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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

A Bomba do Terror


A Bomba do Terror - Gente de Opinião

Bagé, RS, 09.01.2026



 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 837, Rio de Janeiro, RJ


Sábado, 04.05.1968

 

A Bomba do Terror

 

Reportagem de Luís Carlos Leal



Fotos: O Estado de São Paulo

 

A noite era fria e uma garoa fina envolvia os arranha-céus do centro de São Paulo. No andar térreo do edifício do jornal “O Estado de São Paulo”, o porteiro Mário José Rodrigues estava junto ao balcão de anún­cios, lidando com o jornal mural. O relógio da seção de gravura marcava 03h02.

 

Subitamente, uma fantástica explosão arrasa a entra­da do jornal e atira Mário a dez metros de distância. A porta de aço passa voando sobre sua cabeça. O esto­uro é ouvido a cinco quilômetros. Janelas estilhaçam-se em toda a redondeza. Esta é a quinta bomba que abala S. Paulo em dois meses.

 

O Jornal “O Estado de São Paulo” Saiu às Ruas no dia Seguinte com uma Edição de 250 mil Exemplares e Advertiu que os Atos de Terrorismo Visam à Instauração
“da Ditadura Pura e Simples”

A Bomba do Terror - Gente de Opinião

O jornalista Raul Ciudicelli, de Manchete, estava no 21° andar do prédio e narrou o que viu e ouviu:

 

Eram quase três horas da manhã quando passei pela porta do jornal e entrei no Hotel Jaraguá, localizado no mesmo edifício. A rua estava deserta. Peguei a chave, tomei o elevador e, mal entrei em meu apartamento, fui sacudido pela explosão. Pensei em terremoto, em desa­bamento do prédio.

 

Tranquilizei-me quando vi o elevador funcionando. Desci ao térreo e tive uma visão de caos: escombros, vidraças partidas, um automóvel atirado longe, um coqueiro arrebentado, a porta arrancada. O porteiro estava desacordado, sangrando, e funcionários do jornal o socorriam. 

 

Apesar do impacto e da destruição; as equipes de O Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde não demons­travam qualquer confusão ou pânico.

 

Todas as ruas próximas estavam cobertas de estilhaços de vidraças. Carros da polícia circulavam rapidamente, as sirenas gritando a todo volume.

 

Essa foi a quinta bomba estourada em São Paulo nas últimas semanas, a primeira foi no Consulado dos Estados Unidos, a segunda foi desmontada antes de explodir no Departamento de Polícia Federal, a tercei­ra atingiu o elevador e o saguão da Força Pública e a quarta explodiu no prédio ao lado do QG do II Exér­cito, ferindo uma jovem. A quinta foi a mais potente de todas.

 

A polícia não revelou possuir qualquer pista sobre a autoria dos atentados.

 

Alguns responsabilizam os grupos extremistas da es­querda, que estariam procurando semear a confusão a fim de criar uma crise que, eventualmente, condu­zisse à derrubada do Governo.

 

Outros acusam os elementos radicais da direita, que teriam o objetivo de provocar o nascimento de condi­ções para um golpe ou, no mínimo, forçar o Governo a adotar uma linha de dureza e repressão. Seja qual for a verdade, o certo é que os semeadores de bombas querem a morte das conquistas democráticas.

 

Como disse “O Estado de São Paulo”:

 

Só os cegos não veem que a escalada terrorista nos aproxima da ditadura pura e simples.

 

Um Candidato Civil

 

No Amplo Apartamento do Copacabana Palace, Dois Homens Conversam. Um é Civil, o Outro, Militar. Não Se Conheciam Muito, mas Agora Terão de Conviver e Atuar Juntos. Precisavam Dessa Conversa. Quando Desceram Para Enfrentar os Jornalistas em Torno da Piscina, Estavam com os Ponteiros Ajustados. O Governador Abreu Sodré e o General Carvalho Lisboa Haviam Decidido Lançar uma Ponte Para o Diálogo Entre o Governo, os Trabalhadores e os Estudantes. Mais Ainda: Tinham Ambos Ideias Muito Precisas e Muito Afinadas Sobre a Possibilidade de uma Candidatura Civil Para a Sucessão do Marechal Costa e Silva em 1970.

