Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 - 08h50

Esquerda defensora do poder adquirido e Direita dividida
A candidatura presidencial de André Ventura, pelo partido CHEGA, coloca em evidência questões estruturais sobre o funcionamento da democracia portuguesa e a qualidade do debate político contemporâneo. O seu discurso, centrado no combate à corrupção, no reforço da autoridade do Estado e na crítica ao sistema partidário dominante, procura canalizar o descontentamento popular resultante de falhas governativas e de sucessivos casos que fragilizaram a confiança nas instituições. Também na União Europeia, durante campanhas se faziam acusações semelhantes a Meloni; Giorgia Meloni foi repetidamente rotulada como antieuropeia, neofascista e nacionalista, entre outros epítetos marcados pelo preconceito e pela retórica do poder. No exercício do governo, porém, Meloni desmentiu essas narrativas, revelando-se uma líder ponderada e uma defensora consistente dos interesses europeus...
O debate público até agora conduzido tem sido indigno de uma democracia adulta, independente da opção por um candidato ou por outro. A tendência para classificar candidatos como "antidemocráticos" apenas por se oporem ao bloco político dominante empobrece o espaço público e contradiz o princípio fundamental da soberania popular...
O peso da história e a hegemonia discursiva
Desde a repressão ideológica pré-1974 até à hegemonia discursiva consolidada no período democrático, verificam-se continuidades que merecem reflexão crítica. Neste contexto, a emergência de candidaturas disruptivas (que rompem com o status quo e o tom político socialista) pode ser interpretada menos como perigo sistémico e mais como sintoma das tensões entre o poder institucionalizado e setores da sociedade que se sentem excluídos do processo político.
O debate contemporâneo é profundamente influenciado pelas formas de comunicação e pelo enquadramento dos discursos que moldam a interpretação da realidade social...
Este fenómeno condiciona a perceção pública e contribui para a consolidação de um clima de desconfiança generalizada, com impactos negativos na qualidade do diálogo democrático.
Exigências institucionais e fragmentação política
Questões como o alinhamento militar de Portugal no quadro europeu, as relações com os países de língua portuguesa e o posicionamento numa geopolítica crescentemente multipolar exigem reflexão estratégica aprofundada (a sua ausência do discurso político revela que Portugal perdeu a consciência histórica europeia e a sua vocação marítima que deveria pressupor maior empenho nas relações com as antigas colónias e na perspetiva geopolítica o envolvimento mediador nos interesses do Ocidente e dos BRICS)...
Contudo, a delimitação do campo democrático à presença socialista levanta questões relevantes quanto aos critérios que se têm usado contra a legitimidade da candidatura de Ventura.
Os limites do discurso de exclusão
A oposição estabelecida entre "democracia moderada" e "extremismo" pressupõe uma definição normativa de democracia que tende a excluir, à partida, candidaturas posicionadas fora do eixo político dominante. Classificar determinados candidatos como intrinsecamente antidemocráticos, sem que tenham efetivamente violado mecanismos constitucionais, contribui para um empobrecimento do debate público e para a transformação da democracia num sistema de legitimação restrita, mais centrado na preservação do poder instituído do que na soberania popular...
Uma democracia saudável exige autocrítica permanente e abertura à renovação.
Corrupção: entre demagogia e exigência legítima
A exigência de maior eficácia do sistema judicial e de reforço da transparência institucional não implica, por si só, um ataque ao regime democrático, pelo contrário, constitui uma tentativa de o aprofundar.
Para além do fantasma autoritário
A crítica ao funcionamento do sistema democrático não equivale à rejeição da democracia enquanto regime, nem implica um desejo de regressão histórica. Uma sociedade democraticamente madura deve ser capaz de integrar discursos críticos sem os reduzir automaticamente a ameaças existenciais...
A democracia portuguesa não está em perigo pela existência de vozes críticas e de rupuras de padrões que rompem com o status quo. O verdadeiro risco reside na incapacidade de promover um debate plural, rigoroso e respeitador da dignidade de todos os intervenientes, condição essencial para a vitalidade de qualquer regime verdadeiramente democrático.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=
ONDE ESTÃO OS INTELECTUAIS QUANDO A DEMOCRACIA PRECISA DELES?
