Terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 - 08h07

Era um
menino igual a tantos outros da pequena cidade onde vivia com os pais e irmãos,
às margens dos caudalosos rios amazônicos. As brincadeiras, como era comum no
Brasil dos anos sessenta e setenta, giravam quase sempre em torno de uma bola. Porém,
mesmo em uma partida de futebol, no campinho da escola, o menino parava no meio
do drible, quando ouvia o som de um avião que passava pelos céus da cidade.
— Omar! Ei, Omarzito, acorda! — Gritavam os colegas, em vão… As vozes se perdiam
carregadas pelo vento; a atenção e os olhos castanhos de Omarzito estavam
longe, fixos no céu, acompanhando cada movimento do pequeno avião que sobrevoava
a cidade. Inebriado, imaginava-se sentado
no lugar do piloto, no controle do manche, fazendo piruetas, provocando
rasantes sobre o campinho de futebol e acenando para todos. Voar era o seu
sonho!
O
tempo, um dos encantados da grande Amazônia, vive deitado ao pé das cachoeiras do
maior rio do mundo e de seus afluentes. Tal como a força das águas, sua força é
demolidora, incessante, turbulenta, irreversível: passa por tudo que existe, passa
para todos os seres viventes; seu legado é a efemeridade de tudo o que há. Assim,
o tempo passou para o menino Omar, que então já era um homem casado, pai de
família e eficiente bancário na cidade onde nascera e crescera.
A rotina de um funcionário de banco, no
passado, era igual, dia após dia, mês após mês, ano após ano... Para Omar, passar
a vida a percorrer os mesmos caminhos até a aposentadoria, significava caminhar
no interior de um túnel sombrio, para um lugar distante, onde o sol não
brilhava, onde o céu não era azul, e a vida era nada. E o sonho?
O sonho não havia morrido, só estava à
espera do momento mágico que inesperadamente chegou: um avião monomotor, o
avião de seus sonhos de menino!
“Todas as pessoas grandes foram um dia
crianças — mas poucas se lembram disso.” Foi assim, com a curiosidade de uma criança,
que o aviador montou o quebra-cabeça de mil pequenas peças que completavam a
bela imagem de um avião e toda a sua engrenagem. E um dia, quando o azul da
calmaria cobria o cėu iluminado pelos raios dourados do sol, o piloto finalmente
pôde abrir as asas sobre o verde exuberante da mata amazônica. Deixou para trás
a monotonia da vida estável e lançou-se em direção ao desconhecido infinito.
O
aviador, então, ganhava o pão, voando sobre a Amazônia, deleitando a alma com a
visão familiar daquele oceano verde, quase sem fim, dos rios que serpenteiam como
veias pulsantes no coração da floresta, no coração de um homem sonhador. Até
que a dura realidade da vida, tal como águas insanas, fez com que o sonho
resvalasse no precipício da desesperança; sem floresta, sem cores de aquarela, sem
o mavioso canto das aves… seus encantos
de criança! Foi assim que o aviador
chegou à maturidade: doente, tristonho, exausto…
E, um dia, partiu deste mundo.
Dizem que, de vez em quando, o som de um avião monomotor voando baixo pode ser ouvido pelas crianças que jogam futebol no campinho da escola, onde jogava o menino cujo sonho era ser aviador.
“Eu sou ...
a grama molhada,
sou as botas sujas do
barro de todas as pistas da Amazônia,
sou a glissada do final
da tarde,
sou o cheiro do blusão
de couro,
com as costas gastas e
as golas puídas,
do chapéu molhado dos
pousos nas cercanias das matas,
sou a face da morte nas
cabeceiras de pistas de garimpo.”
Omar Morhy Neto
(1952 -2008)
* Antoine de Saint -Exupéry -O Pequeno Príncipe
Terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)
Na juventude, tive uma paixão devastadora por um escritor bastante conhecido no universo das letras. Jamais havia sentido pelos namoradinhos da époc

CONTINHOS MARGINAIS IV - BABA DE MOÇA
Ele a conhecia de vista. Moravam no mesmo bairro, passavam pelos mesmos lugares, todas as manhãs. Ela há muito estava de olho nele: alto, olhos clar

Literatura: escritores e estilos
I “Espero que não a tenha perturbado, madame. A senhora não estava dormindo, estava? Mas acabei de dar o chá para minha patroa, e sobrou uma xíca

Continhos marginais II - O terremoto e as flores
Empresária e rica, sua casa era uma alegria só: vivia entre filhos jovens, entre amigos e amores (estes, um de cada vez, enquanto durasse a paixão).
Terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)