Quinta-feira, 4 de junho de 2026 - 08h25

Parabéns a Portugal e a Paulo Rangel pelo sucesso da eleição
Portugal
conseguiu um lugar como membro não-permanente do Conselho de Segurança
da ONU para o biénio 2027/2028, numa eleição que afastou a Alemanha do
órgão que ocupava há oito anos. Áustria e Portugal candidataram-se às
duas vagas reservadas ao grupo dos Estados da Europa Ocidental e Outros
Estados, tendo a Alemanha cedido o seu lugar.
Nos últimos tempos, a
Alemanha tem sido criticada por não contribuir de forma suficiente para a
prevenção de conflitos, mediação e ação humanitária, que são as áreas
centrais do mandato do Conselho de Segurança. A sua posição no conflito
do Médio Oriente (nomeadamente a não aceitação de um Estado
palestiniano) e o forte envolvimento na guerra da Ucrânia terão pesado
na decisão.
O Conselho de Segurança é composto por 15 Estados-membros
e as suas decisões são vinculativas para todos os países da ONU. Este
órgão máximo pode impor sanções, autorizar missões de manutenção da paz e
até o uso da força militar. Os cinco membros permanentes: EUA, Reino
Unido, França, China e Rússia, são potências nucleares e dispõem de
poder de veto.
A vaga conquistada por Portugal para o período de
2027-2028 parece estar em boas mãos. Espera-se que o país não se alinhe
acriticamente atrás de nenhum ator geopolítico, preservando assim a sua
capacidade diplomática. O ministro Paulo Rangel teve a iniciativa de
organizar a candidatura e, ao lado de tantas nações, Portugal revela-se
mestre em diplomacia, tendo superado a forte Alemanha.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=
À MINA E A TODAS AS CRIANÇAS DO MUNDO
No dia em que a infância nos lembra quem somos
Há um tipo de luz que não vem do sol; vem dos olhos de uma criança quando te olha como se fosses o mundo inteiro. É uma luz sem filtro, sem medo, sem história que a manche. É o mundo como ele era antes de aprendermos a ter pressa e a correr atrás da sombra dos outros.
Penso na Mina e ao pensar nela, vejo-a em cada criança que ainda não aprendeu a fingir, que ri com o corpo todo, que chora sem vergonha, que ama sem condições nem com segundas intenções. Mina tem sete anos e uma sabedoria que a maioria de nós perdeu algures entre a infância e a idade adulta.
Às mães que constroem o primeiro fundamento firme, esse colo que é o berço da coragem, o meu louvor mais fundo. Mina recebeu todo o amor e dedicação que uma mãe pode dar a uma criança e uma criança que cresce no aconchego cresce com raízes. Tais raízes são o que nos permite, um dia, dobrar sem partir.
Há dias, a Mina fitou-me nos olhos. Não disse nada com a boca, mas disse tudo: eu não sou um projeto teu, sou vida que já acontece, presente e inteira. Ela é testemunha de algo que os adultos complicam: que a riqueza da vida está no começo, no agora, no simples. Algo que se expressa de forma diferente em cada estação, mas começa sempre ali, na pureza de quem ainda não sabe ter medo de amar.
Depois sentou-se numa escrevaninha ao lado e desenhou. Aí, com lápis de cor e com vontade, pintou-nos aos dois: ela e eu, de olhos arregalados para a vida. E no canto da folha, com a letra ainda irregular, mas absolutamente certa, escreveu: "Vovô, eu amo-te."
Há frases que não cabem num papel e esta é uma delas. Transbordou e chegou ao meu peito e ficou lá, bem aquecida.
Noutro dia, eu estava diante do computador, esse altar moderno onde sacrificamos o presente em nome do urgente e onde eu passo a vida a escrever. A Mina chegou, ficou à porta do meu escritório e disse com uma calma que envergonha:
"Queria brincar contigo. Mas não quero que venhas se não puderes."
Sete anos que falam assim!... Sete anos e já sabe que o amor não se pede à força e não se mendiga, pois oferece-se e respeita. Há adultos que levam décadas a aprender isso. Mas Mina já sabia. (Minha querida, és um amor e ensinas-me tanto da vida!)
Por isso, neste dia que é de todas as crianças, o meu abraço mais genuíno vai para a Mina e, nela, para cada pequeno ser que ainda olha o mundo de olhos luminosos e com espanto. Que as crianças nos lembrem, a nós adultos distraídos, que o brilho não se perde com os anos. Apenas se esquece e esquecer, felizmente, tem cura.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo©: https://antonio-justo.eu/?p=
A CONSTANTE HISTÓRICA
Não é falta de inteligência
é o peso invisível
que dobra o pensamento
como água que rodeia a pedra.
Em todos os regimes,
em todos os tempos,
um povo inteiro afirma o regime
e alguns, considerados, os incómodos, os loucos, os livres
tentam abrir-lhes os olhos.
É assim que se faz.
É assim que sempre se fez.
A democracia tem o seu fraco
como todos os outros tiveram o seu!
Nela a maioria decide o que é verdade
e a estatística torna-se doutrina,
a sociologia vira catecismo,
e a sabedoria das outras disciplinas:
teologia, filosofia, história, poesia
é deitada ao chão
para que os pés dos números
não sintam o frio do mármore.
A maioria não engana com má-fé.
Engana com boa consciência,
que é a forma mais perfeita de engano.
E os dissidentes?
São tolerados como ornamento,
prova de que o sistema é livre,
enquanto o sistema segue sem os ouvir.
É assim que se faz. É assim que sempre se fez.
E é assim que sempre há-de ser!
Não fosse o povo continuar a ser povo
e as elites deixarem de ser poder.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=
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