Porto Velho,
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Sandra Castiel

Sandra Castiel é natural de Porto Velho. Professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Mestre em Educação. Membro da Academia de Letras de Rondônia.

O FIM DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO DA ESTRADA DE FERRO MADEIRA MAMORÉ

15/03/2012 - [06:06] - Opinião

 

O ser humano possui em comum os sentimentos: quem não guarda objetos que lhe são caros, porque remetem à lembrança de alguém importante ou a momentos inesquecíveis?

Você já imaginou, caro leitor, se pessoas de fora ocupassem sua casa e, em sua presença, jogassem no lixo objetos que, para você, possuem valor afetivo, deletassem de seu computador suas imagens mais preciosas, rasgassem as fotos de seus álbuns antigos, queimassem seus livros, pisassem na figura da santa por quem você nutre especial devoção, ou atirassem sua bíblia na lama? ...

Isto seria o mesmo que tentar apagar suas pegadas, sua trajetória, os indícios de sua existência; seria o mesmo que passar uma borracha no mundo onde você se reconhece - um mundo que você ajudou a criar. Tudo isso porque ignoram sua história, não respeitam seu passado, não sabem o significado que aquelas referências têm para você e, certamente, terão para seus descendentes, cuja identidade será construída também a partir dessas referências.

Esta comparação, embora simplória, nos leva à dimensão do que está ocorrendo com o patrimônio histórico de Rondônia. Ao longo dos anos, autoridades deste estado simplesmente ignoram a importância desse patrimônio, numa demonstração de descaso para com bem tão precioso e afronta para com os sentimentos das pessoas que amam esta terra e que a ela se sentem integrados.

Recentemente, a população foi surpreendida com as notícias advindas dos danos ao patrimônio histórico da Madeira Mamoré e ao ambiente natural causados pela hidrelétrica de Santo Antônio.

Daqui de meu cantinho de observadora, sempre considerei detestável a ideia de uma construção desse porte, uma agressão fatal à natureza, ao nosso exuberante, belo e caudaloso rio Madeira. Jamais fiquei empolgada com a perspectiva de contrapartida a Rondônia; não acreditei que a tal contrapartida pudesse, efetivamente, melhorar a qualidade de vida da população, e estava certa.  Considero a natureza o maior dos santuários do planeta, fonte da qual viemos todos; há que se preservá-la acima de tudo.

A comunidade intelectual de Rondônia tem acompanhado com perplexidade os danos causados ao que restou do patrimônio histórico da Estrada de Ferro Madeira Mamoré: a centenária ponte metálica sobre o rio Jacy está com as estruturas ameaçadas de erosão por um valão aberto pela UHE Santo Antônio na cabeceira da ponte. A ponte de Jacy Paraná e a de Mutum Paraná foram importadas dos Estados Unidos no início do século XX; são relíquias emblemáticas de uma obra grandiosa que ceifou muitas vidas e deu origem à cidade de Porto Velho, capital do estado.

O mesmo descaso foi dispensado ao histórico Marco Rondon, cuja localização era nas proximidades da barragem, a jusante do empreendimento. O Marco Rondon simplesmente desapareceu.

As povoações ribeirinhas estão sofrendo com a queda dos barrancos às margens do rio Madeira. Os peixes estão sumindo. A BR- 364 está sendo atingida.

É hora de unirmos forças. É hora de lutarmos, juntos, em prol de uma causa maior: salvar o que restou de nosso patrimônio histórico e buscar, através dos canais competentes, apurar responsabilidades pelo descaso e pelos danos causados à natureza e à vida. Afinal, vivemos todos aqui, sob os céus de Rondônia. Cabe a nós, cidadãos, garantir a proteção de nossa amada terra!...   

Comentários

  • IDENIR ANGELIM - 08/05/2012

    É TRISTE VER O FIM DE UM PATRIMÔNIO,MAS O MOTIVO PELO QUAL ESTOU ESCREVENDO É PRA PREGUNTAR SE A SENHORA FOI MINHA PROFESSORA DE LITERATURA NO CARMELA DUTRA? EU PARTICIPEI DE VÁRIAS PEÇAS TEATRAIS COMO: A BRUXINHA QUE ERA BOA,O LEÃO CANTOR,O JACARÉ EGOÍSTA...

