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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

31 de março de 1964 (Parte II) - Saber Ganhar (David Nasser)


31 de março de 1964 (Parte II) - Saber Ganhar (David Nasser) - Gente de Opinião

, Bagé, RS, 27.03.2019

 

“Dificilmente haverá personalidade mais rica e mais completa do que a do Presidente Castello Branco, que aliava a energia do chefe à visão do estadista. Era dos que conservavam autoridade inata, embora havendo bebido o leite da ternura humana”. (Luís Viana Filho)

 

Revista O Cruzeiro, n° 000

Rio de Janeiro, RJ – Sexta-feira, 10.04.1964

Saber Ganhar

(David Nasser)

 

A

gora, eles sabem que a sua espada não é de pau, meu velho Capitão, e eu volto o pensa­mento até aquele quarto da casa paulista, on­de as suas mãos trêmulas escreviam a história deste País, dizendo-me. “Péter pius haut que son cul”.



 

A

gora, eles sabem que a sua doença democrá­tica só tinha este remédio. Deputado João Calmon, quando você, na sua admirável tei­mosia, recusava todo e qualquer acordo e desfralda­va a bandeira suicida. Se teríamos que morrer ver­gonhosamente amanhã, que morressemos com hon­ra, hoje.



 

A

gora, eles sabem que as suas palavras não eram simples filigranas verbais. Governador Carlos Lacerda, homem afirmativo, líder más­culo, democrata autêntico, brasileiro enlouquecido de amor à sua Pátria – e que se desesperava ao vê-la conduzida ao curral das nações arrebanhadas. Meses a fio, exposto na primeira linha, combatente de vanguarda, sabendo que a cada esquina um novo perigo o esperava, você, meu bravo companheiro, só teve um guarda-costas: Deus. O capanga divino, que com a sua infinita sabedoria enguiçava o carro do Faz-Tudo, iluminava o espirito dos coronéis, cobria de lucidez a decisão dos pára-quedistas, evitava a sua eliminação, o caminho aberto, supunham eles para a fácil conquista de um resto de Pátria. Mas eles estavam enganados, sempre estiveram enganados, continuam enganados. Nenhum de nós era essencial, qualquer de nós, bem ou mal, seria substituído, mes­mo você, grande e insubstituível Carlos Lacerda. Não se matam ideias.

 

A

gora, eles sabem que a sua intransigência de­mocrática jovem Adhemar de Barros, moço governador de uma terra indomável, agora eles sabem que a fé o rejuvenesceu, o espírito de lu­ta o retemperou, e você, moço Adhemar, sejam quais forem os erros do passado, a todos redimiu na bravura de sua última jornada. Mil vezes você, com todos os pecados, Adhemar, diabo velho! Mil vezes você que aquele falso honrado, Jânio Quadros, até agora escondido debaixo da cama, à espera de que a última cidadela se renda, que o último homem se defina. Ah, tivéssemos nós ensarilhado as armas, ti­véssemos nós tido piedade dos canalhas, tivéssemos nós permitido com o nosso silêncio que eles voltas­sem – e quem se encontraria, agora, no governo de São Paulo? A cachaça cívica, o fauno de Adelaide, o entreguista Jânio Quadros, responsável primeiro pela guinada do Brasil para o Oriente, aliado dos comu­nistas, traidor de sua Pátria. Graças a Deus à Provi­dencia de que nos fala Adhernar, como o instrumen­to divino, foi buscar no museu dos canastrões, o canastrão maior – você, velho, passado, cansado, desonrado, reabilitado, contestado, esquartejado, encarcerado, processado, libertado, envergonhado, ressuscitado, reabilitado – e agora nunca demais exaltado Adhemar de Barros. A História, se alguma verdade houve no balanço dos seus erros, a história o passou por seu banheiro carrapaticida. E o futuro o julgará pela importância de sua luta na redemocra­tização de sua Pátria.

 

A

gora, eles sabem que a sua coragem não se conta pelos fios de cabelo, ó indecifrável Magalhães Pinto, mineiro silencioso, patriota humilde, General sem farda de um dos movimentos mais perfeitos da história revolucionária. O Brasil nunca se esquecerá que o primeiro grito foi seu, o primeiro gesto de um “ballet” inesquecível, o pri­meiro passo da longa marcha democrática.



 

A

gora,eles sabem que os três anos de silêncio do General Mourão não significavam três anos de capitulação, mas três anos de conspiração, três anos de prudência, três anos de silêncio – para o grande despertar da nacionalidade. Alguns Generais que pareciam anestesiados – hoje o sabemos – esta­vam apenas de vigília. Luiz Guedes, Castello Branco, Costa e Silva, Décio Escobar, Correia de Melo, tantos Generais, tantos Brigadeiros, tantos Almirantes jura­dos na intransigente defesa da democracia brasileira.



 

A

gora, eles sabem que aquelas medalhas exibi­das pelo General Amaury Kruel não eram de lata nem foram conquistadas noutro campo que não fosse o de honra. Eles sabem, meu bravo Kruel, que, acima de sua fidelidade a um homem, você colocava a lealdade à sua Pátria ameaçada por um bando de canibais políticos.