 

Quem é o General Manoel Rodrigues de Carvalho Lisboa? Ele foi, como Comandante da Infantaria Divisionária do Estado do Rio, uma peça decisiva no Movimento de 31 de Março. Depois veio para o comando da Vila Militar, em substituição ao General Jurandir Mamede. E, nas últimas promoções, chegou a General-de-Exército, juntamente com o General Souto Malan, deixando para trás os Generais Carlos Guedes, Moacir Araújo Lopes e Álvaro Tavares do Carmo.

 

Trata-se de homem importante no esquema militar vigente. Centenas de oficiais indicaram-no agora para candidato à Presidência do Clube Militar. Tem grande ascendência e prestígio junto à jovem oficialidade sobretudo na área dos Coronéis. Aliás, um deles, Rui de Castro, insinuara, recentemente, a possibilidade de uma candidatura civil em 70. E quando se fala nisto ninguém deve esquecer as possibilidades do Sr. Magalhães Pinto. O General Carvalho Lisboa é muito ligado tanto ao General Jaime Portela, chefe do Gabinete Militar da Presidência, como ao próprio Presidente Costa e Silva, mantendo com ambos laços de profunda e íntima amizade. Considera-se perfeitamente ajustado com o pensamento dos dois.

 

Inicialmente devia comandar o I Exército. Mas terminou indo para o II, que apesar de não ser tão forte quanto o I ou o III, é estrategicamente importante e decisivo, porque os dois não se comunicam sem passar por ele, que está no meio. O General Amaury Kruel, que exerceu esse comando em 64, que o diga. A posse do General Carvalho Lisboa no II Exército coincidirá com a vinda do General Siseno Sarmento para o I e com a ida do General Souto Malan para o comando do IV, no Recife, onde também deverá empossar-se o General Gomes Tinoco como Comandante da 7ª Região Militar, em substituição ao General Rodrigo Otávio.

 

Esse remanejamento, periodicamente normal nos altos escalões, inclui ainda a posse do General João Bina Machado na subchefia do Estado-Maior slo Exército, a permanência do General Dióscoro do Vale no comando da 3ª Região Militar em Porto Alegre, e a vinda do General-de-Exército Rafael Aguiar, do Recife, para importante posto. Nas próximas promoções a General-de-Exército estão desde já muito cotados os Generais-de-Divisão Garrastazu Médici e Moniz de Aragão, pois o General-de-Divisão José Horácio da Cunha Garcia, que comanda a 1ª Região Militar e interinamente o 1° Exército, deverá cair na compulsória em dezembro. É nas areias movediças desse quadro que o General Carvalho Lisboa assume o Comando da Guarnição de São Paulo e antes de fazê-lo, acerta-se com o Governador Abreu Sodré, cuja habilidade já o havia ajustado com o General Siseno Sarmento, levando-os a uma atitude de firme compreensão e liberalismo nos incidentes com os estudantes.

 

Qual é, em síntese, a posição do Governador de São Paulo e do novo comandante do II Exército?

 

1)  O atual Governo está interessado no restabelecimento do poder civil como condição para um candidato também civil em 1970.

 

2)  A rebeldia dos estudantes é fenômeno universal e não deve ser reprimida com violência.

 

3)  Deve ser mantido o diálogo com operários, estudantes e sacerdotes, desde que eles não sejam extremistas nem queiram subverter a ordem e a autoridade, como aconteceu com as cinco bombinhas que lá já explodiram.

 

4)  As velhas lideranças devem reconhecer que chegou o momento de compreender e estimular os jovens a assumir suas responsabilidades.