  • manuel coelho - 17/03/2012

    CASARÃO DA DISCÓRDIA - Gente de Opiniãornwww.gentedeopiniao.com.br

  • manuel coelho - 17/03/2012

    Marco Antônio Domingues Teixeira e Ronne Charles ,eis uma questao para quem de direito e em letras grandes:.. O ESTADO DE RONDONIA ATRAVES DA CONSTITUINTE ARTIGO 264...TOMBOU COMO SITIO DA VILA DE SANTO ANTONIO,O QUE INCLUIA O CASARAO........2 -A ESTRADA DE FERRO FOI TOMBADA PATRIMONIO NACIONAL, NIVEL FEDERAL DO KM 0 AO KM 8, EM O CASARAO ESTA INCLUIDO NA AREA DE ENTORNO DE 150 METROS CONFORME, PORTARIA 108 DE 28/12/2006 PELO MINISTERIO DA CULTURA E PELA PORTARIA 231/2007 TOMBAMENTO DO IPHAN.......3~- NO PARAGRAFO DA MATERIA ACIMA, AFIRMA QUE O CASARAO..TEM DONO ......... E QUE A SPU ENTROU NA AGU COM PROCESSO DE REINTEGRAÇAO DE POSSE ........................ENTÃO A PERGUNTA É??????? SE E TOMBADO...TEM DONO.......O IMOVEL NAO E DA UNIAO, ......QUEM DIABOS DEU AUTORIZAÇAO A SANTO ANTONIO ENERGIA , PARA QUE ELA SE APOSSASSE E FIZESSE O QUE BEM ENTENDESSE COM UM IMOVEL QUE NAO LHE PERTENCE...?????QUEM????QUEM???? apropriaçao de propriedade privada,,,,e outros...QUE COISA....rn-rnNa mesma materia se extrai outro assunto polemico,,".....no entendimento do SPU, o Casarão está construído na faixa de 150 metros às margens da extinta ferrovia Madeira-Mamoré, que são patrimônio do país....."...AFINAL TEMOS QUE ADMITIR CONFLITOS DE INTERESSES ENTRE INSTITUIÇOES PUBLICAS, SE O PATRIMONIO DA UNIAO DIZ QUE É HISTORICO...PORQUE O MINISTERIO PUBLICO DE RONDONIA ABRIU UMA PROCESSO PARA AVERIGUAR TAL HISTORICIDADE?????????????????????? QUEM MANDOU ABRIR ESSE INQUERITO..?rn.

  • Zola Xavier da Silveira - 15/03/2012

    Sandra voce deu, para mim, o pontapé inicial das comemorações do centenário da lendária Madeira Mamoré. Só assim poderemos ser justos com o passado e o presente, não vejo outro modo. O Montezuma fala do Harakiri cultural protagonizado pelas sucessivas administrações, mas penso que tratá-los com indiferença é pouco. Creio que sua crônica assume a dimensão de um manifesto!

  • Ivo Feitosa. - 15/03/2012

    Sandra, parabéns pela sua crônica e mais ainda pela artística fotografia que engrandece o texto.rnÉ muito triste a situação em que se encontra o patrimônico da extinta EFMM.rnOuvi em uma rádio local o Pres. do IPHAN falando à população sobre as comemorações dos 100 anos da Estrada de Ferro Madeira Mamoré.rnPelo que me consta já foi desativada no ano de 1972 (são 40 anos). Agora eu pergunto: Comemorar o quê ?rnConvidar autoridades de outros Estados para verem os escombros do que um dia foi a Estrada de Ferro Madeira Mamoré ? É este patrimônio que querem torna-lo patrimônio da humanidade ? "Vagões e litorinas que servem de locais para que as pessoas evacuem" - (Viriato Moura - Viva Porto Velho).rnSe era para se comemorar que os órgãos governamentais tivessem preservado a riqueza que funcionou há vários anos do que originou a Estrada de Ferro.rnSó mais um comentário, no ano de 2005 a Rede Globo juntamente com o Governo do Estado, investiu na produção da mini-série Mad Maria, foi feito todo o set da filmagem e nem mesmo a cidade cenográfica ficou de lembrança e hoje não temos nada sobre essa mini-série, nem mesmo a Globo fez a edição em DVD/CD.rnTaí a grande importância do investimento ...rnFaçamos ao menos a campanha de reativação do que resta do relógio francês, instalado na torre do prédio da administração da EFMM, sem funcionar a há vários anos.rn

  • Montezuma Cruz - 15/03/2012

    Quem viu , viu; quem não viu, se quiser, lê a História. Para salvar o que resta, só Deus, estimada Sandra. Difícil, embora não impossível, crer que os órgãos públicos e a Justiça acendam uma luz para alcançar a graça do entendimento e do respeito por tão notável patrimônio. Você diz: "Ao longo dos anos, autoridades deste estado simplesmente ignoram a importância desse patrimônio, numa demonstração de descaso para com bem tão precioso e afronta para com os sentimentos das pessoas que amam esta terra e que a ela se sentem integrados." Ou seja, agrediram a si próprios, mesmo nhão percebendo os efeitos que isso lhes causou ou causará. Julgá-los não é nossa tarefa, entretanto podemos olhá-los com indiferença, sim.

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