Quinta-feira, 4 de junho de 2026 - 08h10

O Cai N’Água continua
sendo cantado pela boemia como se fosse um altar romântico da vida ribeirinha.
Mas basta chegar perto para perceber que o encanto acaba onde começa a lama. Porto
Velho é provavelmente a única cidade do planeta banhada por um rio gigantesco
que simplesmente o ignora.
Enquanto outras cidades tratam suas orlas como a sacada de uma casa — um
espaço de orgulho, história e convivência — aqui a orla se tornou um quintal
esquecido, onde se joga tudo o que não se quer. A cada novo prefeito que surge,
cresce a desolação, o desrespeito e o abandono, todos ignorando o caos que
agora está tão próximo.
Novidades por lá são
remotas. A primeira grande foi o frigorífico de peixe, que passou de um marco
de modernização e necessidade para o abandono e sujeira, como se fosse um
monumento ao fracasso. Depois veio o mercado, bonito na planta, bonito na
estrutura, mas tomado pela imundície na prática — e isso com restaurantes em
sua volta, como se higiene fosse um detalhe opcional.
Surgiu o píer de ferro
do DNIT como um presságio de grandeza — estrutura fria e sólida que, por um
breve instante, fez acreditar que o porto finalmente receberia com dignidade as
embarcações, as gentes e as riquezas que navegam em sua direção. Mas a
esperança tem vida curta onde a negligência governa. O píer foi arrancado do
lugar como quem remove um adereço inconveniente, sumindo para destino ignoto,
levado por mãos que tratam o bem público como mercadoria de armazém —
disponível hoje, desaparecido amanhã, sem explicação, sem prestação de contas,
sem vergonha.
Enquanto isso, o Cai
N'Água segue em sua glória imemorial de lama, rampas toscas e esgoto que
deságua no Madeira com a desenvoltura de quem paga seus impostos — um charme
rústico que nenhum gestor público teve a crueldade de interromper. Afinal, por
que urbanizar se pode ser feio? Por que sanear o que pode ser tolerado? Por que
dignificar o que já foi tão bem abandonado?
O poder público, esse
ser mitológico de aparição sazonal, só se materializa por ali em épocas
específicas — geralmente quando o calendário eleitoral aponta para o horizonte
e o palanque precisa de cenário. Chega com o sorriso bem ensaiado, o TikTok na
mão e as promessas cuidadosamente recicladas, reluzentes como lata amassada
pintada de dourado: as mesmas palavras de quatro anos atrás, ressuscitadas com
nova entonação e faixa diferente no peito.
E o lugar, paciente
como quem já não espera mais nada, absorve mais uma visita, mais um discurso,
mais uma fotografia para as redes sociais e volta à sua condição permanente: a
de ser tratado como se o descaso fosse tradição, e a negligência, patrimônio
cultural. Como se não bastasse, assiste-se à preferência escancarada de
destinar recursos de compensação das hidrelétricas para festas e eventos
passageiros, em vez de investir na modernização de um espaço histórico,
turístico e comercial no coração da cidade, como o Cai N’Água, que segue
abandonado apesar de sua importância para a memória, a economia e a identidade
de Porto Velho.
O Estatuto da Cidade
garante o direito ao uso seguro e digno dos espaços urbanos. A Constituição
garante o direito de ir e vir com segurança. O artigo 216 garante a proteção do
patrimônio cultural. No Cai N’Água, todos esses direitos escorrem junto com sujeira,
enquanto o cidadão desce com fé, sobe com sorte e permanece com seus direitos
ignorados.
Porto Velho virou as
costas para o Rio Madeira com tanta convicção que parece até que o rio é um
problema, não o berço histórico da cidade. O Rio Madeira está ali, imenso,
poderoso, esperando ser integrado à vida urbana novamente — mas a cidade
insiste em tratá-lo como um parente pobre que só recebe visita quando ocorre a
desgraça. Enquanto isso o Cai N’Água seguirá como um
lugar degradado, aguardando mudanças no curso do rio.
Quinta-feira, 4 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
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