadoria com remuneração proporcional ao tempo de serviço. Tudo isto totaliza uma economia de 1 bilhão e 300 milhões. Podemos destinar esses 300 milhões para as vantagens fiscais às pessoas físicas e jurídicas. Restou então a economia de 1 bilhão novo, que fizeram o “déficit” descer para meio bilhão. Se considerarmos que a conta das Obrigações Reajustáveis poderá dar um saldo positivo, verificaremos que estão criadas este ano as condições para eliminar, pela primeira vez na história do País, a pressão do Governo sobre o processo inflacionário.

 

Repórter: O Ministro da Fazenda fala a seguir das medidas de reforço do capital próprio das empresas, que lhes permitirão enfrentar este ano com novo alento em matérias de tributos. Reduziram-se os impostos sobre as ações e sobre os aumentos de capital ou correção de escrita. Todas essas medidas se inserem no esforço para fazer baixar a taxa de juros, através das facilidades para a manutenção e expansão do capital próprio das empresas, além do alívio fiscal que injetará na área privada aqueles 300 milhões novos que antes seriam carreados para a Fazenda.

 

Repórter: Como o Governo pretende baixar o custo do dinheiro?

 

Delfim Neto: O custo do dinheiro continua sendo a questão crucial para as empresas neste limiar do ano novo. Mas não há de ser através da redução dos níveis de depósito compulsório que vamos corrigir as distorções institucionais do mercado financeiro. Em vez de mexer no encaixe compulsório, estamos adotando saídas mais inteligentes através de “open Market” que alterarão o fluxo global dos recursos disponíveis e de medidas que reduzirão a demanda de capital por parte das empresas. O certo é que nenhum País consegue ter um desenvolvimento acelerado com uma elevada taxa de juros, que cria toda uma série de obstáculos à produtividade das empresas.

 

Repórter: O senhor está convencido de que vem conseguindo atingir os objetivos de sua política?

 

Delfim Neto: Qualquer convicção neste terreno terá de basear-se nos resultados obtidos em função dos objetivos anunciados. E quais foram eles?

 

1. Anunciamos que nossos esforços se orientariam no sentido de alcançar um crescimento da ordem de 6% no Produto Nacional Bruto e o alcançamos. O crescimento industrial foi de 12% e o agrícola se estabilizou nos níveis do ano anterior, apesar da redução de 25% na safra cafeeira.

 

2. Anunciamos que conteríamos a inflação ao nível de 22%. Sabemos que ela se situou entre 24 e 25%, um pouco além da projeção estimada, porque tivemos de elevar o IPI e o ICM, bem como antecipar na área cambial todas as correções que normalmente se transferem para o ano seguinte.

 

3. Anunciamos um esforço para aumentar em 125 milhões de dólares às nossas reservas de divisas e conseguimos.

 

4. Anunciamos uma série de estímulos para conseguir uma exportação superior a 1 bilhão e 700 milhões de dólares e obtivemos um recorde absoluto de nossas exportações em todos os tempos, pois nos aproximamos de 1 bilhão e 900 milhões, com grande impulso no item dos produtos manufaturados.

 

Repórter: Houve excesso nas importações e “déficit” na balança comercial?

 

Delfim Neto: Exportamos 1 bilhão e 900 e importamos 2 bilhões e 100. Mas acontece que só exporta quem importa: os grandes exportadores mundiais são os grandes importadores mundiais e isto não é segredo para ninguém desde o século XVIII. Um País em processo de desenvolvimento tem de ter “déficit” em seu balanço de contas correntes, porque isto significa que ele está recebendo recursos do exterior e não está financiando o exterior. Temos apenas de financiar com cuidado esse “déficit”, e foi isto o que ocorreu em 1968. Ao mesmo tempo, tornamos mais rigorosa a entrada de produtos supérfluos, cuja alíquota passou a uma taxação de 100%. As críticas segundo as quais essa medida foi adotada com atraso, explico que há mais de 60 dias ela tinha sido acertada com o Ministro Hélio Beltrão, mas decidimos só adotá-la depois de 31 de dezembro para impedir que os comerciantes com grandes estoques tivessem exagerados lucros, à custa dos consumidores. A medida só foi anunciada quando os estoques estavam no mínimo e depois que as vendas de fim de ano tinham sido feitas aos preços anteriores.

 

Repórter: Quais as perspectivas para 1969?

 

Delfim Neto: Pretendemos reduzir a taxa inflacionária, aumentar o índice do crescimento econômico, aumentar ainda mais as exportações, ampliar os níveis de emprego e os investimentos prioritários, ativar as obras básicas e reduzir o “déficit” orçamentário a um limite perfeitamente absorvível pelo próprio processo de desenvolvimento do País. Entramos no ano novo com uma série de medidas que permitirão ao Governo atingir de forma mais eficiente os seus objetivos de médio e longo prazos. Não são medidas contingenciais, mas sim novos instrumentos de ação capazes de impulsionar o progresso. São medidas harmônicas, adotadas de comum acordo com o Presidente da República e o Ministro do Planejamento. Existe uma harmonia e uma unidade de comando que conduzirão o País a concretos e excelentes resultados nos próximos meses. (MANCHETE N° 875)

 

 (*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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