Terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Opinião

SÓ UM CONTO A MAIS


Gente de Opinião

Luiz Albuquerque


Sua infância teve muita surra e pouca comida. Não lembrava se brincava. Do pai, lembrava quando ele veio e bateu na mãe, quase a matou. Depois a mãe se amigou com um homem que a bolinava, bebia muito e batia nela e nos irmãos. O primeiro filho veio aos treze anos, quando se entregou pela promessa de mudar de vida, que não aconteceu. O pai da criança sumiu; preso ou fugido. Nunca mais teve notícia dele. O bebê era mais um a encher a casa, mais despesas. Então passou a catar lixo junto com a mãe e o padrasto. Saiu de casa e foi morar com um pedreiro que não quis levar o filho por ser “fruto do pecado”, contrário ao que pregava a religião dele. Ela aceitou, não tinha outro jeito. Durante dez anos e seis filhos depois viu o marido crescer, virar mestre de obra e dono de firma. Viu-o construir outra casa, arranjar outra mulher, e ela passou a ser amante. A velhice galopava, ela sem vida nem futuro, vendo crescer os filhos, largados pelo pai. Resolveu reagir, foi estudar. Aprendeu a escrever, ler frases. Chorou como nunca ao receber um papel que dizia que ela estava alfabetizada. Saiu em busca de emprego, qualquer trabalho, mas ninguém contratava alguém sem experiência, sem nem o 1º grau completo. Passou a fazer bolos e doces que vendia numa banquinha, no centro da cidade, em frente a uma biblioteca, onde um dia ela entrou e pediu um livro para ler. A atendente perguntou-lhe qual livro e ela não sabia. Saiu correndo e chorando. A moça da biblioteca passou a comprar seus doces, fez amizade, indicou livros, convenceu-a a voltar a estudar. Não foi fácil. De dia na banca, de noite estudando. Na madrugada fazia doces. Pensou muitas vezes em parar, mas continuou. O Ensino Fundamental, o Médio, o vestibular. Os anos se arrastavam; o trabalho, a idade pesava. A faculdade. A formatura. Até o grande, sublime, fabuloso dia que, formada, foi aprovada num concurso. Assumiu a direção da biblioteca. Da janela, via uma mulher e uma banca de doces. Lá, no mesmo lugar que, por muitos anos, ela também estivera!

Luiz Albuquerque (Manaus/AM), EM Porto Velho desde 1979. É consultor comercial, escritor e  editou o projeto “Leitura no Ônibus”

Contatos:

fone (69) 9205-7003

E-mail: lccalbuquerque@gmail.com

Gente de OpiniãoTerça-feira, 10 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

O Diabo anda à a solta

O Diabo anda à a solta

A Altitude da Corrupção: As Elites, Epstein e a Derrocada Moral do OcidenteVivemos numa era de desnivelamento ético. Enquanto a maioria luta com as

Selvageria e bestialidade

Selvageria e bestialidade

Mais uma professora foi assassinada por um aluno dentro da sala de aula. Esse é o reflexo da onda de selvageria que domina a cidade de Porto Velho.

Adeus à vida através do suicídio

Adeus à vida através do suicídio

Para além dos Números da Escuridão que se espalha na Sociedade europeia Os recentes dados sobre suicídio na Alemanha e em Portugal não são apenas

Quando a violência invade o espaço do saber

Quando a violência invade o espaço do saber

Sexta-feira(06/02), algo terrível aconteceu dentro de uma Instituição de Ensino Superior.Uma professora de Direito Penal foi morta a facadas por um

Gente de Opinião Terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)