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Hiram Reis e Silva

A Terceira Margem – Parte CCCLII - Epopeia Acreana 1ª Parte - IV


Espíritos da Tempestade (E. de Morgan, 1900).jpg - Gente de Opinião
Espíritos da Tempestade (E. de Morgan, 1900).jpg

Bagé, 24.11.2021

 


Homenagem Especial - III

 

Esta verdadeira ode aos heróis acreanos desco­nhecidos me fez engarupar na memória e rememorar uma canção de Francisco Alves, retratando as tropas de peões-soldados sempre dispostos a defender o nosso rincão, que se destacou, em 1981, na “XI Califórnia da Canção Nativa” chamada “Sabe Moço”:

 

Sabe Moço

(Francisco Alves)

 

Sabe moço que no meio do alvoroço

Tive um lenço no pescoço que foi bandeira pra mim

E andei mil peleias em lutas brutas e feias

Desde o começo até o fim.

 

Sabe moço depois das revoluções

Vi esbanjarem brasões pra caudilhos coronéis

Vi cintilarem anéis assinatura em papéis

Honrarias para heróis.

 

É duro moço olhar agora pra história

E ver páginas de glórias e retratos de imortais

Sabe moço fui guerreiro como tantos

Que andaram nos quatro cantos.

 

Sempre seguindo um clarim

E o que restou, ah sim

No peito em vez de medalhas

Cicatrizes de batalhas.

 

Foi o que sobrou pra mim

Ah sim

No peito em vez de medalhas

Cicatrizes de batalhas

Foi o que sobrou pra mim.

 

O Paiz, n° 7.071 ‒ Rio de Janeiro, RJ

Domingo, 17.02.1904

Francisco Mangabeira

A Terceira Margem – Parte CCCLII - Epopeia Acreana 1ª Parte - IV - Gente de Opinião

Este poeta, que acaba de morrer aos vinte e cinco anos de idade, deixou cinco livros admiráveis; “Flâmulas”, poesias os poemas “Hostiário”, “Tragédia Épica” e “Santa Thereza”, além do volume de seus últimos versos. Era ainda estudante de medicina, quando partiu para Canudos e, logo depois de formado, seguiu para o Acre, de onde regressava enfermo, morrendo durante a viagem, no alto-mar, na mesma altura onde expirou Gonçalves Dias.

M. Teixeira

 

E então o pensamento; hoje sombrio,

Dos que te amavam com maior ternura,

Pousará, como um pássaro erradio,

Sobre o jardim de tua sepultura.

F. Mangabeira

 

O insigne poeta do “Hostiário”,

Que desfraldara as “Flâmulas” da rima,

Nos mastros de um navio solitário;

 

E abriu velas de seda em duro clima,

Mais generoso e belo que os piratas

E audaz como os califas de Fátima;

 

Ao tumultuar das multidões ingratas

Preferia as ameaças do oceano

E a escura solidão das nossas matas.

 

Era assim que o seu estro soberano

Procurava a fantástica beleza,

Que o seduzia num delírio insano...

 

E apareceu-lhe, então, “Santa Thereza”,

Vencida, nos seus êxtases sagrados,

Pelo rigor das leis da Natureza.

 

Seguiu pelo recôncavo os soldados

Que foram dar combate ao fanatismo,

Numa guerra infernal de alucinados....

 

Viu de perto as loucuras do heroísmo,

Aos sinistros listões dessa fornalha

Que transformou Canudos num abismo!

 

E ele, deixando o campo da batalha,

Tinha n’alma a tristeza do vidente

Que em plena juventude se amortalha...

 

Morrer moço ‒ é ficar eternamente

Na mocidade, aos olhos dos vindouros,

Alumiando do tempo a ação potente.

 

E quando a fronte juvenil tem louros,

Bela se ostenta em todas as idades,

Como o escrínio de incógnitos tesouros!

 

É trocar esperanças por saudades...

E na tela de um sonho emoldurado

Aureolar-se de vivas claridades! ...

 

Não quero mais amar, nem ser amado:

Parece-me que a Morte anda em procura

Daqueles que me inspiram mais cuidado!

 

Tenho visto cair na sepultura

Os que mais eu guardava na minh’alma,

Os que mais me sorriam de ternura! ...