Quem cede o terreno das ideias, entrega o mundo aos que não pensam
Durante demasiado tempo, os intelectuais aceitaram um lugar confortável: o da sala de aula, o do livro especializado, o do seminário fechado. É um lugar respeitável, sem dúvida, mas insuficiente. Num tempo de inquietação social profunda, de polarização política e de discursos simplistas que dominam a esfera pública e um discurso político-social por vezes primitivo, a ausência dos intelectuais do debate vivo tornou-se um problema democrático.
Todas as profissões contribuem directamente para a sociedade. Trabalhadores, técnicos, empregados e profissionais de todas as áreas colocam diariamente o seu saber ao serviço do colectivo. Qual é a razão por que os intelectuais, filósofos, sociólogos, pensadores, académicos, se resignaram a ver o seu conhecimento filtrado pelas elites políticas e económicas, que o instrumentalizam de acordo com interesses próprios?
A função histórica do intelectual foi sempre a de clarificar o pensamento, de desmontar falsos dilemas, de resistir à manipulação ideológica. Hoje, porém, o espaço público está saturado de ruído emocional e cada vez mais dominado pelos megafones da confusão. A política deixou de se orientar pela razão e passou a disputar audiências através do medo, da indignação e da moralização simplista. Tanto à esquerda como à direita, triunfam os apelos emocionais, porque rendem mais votos do que a clareza, ficando o povo cada vez mais na mesma.
A democracia paga um preço elevado por isso. Reduzida a uma aritmética grosseira, a maioria decide, a minoria obedece, perde a sua essência mais profunda: a democracia é, antes de tudo, cooperação, deliberação, reconhecimento da pluralidade. Não é um ponto de vista imposto, mas um processo partilhado.
Também os activistas precisam de reaprender esta lição. A militância que se limita à afirmação de pertença, à rotulação ou à indignação permanente empobrece o espaço público. Sem reflexão, sem teoria, sem capacidade de escuta, o activismo transforma-se em mais um ruído incómodo na praça mediática.
As redes sociais revelam, paradoxalmente, que existe interesse por debates mais profundos. Muitos cidadãos, mesmo aqueles jovens focados na carreira, no sucesso económico ou na realização pessoal, seguem discursos que escapam ao maniqueísmo dominante. O problema não é a falta de público; é a falta de mediadores intelectuais dispostos a sair da sua bolha. Naturalmente a tal decisão não é coisa fácil devido à exposição a ataques baixos.
Nos estúdios televisivos, a política tornou-se espectáculo com bastidores de cores narcisistas. Políticos hiper-activistas vivem da superfície e, como consequência, superficializam o público. A classe média, outrora espaço de reflexão e mediação social, adopta cada vez mais formas de comunicação rudimentares, empobrecendo o debate democrático, ao submeter-se ao espírito do tempo que nivela atitudes e hábitos pelo padrão mais baixo.
Onde estão os filósofos, os pensadores, os intelectuais capazes de criar pensamento claro num mundo cada vez mais nebuloso? A situação é tão doentia e confusa que seria de perguntar: estão ao serviço de quem?
O abandono da arena das ideias é uma capitulação silenciosa aos que as distorcem. A clareza pensante tem o dever de ocupar o espaço público, ou será tragada pela névoa do ruído e pelas sombras da ação cega.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=
MULTIPOLARIDADE E COLAPSO DAS ILUSOES NA EUROPA
Vivemos uma mudança histórica de grandes proporções. A ordem mundial que emergiu após a Segunda Guerra Mundial e se consolidou com o fim da Guerra Fria está a desfazer-se. O mundo caminha para uma realidade multipolar e a Europa não estava preparada.
Durante décadas, o Ocidente acreditou poder ditar as regras globais. Hoje, essa convicção esbarra numa realidade incontornável que é o poder a redistribuir-se. Estados Unidos, China, Índia e Rússia são actores centrais de um novo equilíbrio multipolar instável. Fingir que esta transformação não existe é um erro estratégico grave e que tem levado a EU a um caminho errado.