 

S

abíamos, todos que estávamos na lista negra dos apátridas – que se eles consumassem os seus planos, seríamos mortos. Sobre os democratas brasileiros não pairava a mais leve esperança, se vencidos. Uma “razzia” de sangue. vermelha como eles, atravessaria o Brasil de ponta a ponta, liquidando os últimos soldados da democracia, os últimos paisanos da liberdade. Onde estaria Carlos Lacerda a esta hora? Onde estariam Adhemar, Calmon, Armando Falcão, Castello Branco, Mourão, Gustavo Borges, Anísio Rocha, Alkimin, Magalhães Pinto, Ney Braga, Costa e Silva, Décio Escobar, tantas, tantas vozes e tantas espadas que não se calaram, não se embainharam em todos esses longos meses da comunização do Brasil? Se outros fossem os vencedores, não haveria contemplação.



 

A

virtude da democracia está em saber ganhar. Em seu nome, em nome da Democracia, não se pode permitir que a injustiça se pratique em nome da justiça. que sejam anulados, sem pro­cesso legal, os mandatos populares, que a Consti­tuição seja rasgada em nome da Constituição.



 

T

odos sabem o despreso vegetariano que voto a certos homens que compunham o cerne desse Governo que caiu. Mas – advertiu na sua crista­linidade política o próprio Governador da Guanabara – um democrata autêntico não odeia um homem, odeia uma ideia. Odeia, não a figura ridícula de um Ministro comendo feijoada e bebericando enquanto a lama corria sob os pés de um regime vilipendiado. Odeia, não os gestos febris de um adolescente polí­tico saído de uma taba espiritual para a Casa Civil da Presidência. Odeia, não aquelas figuras tenebrosas do CGT ([1]), aqueles pobres moços ensandecidos da UNE ([2]), aqueles sargentos equivocados, mas tudo o que a ideia que eles defendiam, honesta ou estupida­mente, representava.



 

N

ão é porque eram criminosos, que em crimino­sos vamos nos transformar. Não é porque representavam o totalitarismo, a radicalização, o que de mais vergonhoso, mais sórdido, mais brutal e mais brasileiro pudesse existir no Brasil que deve­mos nós, os democratas, pedir-lhes as armas e às usar com a mesma ausência de liberalidade demo­crática. O que nos diferencia deles é justamente isto. O mesmo que diferencia a carniça que eles são do abutre que não somos.



 

N

ão significa que os criminosos não devam ser punidos nem os responsáveis irresponsabiliza­dos. Significa que cada um pague pelo que fez, não pelo que foi. Ninguém tem culpa de ter sido Ministro de um Governo legalmente eleito, constitu­cionalmente organizado. Ninguém tem culpa de ter sido Ministro de João Goulart, nem mesmo o Senhor Abelardo Jurema.



 

O

que me enoja não é ver os ratos fugirem do navio que se afunda, mas aqueles que ontem lhes comiam a comida, ajudar a matá-los.



 

P

arte o Senhor João Goulart para Porto Alegre, pa­ra o Uruguai, para a Espanha, sem o meu ódio. Nunca consegui odiá-lo – e até hoje – per­mita-se a um adversário de suas ideias e de seus métodos confessar após o crepúsculo de um deus que tinha os pés de barro – não o consigo odiar. Vejo-o ainda, no seu pequeno trono do Alvorada, co­mo um pobre homem, incapaz de governar, de distinguir amigos de aproveitadores, inimigos de oponentes

 

C

aiu porque em seu espírito engarrafado pela mediocridade mais positiva deste País, nunca deixou de existir o estancieiro que contava os aliados como quem conta o gado no curral.



 

C

aiu porque acreditou que aqueles que lhe faziam planos de continuismo, acenando com o poder sindical, com o dispositivo militar, acreditavam no que diziam. E lutariam por tudo aquilo que o Senhor João Goulart acreditava. Mas o Senhor João Goulart não acreditava realmente em nada. A não ser na sua boa estrela, que era a estrela vermelha.



 

R

ecuso-me a pisar sobre os cadáveres morais desses homens sobre os quais, com o risco da própria vida, dentro das limitações que me eram impostas par uma organização que eles ameaçavam destroçar, tantas vêzes caminhei pela estrada que nos conduzia ao imprevisto de um fim melancólico ou de uma liberdade sonhada.



 

N

ão será em nome dessa liberdade conquistada que iremos tripudiar sobre os vencidos. Aqueles que eram comunistas, continuarão a sê-lo, talvez com menos esperança. Aqueles que eram os pobres enganados dessa República – talvez abram os olhos, se os vencedores não procederem com a mesma fúria, o mesmo despotismo, a mesma insensibilidade daqueles que nem por isto deixaram de ser brasileiros e possivelmente democratas equivocados. A compreensão e a justiça talvez os ajudem a abrir os olhos.



 

W

ilson Figueiredo conta que, em plena ocupa­ção do velho órgão da Condessa, um fuzileiro pediu para telefonar para a mulher a quem não via há três dias de longa e sofrida prontidão. Não apenas deixaram o invasor telefonar, mas lhe serviram um cafezinho bem brasileiro. Nesse momento, também, o Brasil estava voltando a ser brasileiro.



 

P

ois é esse cafezinho brasileiro que devemos servir aos que erraram por acreditar demais ou erraram por acreditar de menos. Respeitemos as suas famílias, as suas ideias falsas, e apuremos apenas os possíveis crimes. A menos que voltem a ser inimigos, a se se constituirem em vírus vivos – os inimigos vencidos deixam de ter nomes.