Segunda-feira, 18 de setembro de 2017 - 09h44
Dom Jaime Spengler
Arcebispo metropolitano de Porto Alegre
Há sinais contundentes de que a sociedade brasileira está fora dos eixos. Há quem diga que vivemos uma “metamorfose epocal”. Aquilo que até pouco tempo era impensável, tornou-se manchete no cotidiano. Observam-se mudanças radicais. As velhas certezas que até um tempo recente orientavam decisões se enfraquecem sempre mais e o novo ainda não surgiu.
A sociedade do risco possui a potencialidade de conduzir a humanidade à catástrofe, mas também de abrir estradas para algo inaudito, capaz de forjar uma sociedade marcada pela justiça, paz e fraternidade. A atividade política, orientada pela ética, tem a missão de perseguir o bem comum, atuando com vista à criação de um ambiente autenticamente humano em que a todos seja oferecida a possibilidade de um real exercício dos direitos humanos e de um pleno cumprimento dos respectivos direitos.
Fatos recentes lançam questões que exigem reflexão profunda. As muitas denúncias de corrupção e os elementos encontrados que as corroboram não mais produzem indignação! Produzem apatia e preocupante descrédito nas instituições. Enquanto a elite econômica encontra trânsito fácil nos corredores palacianos, parte da elite política ignora as condições de vida da maioria pobre da população.
A violência ganha contornos de guerra. Os indícios são inocultáveis. Corpos decapitados e esquartejados! Crianças vítimas de uma crueldade exacerbada. Estudantes de escolas elementares que rastejam pelo chão para se proteger do fogo cruzado de gangues lutando pelo controle do tráfico de drogas. Chacinas se tornaram algo comum! Vitimas de balas perdidas se tornaram notícia corriqueira. O toque de recolher imposto nos bairros e vilas de nossas cidades é uma realidade. Policiais que diariamente põem em risco a própria vida recebem o salário a conta-gotas…
Professores agredidos por adolescentes recebem um indigno salário parcelado. Sindicatos mais interessados em manter privilégios e interesses que representar e defender a categoria que representam. O desrespeito pelo imaginário da fé, agressões e desrespeito pelo o que é mais íntimo e sagrado no outro: sua fé e seu corpo, e os ataques discriminatórios à cultura judaico-cristã que contribuiu na nossa formação cultural é considerado algo normal. Onde chegamos?
O Brasil é reconhecido mundialmente pela desigualdade social e pela concentração da renda, pela pobreza e corrupção, pela criatividade e religiosidade. Urge promover uma séria reflexão sobre a realidade sócio-politica-econômica brasileira e de como se estende o direito à dignidade dos filhos e filhas desta nação. Para tanto se requer o cultivo da obra do discernimento. Discernimento significa avaliar, colocar à prova, distinguir, separar, julgar em vista do bem. Existe disposição das instituições para realizar tal obra?
Papa Francisco frequentemente pede que se reze por ele. Certamente uma solicitação habitual daqueles que são investidos de alguma responsabilidade não só na Igreja, mas também na sociedade. É que qualquer iniciativa que busque romper velhos hábitos sempre encontrará resistência. Por isso, se faz necessário conhecer a realidade que a todos envolve; urge fomentar espaços de diálogo entre pessoas que acreditam ser possível superar os desafios em vista de uma sociedade marcada pelo respeito das diferenças, pela justiça e fraternidade; é salutar promover o espírito de oração e devoção que permite cultivar a necessária compreensão de que ser humano algum é perfeito, e que a condição humana é marcada pelo pecado e resgatada pelo amor de Deus.
O novo que se faz necessário pressupõe cidadãos distintos e generosos, capazes de cultivar horizontes novos caracterizados pela ética e trabalhar verdadeiramente pelo bem comum.
Fonte: CNBB
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