A Europa distraiu-se; não considerou a realidade geopolítica e em nome da abertura desestabilizou-se. No plano interno, a política da União Europeia, marcada por numerosas medidas intervencionistas sobre as tradições culturais dos Estados-Membros e obrigação de imigração descontrolada, revelou-se como promotora de um projeto de desconstrução da identidade cultural europeia, ao serviço de um ideal internacionalista, socialista e globalista. Essa orientação gerou um amplo descontentamento social, mobilizando cidadãos tanto da esquerda como da direita. Tal convergência de críticas provocou uma significativa desorganização no panorama partidário, ao esbater as linhas divisórias tradicionais e revelar afinidades inesperadas entre forças políticas historicamente antagónicas. Na consequência, criou uma certa miscelânea entre capitalismo e socialismo assistindo-se à diluição das clivagens ideológicas clássicas. Deste modo aproximou discursos associados ao capitalismo e ao socialismo e enfraqueceu as fronteiras que anteriormente os separavam. Esse fenómeno provocou particular inquietação e agitação na esquerda, que via emergir, a partir dessa promiscuidade ideológica, o reforço da chamada direita populista.
A esquerda europeia, habituada a expor-se com brilho nos corredores do poder, encontra-se desorientada na era iniciada por Trump que congrega em sua volta as forças contra o globalismo. Também a sua base eleitoral tradicional, ligada ao trabalho, à indústria, à mobilidade social através do ensino superior, fragmentou-se. A promessa de ascensão social via universidade já não convence como antes. Em muitos países, o futuro deixou de ser visível nos lugares onde a esquerda costumava encontrar apoio.
Entretanto, as elites políticas e económicas parecem interessadas em enfraquecer a classe média e os sectores pensantes da sociedade. Quanto menor a capacidade crítica, mais fácil se torna a governação por pequenos círculos de poder, uma espécie de troika informal que decide acima dos povos. Até o jornalismo, por vezes, reflecte este espírito do tempo: um pedantismo travestido de igualitarismo, onde tudo é medido pela mesma rasoura, eliminando nuance e profundidade para se acomodar ao Zeitgeist e ao politicamente correcto.
A alternativa é ficar refém do jogo imprevisível dos Estados Unidos ou das rivalidades entre grandes potências. Nenhuma dessas opções serve os interesses europeus.
Respeitar fronteiras continua a ser essencial, não apenas geográficas, mas também culturais. Isso não impede a coexistência; pelo contrário, torna-a possível. A harmonia nasce do reconhecimento da diferença, não da sua negação. Naturalmente, que a diferença que se fecha no gueto, deve ser feita com espírito atento.
Num mundo em transformação acelerada, a Europa precisa de pensamento claro, liderança responsável e uma esfera pública menos intoxicada pela emoção e mais orientada pela razão. Sem isso, arrisca-se a tornar-se espectadora da História, quando deveria ser uma das suas protagonistas.
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=
A ENGENHARIA SOCIAL EUROPEIA EM ACÇÃO DEMOLIDORA
A Fábrica do Homem novo Europeu: Aborto financiado e Substituição demográfica
Quando o Estado promove a não-vinda dos seus e financia a vinda dos outros,
troca a soberania demográfica por uma crise de identidade
A votação do Parlamento Europeu de 17 de dezembro de 2025 e a proposta de fundo para o aborto expõem uma visão reducionista do ser humano e ameaçam o princípio da subsidiariedade. Neste artigo procuro analisar a questão sob o ponto de vista sociopolítico e consequente crise de soberania e de identidade.
A função primordial do Estado, na tradição política ocidental, deveria ser a de garantir o quadro de liberdades no qual as pessoas e as comunidades possam florescer segundo as suas convicções e tradições. Contudo, assiste-se na União Europeia a um desvio preocupante: a transformação do Estado e do superestado europeu, de garante em arquiteto da sociedade, utilizando ferramentas brutais de engenharia social (técnica de manipulação e desconstrução) que ignoram solenemente a complexidade antropológica das nações que governa. Esta abordagem manifesta-se de forma gritante em duas frentes interligadas: a promoção ativa do aborto como política pública e a fomentação da imigração em massa como mera ferramenta de correção demográfica, sem considerar as profundas implicações sociológicas de ambas.
O princípio da soberania individual sobre o próprio corpo é um pilar da modernidade e merece o mais profundo respeito...
O Estado, ao invés de se manter num saudável e prudente neutralismo que permitisse à consciência individual decidir no âmbito da lei, está a tomar partido, financiando o chamado “turismo de aborto”...
Bruxelas, mais uma vez, erige a homogeneização ideológica como padrão, esmagando a diversidade de perspetivas que ainda subsiste no continente.