 

Durante uma ofensiva de 48 horas na Guanabara, o Sr. Abreu Sodré deixou plantada a semente da candidatura civil. Já um dia antes do seu encontro com o General Carvalho Lisboa, ele havia dito aos jornalistas que uma ala ponderável de militares era favorável ao candidato paisano em 1970. E acrescentou, entre outras coisas:

 

I.     Com a viagem do Sr. Carlos Lacerda, confirma-se minha previsão de que a Frente Ampla terminaria se dissipando.

 

II.  O Brigadeiro Faria Lima é popular, está com prestígio e comprou bilhetes nas loterias estadual e federal.

 

III. Não sou como muita gente que fala no sacrifício de ser Governador ou Presidente. O poder é sedutor e essencial, porque só nele conseguimos realizar alguma coisa pelo povo.

 

IV. Não sou necessariamente candidato, mas poderei apresentar-me se, em determinado momento, se minha candidatura for útil ao País.

 

Mas a verdade é que o Governador Paulista prepara-se cuidadosamente para ser o candidato. Após os primeiros e terríveis meses de Governo, quando sua popularidade quase chegou a zero com o desgaste provocado por sucessivos erros, entre os, quais o da nomeação do Coronel Fontenelle para dirigir o tráfego, ele parece agora envolto numa atmosfera de ampla recuperação. Seus índices de popularidade subiram de 35% para 62%, inclusive no difícil reduto do ABC. Com a atitude assumida no caso dos estudantes deverá ter subido ainda mais. E poderá melhorar um pouco com sua presença no comício marcado para o dia 1° de maio. Ele parte agora para:

 

A.    Uma ofensiva de administração, que consiste sobretudo em espalhar escolas, estradas, pontes, hidrelétricas e hospitais por todo o interior.

 

B.    Uma ofensiva política, que consiste em reaproximar-se dos Srs. Faria Lima, Carvalho Pinto e Laudo Natel, recompondo assim o quadrilátero das mais poderosas forças populares do Estado.

 

A posição do Governador de São Paulo não é antagônica à do Governo Federal. Ele fez questão de dizer isto ao próprio Presidente da República, num encontro a portas fechadas, quando lhe comunicou inclusive que havia dado permissão para o comício de 1° de maio e que estaria presente nele, como trabalhador número um de São Paulo. Solidarizou-se também com o projeto que considera 68 municípios brasileiros incluídos na área de segurança nacional, sendo dois de São Paulo: Cubatão e São Sebastião. Entende que, pelo menos no seu Estado, o critério foi exclusivamente técnico e militar, sem quaisquer conotações ou interesses políticos, porque municípios eleitoralmente importantes como Santo André, São Bernardo e São Caetano, inicialmente relacionados, não foram atingidos pela medida.

 

Não acho que a autonomia municipal ou o regime democrático estejam perdidos só porque Cubatão e São Sebastião não podem mais eleger o prefeito. Recife e Natal, até há pouco tempo, também não tinham Prefeitos eleitos e nem por isto o Brasil acabou.

 

Discorda ele de quaisquer iniciativas, como a do Senador Dinarte Mariz, que visem reformar a Constituição. Trata-se de um livrinho, que, na opinião do Marechal Dutra, tem tudo e a tudo prevê. Não há necessidade de nenhum recurso estranho ao seu contexto.

 

Na ordem de suas considerações, a Frente Amplíssima, que incluiria parlamentares (Rafael de Almeida Magalhães, Martins Rodrigues, Edgar da Mata Machado), professores (Sobral Pinto e Amoroso Lima), artistas (Tônia Carrero, Oduvaldo Viana Filho), sacerdotes (Padre Melo e D. Hélder), poderá ter a mesma sorte da antecessora, isto é, dissipar-se aos ventos. (MANCHETE N° 837, 04.05.1968)

 

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

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