 

Este... sonhou colher da glória a palma,

E dentro do seu Sonho de Poeta

Passou por nós, num ímpeto, sem calma.

 

Zuniu da morte a sibilante seta,

Ferindo a ave que melhor cantava,

E que longe do ninho errava inquieta.

 

Era tão cedo ainda... despontava

Apenas no horizonte dessa vida

O doirado porvir, que o deslumbrava!

 

E de tamanho anseio, em tanta lida,

Só nos resta a visão da mocidade

Na solidão funérea da jazida

 

Aspirações de amor e liberdade

Povoavam-lhe a mente, pois o seio

Ele tinha repleto do bondade.

 

Como era justo e bom! Ao mundo veio

Mostrar os dons do céu; e ao ver o mundo,

De nele se manchar teve receio.

 

Entornou-se-lhe n’alma o mais profundo

Tédio da vida, essa fatal doença

Que lhe emprestava um ar de moribundo.

 

Seu nostálgico olhar na esfera imensa

Procurava encontrar o que não via

Do planisfério na penumbra densa.

 

Era o romeiro ideal da Poesia,

Parando sempre ao pé dos que choravam,

Longe sempre da turba que sorria.

 

Nessa idade em que os outros mergulhavam

No oceano das paixões, de lá trazendo

Pérolas e corais, que ao Sol brilhavam,

 

Ele, escutando o ribombar tremendo

Da boca acesa dos canhões da guerra,

Foi na “Trincheira Negra” aparecendo...

 

Do renhido da luta não se aterra:

E só se curva ‒ para erguer nos braços

O ferido que vê rolar por terra! ...

 

Respeitavam-lhe a calma os estilhaços

Das granadas e bombas explosivas,

Que estavam sempre a embaraçar-lhe os passos!

 

Quando rompiam do triunfo os “vivas”,

Dos vencidos lembrando a triste história,

Metia-se nas selvas primitivas.

 

Vendo em sangue de irmãos tinta a vitória,

Deixava os vencedores, e sombrio

Ficava a meditar na luta inglória...

 

Desafiou mais tarde o clima ímpio

Das regiões aspérrimas do Norte

Dilatadas na hipérbole de um Rio.

 

Ousara o fraco provocar o forte:

Partiu... [partiu-me a alma essa partida!]

E foi sorrindo procurar a morte...

 

A Natureza, então, surpreendida

Por tanta audácia e tanta indiferença,

Invejando talvez tão bela vida,

 

Sugou-a, pela febre... e na doença

Foi-lhe roubando as forças, que hoje espalha

Pelos rebentos da floresta imensa!

 

Quando o tufão nas árvores farfalha,

Seu estro canta, numa lira estranha,

Como um clarim num campo do batalha.

 

O fluído universal nele se entranha;

E ora desce, a rugir, na “pororoca”

Ora se eleva ao topo da montanha!

 

A eterna lei do transformismo troca

Um ser por muitos seres, perpetuados

Numa lembrança, que a saudade evoca.

 

Como as virgens, que em bailes e noivados

Querem ficar dançando a noite inteira,

E voltam cedo aos lares apagados,

 

Quem sabe se aquela alma forasteira

Não queria ficar mais alguns dias

Presa ao calor da paternal lareira?

 

Por que partiste assim, quando sabias

Que esse orgulho e prazer que nos causavas

Em lágrimas e dor transformarias?!

 

Se eras por nós amado, e nos amavas,

A mim e aos teus, que aos teus me junto agora,

Como a eles outrora me juntavas;

 

E assim choramos por quem já não chora...

Meu Deus! Esta existência é só de enganos:

As rosas vivem pouco mais que a aurora...

 

E o cipreste feral ([1]) dura cem anos!

 

Rio, 08 de fevereiro de 1904

 

Múcio Teixeira (O PAIZ, N° 7.071)

 

Os Annaes, n° 98 ‒ Rio de Janeiro, RJ

Quinta-feira, 13.09.1906

A Livraria

Últimas Poesias”, por Francisco Mangabeira
Oficina dos dois Mundos ‒ Bahia, 1906.

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Imagem 02 ‒ Anjo da Morte Azrael (Evelyn De Morgan, 1881).jpg - Gente de Opinião
Imagem 02 ‒ Anjo da Morte Azrael (Evelyn De Morgan, 1881).jpg

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