O resultado é previsível: a regulamentação de países que ainda tentam equilibrar direitos em conflito torna-se inócua, e os contribuintes de nações com fortes objeções de consciência coletiva vêem-se obrigados a financiar procedimentos que repudiam...
É, sim, a importação massiva de população através da imigração. Esta abordagem utilitarista trata pessoas como unidades de trabalho, ignorando o profundo desafio da integração, em particular quando se trata de fluxos significativos oriundos de culturas com valores radicalmente diferentes, como é o caso de partes do mundo islâmico. Os problemas de coesão social, identitários e de segurança que daí advêm são depois geridos como “miséria do dia a dia”, numa administração de crise permanente, sem uma visão de sociedade a longo prazo... desincentiva-se a geração de vida nova própria, e importa-se vida adulta alheia, muitas vezes de contextos civilizacionais em rutura ou que se propagam através de guetos...
E passaria, acima de tudo, por ter uma visão da sociedade que não seja a de um mero agregado de indivíduos consumidores e de mercados de trabalho, mas a de um organismo histórico com uma identidade, uma memória e um futuro a construir em continuidade (Seria de perguntar: porque não criar-se um fundo europeu que garantisse a cada mulher que engravideça e tenha filho o mínimo de 2.000€ mensais?)...
O debate não é, no fundo, apenas sobre o aborto. É sobre quem decide o modelo de civilização europeia: as nações e as suas tradições morais vivas, ou uma burocracia distante convertida em missionária de um progressismo radical e socialmente disruptivo...
O maior perigo atual não reside apenas na ofensiva marxista-progressista; reside na abdicação histórica de uma direita que, ao abster-se ou pactuar taticamente com o seu adversário ideológico, lhe serve de escudo legitimador e acelera o processo de desagregação que diz pretender travar...
A Europa não definhará pelo ataque frontal dos seus adversários, mas pela mão estendida daqueles que, devendo defendê-la, lhe entregam as chaves.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=
QUANDO A POLÍTICA ESQUECE O HOMEM
Para ser lido num dia de eleições e pensado no dia seguinte
O maior problema do nosso tempo não é apenas político nem económico; é sobretudo humano...
A pergunta essencial fica sem resposta: que ideia de pessoa humana sustenta o sistema que nos governa?
Portugal não é excepção. É sintoma.
A política transformou-se, em larga medida, num exercício de imagem e de curto prazo. Discute-se tudo com ar grave, mas raramente se toca no essencial; fala-se de tudo, menos daquilo que estrutura o quotidiano real das pessoas. A saúde que não responde como devia, a burocracia que desgasta, a carência silenciosa de quem trabalha e mesmo assim não chega ao fim do mês, a solidão de muitos idosos, a invisibilidade de quem não tem voz nem palco mediático....
Vivemos numa sociedade que deixou de confiar no bom senso comum e na ordem natural das coisas para se agarrar quase exclusivamente ao poder: poder económico, poder técnico, poder mediático...
Uma Europa saturada de normas, directivas e regulamentos, mas cada vez mais pobre de sentido. Regula muito, controla mais, explica pouco e escuta menos ainda. Fala de valores, mas evita perguntar de onde vêm e para que servem...
É neste contexto que a questão ética se torna inevitável. Não como moralismo, nem como regresso ao passado, mas como condição mínima de futuro. Sem um chão ético comum, nenhuma democracia resiste por muito tempo. Não por falta de leis, mas por falta de rumo...
Para a Europa e também para Portugal, isso implicaria uma relação mais honesta com as suas próprias raízes culturais e espirituais. Não para misturar religião com poder político, nem para restaurar velhas hegemonias, mas para deixar de tratar o cristianismo apenas como um incómodo ou um resíduo do passado. Quando liberta da tentação do poder, a tradição cristã foi uma escola de universalidade: ensinou que cada pessoa conta, que o outro não é um número, nem um meio, nem um obstáculo, mas alguém. Bruxelas regula com precisão, mas já não sabe para quê. Fala de valores, mas evita perguntar pela sua fonte. Governa territórios sem pensar a geografia humana que os habita.
Sem essa memória ética, a política reduz-se à administração do imediato...
Talvez, ao entrar numa cabine de voto, a pergunta mais importante não seja apenas em quem votar, mas que tipo de sociedade queremos alimentar. Porque, no fim, não são apenas os programas que moldam um país é a ideia de homem que os inspira...
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=
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